“Os policiais me colocaram, em companhia de outros dois comparsas, em um paredão. Levei 11 tiros. Acordei no IML (Instituto Médico Legal). Pude sentir as chamas do inferno, mas retornei.”, disse um ex-chefe de uma quadrilha de assaltantes, hoje, pastor Jarbas.

A frase é de um ex-chefe de uma quadrilha de assaltantes e contrabandistas da Capital, que na década de 80 foi surpreendido por uma equipe da extinta Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) – hoje Força Tática da Polícia Militar – em um barracão de produtos contrabandeados em São Paulo. Convertido ao cristianismo anos depois, hoje ele gosta de ser chamado apenas de pastor Jarbas.

“Já era madrugada de uma quinta-feira, quando algumas garotas de programa nos deixaram no barracão. Acordei com o peso do coturno de um dos PMs no meu pescoço. Na ocasião, eu era um dos bandidos mais procurados de São Paulo. Sob a ordem do comandante da operação, eles abriram fogo. Um dos meus comparsas levou cinco tiros, o outro sete e eu fui alvejado por 11 disparos. Um deles me deixou cego”, relatou Jarbas, em uma sala de sua pequena igreja, localizada no bairro São Manoel, em Nova Odessa.

Segundo o pastor, a quadrilha foi arrastada “como cães” pelos policiais e levada para o hospital. No local, os médicos se negaram a atender “aquelas maças cinzentas perfuradas”, de acordo com o próprio pastor. “Fomos levados direto para o IML. Minha certidão de óbito já estava quase pronta. Uma funcionária retirou o lençol que me cobria, momento em que comecei a balbuciar algumas frases e mexer os braços. Deus havia me dado uma nova chance”, lembrou o pastor emocionado.

De acordo com ele, com apenas 13 anos de idade ele matou uma comparsa – também adolescente – com dois tiros. Aos 15, já comandava uma quadrilha de delinqüentes juvenis que agia na região central da Capital. Em 1971, Jarbas foi preso em uma emboscada no bairro Vila Guiomar, em São Paulo. Sua sentença: 180 anos de detenção que, com os recursos, se tornaram 17 anos de prisão, dos quais dez foram cumpridos no Pavilhão 9 da extinta Casa de Detenção do Carandiru.

“Quando terminei a pena e retornei para casa haviam matado meu pai. Minha família inteira havia se tornado evangélica. Eu havia sido libertado das cortinas de ferro, mas não do pecado. Meses depois, quando aluguei o barracão próximo à casa da minha mãe, foi que aconteceu o ‘fuzilamento’ coletivo”, disse o pastor.

Segundo ele, conhecidos que presenciaram os PMs retirando os corpos de dentro do barracão não acreditaram que ele havia sobrevivido. “Minha casa ficou cheia, gente querendo me tocar para ver se era verdade”, lembrou ele.

Fonte: O Liberal