Confira a entrevista na íntegra com a antropóloga Nathalie Luca, especialista em seitas e pesquisadora do Centro de Estudos Interdisciplinares de Fatos Religiosos, ligado à Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHSS), uma das escolas superiores mais respeitadas da França.

No seu entender, a Cientologia é uma seita ou não?

Para mim essa questão não faz sentido, porque se olhamos a situação na Europa, temos países onde ela é um culto registrado, e em outros − a maioria − as pessoas são totalmente indiferentes a essa nomenclatura, como na Bélgica, na Alemanha e na Itália, mesmo que nestes países ela ainda não tenha o status de culto. Na Suíça, se disse que não havia elementos suficientes para que se continuasse a atacar a Cientologia, e na Espanha, em Portugal e na Suécia ela foi registrada como culto. Para mim, essa pergunta de “é uma seita?” dá no mesmo que perguntar “ela é perigosa?”. Mas se ela fosse perigosa, como explicar que em certos países ela seja um culto e aqui seja uma seita? Eu colocaria a questão de uma outra maneira: o que faz com que, na França, a sociedade e os políticos tentem dizer às mídias para passar a mensagem de que a Cientologia é uma seita, ao mesmo tempo em que no exterior essa sentença não existe. Em outras palavras, o que significa uma seita para o Estado francês?

Até que ponto os franceses são contra a Cientologia somente por ser uma prática com origem no exterior?

Não é apenas porque vêm do exterior. Têm outras na mesma situação que não incomodam nem um pouco. O budismo tibetano vem de bem longe e, mesmo que em alguns países ele suscite interrogações, na França ele é adotado sem o menor problema. Jamais se ouve falar da menor crítica concernindo o budismo, que no entanto tem práticas que custam caro e mestres carismáticos que não se constrangem em ter relações sexuais com seus adeptos. Mas isso não incomoda. Então, não podemos dizer que “isso vem do exterior, então nós não gostamos”. O problema é quando nos perguntamos de onde isso vem. Quando vem do Tibet, nós gostamos; quando vem dos Estados Unidos, não gostamos tanto assim. Os franceses não gostam da Cientologia porque estimam que ela seja o cavalo de Tróia dos Estados Unidos. Que é aquele que nos invade, que vem nos colonizar sem que nos demos conta. A maioria dos movimentos que nos incomodam na França vem dos Estados Unidos. Mesmo os movimentos que não são de origem necessariamente americana, assim que eles transitam pelos Estados Unidos para depois chegar à Europa acabam aparecendo para nós como um cavalo de Tróia. Esse princípio vale também para a Igreja da Unificação e para outras, entre elas uma japonesa, que representam esses valores que a França teme, e mesmo que elas estejam por tudo, aqui. Temos a impressão de que recriminando a Cientologia e esse tipo de comunidades religiosas, nós vamos impedir o liberalismo de continuar o seu caminho na França.

Qual o papel da tradição católica francesa na luta contra essas novas religiões?

Temos uma longa história de tradição católica que foi perturbada com os casos de indulgências perdão divino vendido aos praticantes, que fizeram com que a França reagisse à Igreja Católica e dissesse que o dinheiro nunca mais deveria entrar em uma igreja. O dinheiro é sujo. Isso é tão forte aqui que um francês nunca lhe dirá quanto ele ganha. O dinheiro aqui é um tabu. Os movimentos que chegam dos Estados Unidos, mas não apenas de lá, mas de diversos outros países, não enxergam as coisas desta maneira, e pelo contrário: uma Igreja rica é uma Igreja que prova ser eficaz, que prova que funciona. Aqui, isso prova que é desonesta e que é preciso se enojar dela. Então surgem a todo o tempo processos de fraude contra a Cientologia e outras do gênero, que aliás quase sempre ganham os processos.

E a laicidade, ajuda para reforçar essa concepção?

A laicidade está no coração desta discussão e é a nossa arma mais importante, é a nossa jóia de família com a qual os franceses têm a impressão de formar uma sociedade a par das outras. O problema é que hoje a laicidade está doente e quanto mais ela se sente mal, mais tentamos fazer mais e mais leis para fazê-la reagir e colocá-la em forma. Mas isso não funciona, por causa da globalização. Porque os movimentos vêm de todos os lugares e não nascem em países laicos, nascem em países onde as religiões podem ter uma opinião sobre tudo e em todas as atividades, seja na econômica, na política, na educativa, na médica ou na terapêutica. Os franceses se dizem: “o que são esses movimentos que chegam aqui para se penetrar e infiltrar cerdas de atividades onde não têm nada a que fazer”, porque para eles o religioso é o privado. E se não é privado significa que eles, os invasores, querem nos manipular, se fazendo passar por essa atividade supostamente religiosa para na verdade nos levar a outro lugar.

A França está cada vez mais fechada para outras culturas, no seu ponto de vista?

A França está em crise. Os países que mais lutam contra as seitas são os países em crise e que precisam defender seus valores. Precisam encontrar alvos que façam a sociedade reagir em conjunto por seus valores. A França, então, encontrou as seitas. Graças às seitas, ela pode dizer, por intermédio das mídias e com alta cobertura: “olhem só que horror! olhem como eles são e lembrem que nós não somos assim!”. Ela tenta assim animar os franceses a reinvestirem em uma cultura em comum − mas que na realidade não é mais a mesma e nem mais comum. Ao invés de dar um passo à frente e se dizer que precisa se transformar, a França está hoje em uma etapa em que ela se fecha nela mesma e em seus valores, mesmo que os valores tenham evoluído na sociedade.

Você acredita que, neste último caso de processo contra a Cientologia, pode acontecer uma condenação da igreja baseada em uma atitude pessoal e de livre escolha adotada pela ex-membro?

É exatamente isso. O que é preciso compreender é que há muito tempo cultivamos a República e o Estado de Bem-Estar Social e esse Estado deve proteger o cidadão acima de qualquer coisa. No caso das seitas, o Estado deve proteger o cidadão mesmo contra a vontade dele. Se o Estado estima que a seita é perigosa para o cidadão, é preciso então protegê-lo. Se a população insiste em dizer que a tal seita lhe faz bem é porque não se deu conta de que na verdade ela lhe faz mal. Os políticos utilizam bem esse discurso: “eles dizem isso porque ainda não têm consciência do que vai acontecê-los depois”.

E se uma pessoa que comprar produtos da igreja e cansar destes produtos 10 anos depois, ela vai prestar queixa dizendo que não sabia que não gostaria do produto 10 anos depois. Então os políticos aproveitam e reafirmam: “vocês vêem? É a prova de que eles não se dão conta de que este produto era perigoso para eles! Eles são enganados! Eles tiveram todo o seu dinheiro roubado!” Isso acontece também freqüentemente durante os processos de guarda dos filhos depois de um divórcio litigioso. Uma das partes diz que o outro entrou em uma seita e por isso não pode mais cuidar dos filhos. Esse argumento às vezes convence o juiz, às vezes não. Então temos uma grande diferença em uma justiça de um país dogmatizado, ideologizado e fechado, e uma de um país realmente democrático, inclusive para os que querem seguir uma seita de livre e espontânea vontade. Ideologicamente falando, de certa maneira não estamos muito longe de uma China ou de uma Rússia, nestas questões.

Fonte: Terra