Nos bastidores da novela Poder Paralelo, da Record, desenrola-se uma inusitada “guerra do sexo”. De um lado está o autor Lauro César Muniz, apoiado pelo diretor Ignácio Coqueiro e pelo elenco. De outro, os bispos que dirigem a emissora, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus.

Sob a justificativa de que a história é “adulta”, Muniz carregou na pimenta. A cúpula da Record reeditou capítulos à revelia do noveleiro, para extirpar cenas de nudez e falas de conteúdo sexual explícito. Recentemente, Muniz irritou-se com o corte de uma sequência em que o delegado Téo (Tuca Andrada) fazia comentários sobre a calcinha da namorada.

O caldo entornou de vez há dez dias, quando a atriz Paloma Duarte abandonou a gravação porque fora suprimida uma cena com insinuações de lesbianismo. Diante da revolta dos artistas, chegou-se a um meio-termo: a cena foi gravada com menos cortes do que a emissora gostaria. Deverá ir ao ar nesta segunda-feira.

Na cúpula da Record, há uma certa divisão entre bispos pudicos e liberais. Tudo indica, porém, que na decisão de tesourar cenas ousadas o que prevaleceu não foram considerações teológicas, mas razões comerciais (nas quais as duas facções concordam).

Os bispos temem que o sexo afugente os espectadores, supostamente de perfil conservador, das classes C, D e E, seu público-alvo. A maneira como a direção da emissora promoveu os cortes foi desastrada. Tudo foi feito à revelia do núcleo criativo da novela, que agora incorporou um espírito de desforra: o sexo está mais presente do que nunca, ainda que apenas à contraluz.

Mas também não há por que tachar os bispos de censores neste episódio. Os pedaços ceifados não fazem falta à narrativa. O espectador foi poupado de frases como “a gente está no cio”, digna de uma canção de Wando.

E, mesmo com os cortes, ainda vão ao ar diálogos como o que se viu na última terça-feira: numa alusão à cena famosa do filme “Último Tango em Paris”, um personagem sugeriu à sua patroa o uso de manteiga numa relação sexual. Precisa mais?

Fonte: Revista Veja