A igreja estava servindo de ponto de encontro para as orações de cerca de 200 muçulmanos ¿número que cresceu para entre mil e 1,2 mil no mês santo islâmico, o Ramadã -, por instrução do padre Aldo Danieli, o titular da paróquia.

O bispo de Treviso, monsenhor Andrea Bruno Mazzocato, decidiu pôr fim à experiência que vinha sendo realizada toda sexta-feira na paróquia de Santa Maria Assunta, em Paderno di Ponzano (cerca de 56 km ao norte de Veneza, em uma cidade de 11,4 mil habitantes).

A iniciativa havia sido adotada dois anos atrás, sem grande repercussão. Era uma prova prática daquele famoso princípio jornalístico inglês segundo o qual “no news, good news” (se não há notícias, isso é uma boa notícia). A idéia inicial era permitir que os muçulmanos usassem a igreja como local de oração no Ramadã, mas posteriormente a prática se estendeu a todas as sextas-feiras (o dia santo dos muçulmanos).

Ninguém estava informado sobre a idéia até que ela se tornou notícia, na semana passada, como resultado dos elogios que o pároco recebeu de uma associação que conhecia sua decisão. Os elogios geraram opiniões favoráveis e contrárias à idéia, inclusive de parte do padre Daniele. “Somos todos filhos de Deus. Nós chamamos os muçulmanos a Treviso para que façam em nossas fábricas os trabalhos que nossos jovens não desejam fazer, e pretendemos que, para além disso, eles desapareçam na obscuridade. (…) Vejo muçulmanos de mãos calejadas que vêm à igreja rezar, em adoração silenciosa, como os cristãos já não fazem. (…) Prefiro um muçulmano crente a um cristão blasfemo”.

Bruno Zaia, político da Liga Norte, o partido separatista liderado por Umberto Bossi, e vice-presidente da região do Vêneto, divulgou comunicado solicitando que o bispo expressasse sua opinião sobre o assunto. Agora todos conhecemos essa opinião. E já que estamos falando da Liga Norte, vale dizer que, no sábado, em sua cruzada pessoal contra os muçulmanos, Mariella Mazzetto, dirigente do partido e antiga subsecretária do Ministério da Educação, acompanhada de alguns correligionários, levou um porco a uma casa em Pádua (a 42 quilômetros de Veneza) na qual havia planos de instalar uma mesquita.

O objetivo de Mazzetto era contaminar o local, aos olhos humanos, devido à presença do animal, impuro de acordo com os ditames da religião deles. A ação não representa novidade: em outubro de 2000, para impedir a consagração de uma mesquita, a Liga Norte fez celebrar uma missa em Lodi, uma cidade 39 quilômetros a sudeste de Milão; em março de 2006, uma cabeça de porco foi encontrada em uma casa que seria usada para o mesmo fim, e Roberto Calderoli, que foi ministro no governo de Silvio Berlusconi, propôs há poucos meses comemorar o dia do porco, a fim de bloquear a construção de uma mesquita em Bolonha.

Estranhamente, o arquiteto italiano Paolo Caputo foi selecionado pela prefeitura de Amã, a capital da Jordânia, para construir uma mesquita na cidade. Mas retornemos ao nosso pároco, Aldo Danieli, que para justificar suas ações mencionou as palavras do Papa João Paulo 2°, segundo o qual os muçulmanos devem ser considerados como nossos “irmãos”. Infelizmente, apesar de tantas declarações sobre a compreensão mútua que deveria existir entre as diversas religiões do mundo, surgiu um grão de areia para atrapalhar.

Fonte: La Vanguardia