VaticanoDocumentos enviados ao Vaticano pela Nunciatura Apostólica no Brasil entre 1922 e 1939 fazem parte do acervo que a Santa Sé colocou à disposição dos pesquisadores a partir desta segunda-feira.

Os historiadores têm agora à disposição cerca de 30 mil dossiês e dezenas de milhares de documentos relativos ao pontificado de Pio 11. São 17 anos, de 1922 a 1939, considerados como um dos períodos mais difíceis do século XX.

“Este pontificado se coloca entre as duas guerras mundiais, vê o surgimento de nazismo, fascismo e comunismo, a crise de 29, a guerra civil espanhola e a guerra no México”, explica Gian Maria Vian, professor de história da Igreja Católica na Universidade la Sapienza de Roma.

Em entrevista à BBC Brasil, o professor, que irá pesquisar no arquivo do Vaticano, afirmou que o material do acervo conta com documentos vindos do Brasil.

“A representação diplomática pontifícia no Brasil tem 180 anos, é de 1826, portanto há importantes documentos”, afirmou Gian Maria Vian.

Até hoje, o embaixador da Santa Sé no Brasil é considerado o decano do corpo diplomático no país por fazer parte da representação que é considerada a mais antiga, tendo chegado ao Brasil nos tempos do Império.

História civil e política

O monsenhor Ricardo Dias Neto, chefe de redação do jornal do Vaticano, “Osservatore Romano”, explicou que “o pontificado de Pio 11 foi muito rico e, no que diz respeito ao relacionamento com a Santa Sé, o Brasil sempre teve uma precedência muito grande”.

Na opinião do religioso, a abertura dos arquivos vai interessar os historiadores brasileiros, não apenas do ponto de vista religioso.

Foi durante o pontificado de Pio 11 que Getúlio Vargas chegou ao poder no Brasil.

“O interesse vai ser principalmente para uma atualização de documentos sobre a história da Igreja mas também sobre a história civil e política do país”.

O material proveniente do Brasil não seria apenas a correspondência entre a nunciatura apostólica e Roma.

Segundo o professor Gian Maria Vian, há também documentos do arquivo da nunciatura no Rio de Janeiro, como as cartas das autoridades brasileiras e os detalhados relatórios dos bispos sobre a situação e problemas de cada diocese.

“É uma visão de todo o país, uma documentação importante, de todos os problemas do período que vai de 1922 a 1939”.

Holocausto

Na opinião de analistas, muitos fatos históricos podem ser esclarecidos através do exame dos decretos, encíclicas, correspondência diplomática e papéis da Secretaria de Estado, que formam o arquivo privado do papa.

Segundo o vaticanista Giancarlo Zizola, vai ser possível, por exemplo, entender melhor qual foi a linha política do Vaticano sobre o extermínio de judeus por parte do regime nazista.

“A abertura deste arquivo pode dar indicações sobre a linha da Santa Sé quanto ao Holocausto, saberemos mais sobre os difíceis equilíbrios e as lutas que ocorriam nos andares altos dos palácios do Vaticano a propósito do totalitarismo, da guerra na Espanha e do 3° Reich”, disse ele à BBC Brasil.

Naquele período, alguns dos principais colaboradores de Pio 11 eram futuros papas. Eugenio Pacelli, secretário de Estado, se tornaria Pio 12, criticado por sua atitude pouco solidária com as vítimas do Holocausto. João Batista Montini, papa Paulo 6º, era funcionário da Secretaria de Estado e o futuro João 23 era então enviado apostólico na Bulgária.

Para alguns historiadores, porém, nada de muito revelador deverá surgir desta nova abertura dos arquivos secretos do Vaticano, que começaram a ser liberados para os estudiosos em etapas a partir de 1880.

Segundo a pesquisadora do Centro de Documentação Hebraica de Milão, Liliana Picciotto, “só com a abertura dos arquivos de Pio 12 é que vai se poder entender melhor qual foi o papel do Vaticano durante o Holocausto”.

Apesar das pressões, contudo, esta parte do arquivo ainda não tem data para ser aberta.

Para consultar o arquivo do Vaticano, é preciso ter diploma universitário, com curso de 4 anos, e dispor de carta de apresentação de um instituto de pesquisa.

Fonte: BBC Brasil