O aposentado Joseph Callander, 65, acusa o padre xaveriano Mario Pezzotti de tê-lo abusado e estuprado em 1959, quando estudou em um extinto colégio xaveriano da cidade de Holliston, no Estado americano de Massachusetts. Nos últimos anos, ele monitora com estupefação a trajetória do clérigo, que veio ao Brasil trabalhar com crianças indígenas da tribo caiapó, no Pará.

Morando com a mulher, com quem se casou há 35 anos, Callander se indigna com o que considera uma quebra de promessa por parte da igreja, que teria lhe prometido manter Pezzotti longe de crianças. “Eles [clérigos] não precisam fazer as pazes com Joe Callander, precisam fazer as pazes com o mundo. Eles cometem o mesmo erro várias vezes. Se eles acham que as pessoas vão aceitar isso, estão errados.”

Procurado pela agência Associated Press, o padre Robert Maloney, que atuou no acordo entre Pezzotti e Callander, disse que o colega só pôde trabalhar com crianças após avaliação psicológica e que jamais houve queixas contra ele, no Brasil. De fato, na Amazônia, a denúncia gerou surpresa.

Leia abaixo trechos da entrevista com Callander:

FOLHA – O que o senhor pensa sobre a ida do padre no Brasil?
JOSEPH CALLANDER – Eu imagino como o povo brasileiro ficaria incomodado de saber que eles transferiram um pedófilo para o seu país.

FOLHA – O que aconteceu?
CALLANDER – Passei um ano nessa escola, e ele era o responsável pela escola. Eu estava no segundo ano do colegial, tinha 14, 15 anos. Ele abusava de mim, e é difícil falar disso mesmo agora, 50 anos depois. Em 1993, eu denunciei e fiz um acordo com ele.

FOLHA – Por US$ 175 mil?
CALLANDER – Mas, acredite, nem dez vezes esse dinheiro seria suficiente. Eu pagaria isso, na verdade, para apagar todos os anos em que tive de viver com isso. Não é dinheiro, é princípio. Na época, eles me prometeram que ele não trabalharia mais com crianças, e ele ficou mais dez anos no Brasil. Há fotos dele no Brasil com crianças de uma reserva indígena. Você já viu essas fotos? Elas falam por si. Esse homem é um pedófilo. Os xaverianos o manteriam longe das crianças e dez, 20 anos depois, lá está ele. Eles não mudaram nada, não mantiveram sua palavra.

FOLHA – O que o senhor esperava que fosse feito, após sua denúncia?
CALLANDER – Eu esperava que eles o mantivessem longe de crianças. Não estava escrito no acordo, mas era a palavra deles de que ele não ficaria perto de crianças em nenhuma circunstância. Em 2003, eles me disseram que isso não aconteceria e o enviaram pra Itália. Depois, o mandaram de volta em 2008. Ele ficou lá só alguns meses e tirou aquelas fotos que eles publicaram em seu próprio boletim mensal. Eu as vi e, como disse, elas falam por si. Você o deixaria tomar conta dos seus filhos?

FOLHA – Como o senhor se sentiu?
CALLANDER – Eles não mantiveram sua palavra. São mentirosos, basicamente.

FOLHA – Como o senhor se sente em relação à igreja hoje?
CALLANDER – Cinquenta anos depois, a igreja não tem papel na minha vida e nunca terá. Todos com quem eu lidei nunca fizeram o que disseram que iriam fazer, em termos de manter o mundo distante desses padres. Eles os mantiveram soltos, perto de crianças, contanto que nada fosse dito nem feito. Não sou só eu, olhe quantos casos há. A preponderância de provas está lá. A igreja não está fazendo nada sobre o problema, só quer saber se evitar o escândalo. Bom, o escândalo está aí e eles precisam resolvê-lo. E a única forma de lidar com o problema é resolvê-lo.

FOLHA – O senhor se arrepende de ter encerrado o processo em acordo?
CALLANDER – Eu me arrependo de não ter deixado mais claro no acordo que ele seria vigiado. Pensando agora, se estivesse em Massachusetts, talvez ele enfrentasse acusações criminais. […] Esse homem merece ficar na cadeia, como qualquer criminoso. Ele se livrou da cadeia e da lei só porque usa batina.

FOLHA – O senhor espera que a igreja faça para fazer as pazes com o senhor?
CALLANDER – Eles não precisam fazer as pazes com Joe Callander, precisam fazer as pazes com o mundo. Eles cometem o mesmo erro várias vezes. Se eles acham que as pessoas vão comprar isso, estão errados. É inacreditável pensar que usarão a mesma influência política para se safar de novo.

FOLHA – O papa pediu desculpas às vítimas da Irlanda há cerca de um mês, o que o senhor acha?
Ele não precisa do nosso perdão. Ele precisa fazer o que é moralmente obrigado a fazer, que é afastar esses padres de crianças e mantê-los assim. Em algum tipo de monastério, onde fiquem longe de crianças. Outra coisa que deviam estar fazendo é processá-los criminalmente para que eles possam cumprir pena, como aconteceria com qualquer um.

Fonte: Folha Online