Um arcebispo de Zimbábue, duro opositor do governo do presidente Robert Mugabe, renunciou ao cargo em meio a um escândalo sexual alegando que pretendia proteger a Igreja Católica Romana de ataques.

Num breve comunicado nesta terça-feira, o Vaticano informou que o papa Bento XVI aceitou a renúncia do arcebispo Pius Ncube, 60 anos, baseado no artigo da lei canônica que determina que um bispo deve se aposentar ou se afastar, no caso de estar doente ou se “alguma outra grave razão” o torna incompatível com o cargo.

Em outro comunicado também divulgado pelo Vaticano, Ncube diz que ele e a Igreja estão sendo vítimas de um “ataque odioso dirigido pelo Estado” no Zimbábue.

A mídia estatal do Zimbábue tem acompanhado atentamente um processo de adultério envolvendo Ncube apresentado por um ferroviário que afirma que sua mulher, uma secretária de Ncube, teve um caso de dois anos com o bispo. O marido pede uma indenização de uma soma equivalente a cerca de R$ 300 mil ao clérigo.

Em julho, a mídia estatal do Zimbábue divulgou imagens supostamente tomadas por uma câmera escondida no quarto de Ncube mostrando o que seria o bispo tendo relações sexuais com a mulher do ferroviário.

“A fim de poupar meus companheiros bispos e o corpo da Igreja de qualquer novo ataque, decidi que o melhor caminho a tomar era a renúncia”, escreveu.

Em agosto, a Conferência dos Bispos do Zimbábue acusou o governo de promover “tentativas grosseiras” de desviar a atenção da crise política e econômica do país ao dar destaque às denúncias de adultério.

Os bispos disseram que Ncube, arcebispo de Bulawayo, tem demonstrado coragem, autoridade moral e destemor ao denunciar massacres cometidos pelas tropas do governo na província de Matabeleland durante uma rebelião armada depois da independência em 1980 e durante o despejo de moradores de favelas em 2005.

Ncube acusa Mugabe de violação dos direitos humanos, pede que o presidente renuncie e exortou uma intervenção estrangeira no país. Ele convocou zimbabuanos para saírem às ruas para protestar contra o governo no momento em que o país enfrenta sua mais grave crise econômica desde a independência.

O bispo tem se negado a comentar as acusações de adultério contra ele, preferindo falar, quando perguntado, sobre a importância do perdão. No comunicado de nesta terça-feira, ele também não reagiu às denúncias, mas garantiu que continuará a defender os pobres do país, “que infelizmente se tornam mais numerosos e mais miseráveis a cada dia”.

Funcionários da Igreja Católica no Zimbábue dizem que Ncube não deixou a instituição e não rejeitou sua ordenação como bispo, simplesmente renunciou ao cargo de arcebispo de Bulawayo.

Os problemas enfrentados pelo bispo surgem no momento em que a oposição política a Mugabe já havia se enfraquecido devido a divisões internas.

Fonte: Estadão