A condenação à prisão perpétua do ex-capelão da polícia de Buenos Aires Christian Von Wernich, na última terça-feira, 9, evidenciou mais do que a cumplicidade entre um cidadão qualquer e o conjunto de idéias e ações que caracterizaram a ditadura militar argentina (1976-83).

Para o historiador e estudioso das relações entre Exército e Igreja católica na Argentina Loris Zanatta, a aliança entre o religioso – considerado culpado por sete homicídios, 31 casos de tortura e 42 seqüestros – e o regime acusado de matar cerca de 30 mil pessoas aponta para uma proximidade perturbadora entre as aspirações do Exército e da Igreja católica no país vizinho na segunda metade do século XX.

Segundo o professor da Universidade de Bolonha, na Itália, ambas as instituições tinham em comum uma “idéia de sociedade orgânica e corporativa” e estavam decididas “a suplantar a Argentina laica com a volta da ‘Nação Católica’”.

Nesse sentido, continua o professor, a sentença proferida contra Von Wernich “tem um valor simbólico, já que revela os excessos horrendos cometidos pelos mais fanáticos defensores da pretensão de exercer o monopólio da identidade nacional e da legitimidade política”.

Autor de, entre outros, Historia de La Iglesia Argentina; Del estado liberal a la nacion católica: Iglesia y ejército en los orígenes del peronismo e Perón y el mito de la nación católica: Iglesia y ejército en los orígenes del peronismo , ele concedeu a seguinte entrevista ao estadao.com.br:

Embora muito se fale sobre a presença da teologia da libertação no período marcado pelas ditaduras militares na América Latina, a condenação do capelão argentino Christian Von Wernich na última terça-feira traz à tona uma a face autoritária do catolicismo no continente. Como o senhor descreveria a relação entre o Exército, a Igreja Católica e os católicos de maneira geral na Argentina?

Na história argentina, o Exército foi, especialmente a partir da crise terminal da ordem liberal dos anos 1930, um canal privilegiado de “catolização” do Estado. Frente à arquitetura liberal da ordem política e o ideário laico das classes dirigentes tradicionais, o Exército representou para a Igreja o lugar onde se guardava a essência da identidade nacional, o chamado “ser nacional”, identificado por ela com o primado do catolicismo e de sua idéia de sociedade orgânica e corporativa, decidida a suplantar a Argentina laica com a volta da “Nação Católica”. Desde então, o Exército e a Igreja não somente mantiveram uma estreita aliança doutrinária e institucional, como também reivindicaram e exerceram uma espécie de “monopólio da identidade nacional”, intervindo contra todas as forças que segundo seu sistema de valores às desafiava.

Nesse contexto, qual é o significado da condenação de Von Wernich para a Igreja católica argentina?

A condenação de Von Wernich tem um valor essencialmente simbólico, no sentido que revela os excessos horrendos cometidos pelos mais fanáticos defensores da pretensão de exercer o monopólio da identidade nacional e da legitimidade política; um sistema de idéias impermeável a toda forma de tolerância e pluralismo. E revela também a responsabilidade eclesiástica na espiral de autoritarismo em que caiu a sociedade argentina no final do século XX. Digo simbólico porque a Igreja mudou bastante desde então e aprendeu algumas lições da tragédia vivida pela Argentina e por ela mesma. Dito isto, não podemos esquecer que a aspiração ao monopólio político e ideológico tem sido lamentavelmente uma constante durante a história argentina do século XX. Algo compartilhado pela grande maioria dos atores políticos e sociais, incluídos aí muitos dos adversários da Igreja e dos militares.

O sr. acredita que a cúpula da Igreja conhecia as atividades do capelão?

Não é possível saber se a cúpula sabia nem a que nível é provável que soubera. Ainda assim, posso supor, a partir de minha experiência, que o corpo de capelães militares sabia ou estava em condições de imaginar o que fazia e dizia Von Wernich. Está muito claro que esse capelão devia ter um perfil criminal especialmente odioso, mas o mais importante é que sua maneira de conceber seu dever e o dos militares resultou na violenta exacerbação de um caldo cultural muito antigo e arraigado na Igreja católica.

Em sua reação à condenação, o episcopado responsável por Von Wernich pediu “perdão” pelo fato de “um sacerdote, por ação ou por omissão, ter estado tão longe das exigências da missão que lhe foi confiada”. Como o sr. analisa esta declaração? Vê algum tipo de cinismo?

Não conheço suficientemente os autores da mensagem, portanto não me atrevo a defini-los como cínicos. Acho que efetivamente uma parte da nova geração eclesiástica que chegou ao episcopado recentemente assumiu as responsabilidades que cabem à instituição. Provavelmente isso não é o suficiente e traços da antiga cultura continuam em vários ambientes eclesiásticos. Ainda assim, não podemos esquecer que a instrumentalização da mensagem religiosa para fins políticos e ideológicos foi naquela época muito difundida, e que até os Montoneros (grupo guerrilheiro argentino) tinham capelães militares que benziam suas armas. Digamos que, colocado o catolicismo no centro da nacionalidade, seu ideário e missão terminaram por incorporar e transformar em lutas religiosas todos os conflitos que atravessavam uma sociedade profundamente dividida. Espero que os bispos argentinos tenham aprendido a lição.

O sr. acredita que este julgamento irá afetar a imagem da Igreja na Argentina?

Não acho. As pesquisas seguem dando à Igreja um prestigio elevado e creio que aqueles que já tinham uma imagem ruim virão confirmada sua hostilidade. Já aqueles, provavelmente a maioria, que vêem a igreja como uma instituição muito presente na sociedade e relativamente autônoma da política e seus mecanismos, seguirão tendo uma boa idéia de sua missão.

Como deve ser a reação do Vaticano à condenação?

É muito provável que o Vaticano tente evitar comentar o assunto, tanto porque não há conveniência em dar eco a um fato no qual a Igreja não se sai bem, como porque pode ser muito doloroso e conflitante trazer à tona os aspectos mais nefastos de uma época durante a qual o catolicismo latino-americano esteve a ponto de se implodir.

Fonte: Estadão