A principal autoridade do Vaticano para as questões referentes ao islamismo elogiou um recente apelo para dialogar feito por líderes muçulmanos, mas disse que o verdadeiro debate teológico será difícil, já que eles vêem no Alcorão a palavra literal de Deus e não estariam dispostos a discuti-lo em profundidade.

O cardeal Jean-Louis Tauran, em uma entrevista publicada na sexta-feira pelo jornal católico La Croix, disse também que os cristãos desejariam discutir a imposição de limites à construção de igrejas no mundo islâmico no diálogo defendido por 138 estudiosos muçulmanos, que assinaram o recente apelo.

Na entrevista, Tauran disse que a Igreja deseja manter com os muçulmanos um diálogo sério que não evite algumas das questões fundamentais que dividem as duas religiões.

“Os muçulmanos não aceitam que se discuta o Alcorão em profundidade porque afirmam que ele foi escrito como um ditado feito por Deus”, disse o cardeal. “Com uma interpretação assim absoluta, fica difícil discutir os conteúdos da fé.”

Segundo Tauran, não deve ser ignorado o fato de os muçulmanos poderem construir mesquitas na Europa enquanto muitos países islâmicos limitam ou proíbem a construção de igrejas. “Em um diálogo entre os fiéis, é fundamental ter em mente que o que é bom para um é bom para o outro”, acrescentou.

O apelo feito na semana passada por 138 estudiosos muçulmanos que representam uma grande maioria do mundo islâmico convidou os líderes cristãos a um diálogo baseado na crença comum de que o amor a Deus e o amor ao próximo são a pedra fundamental de suas religiões.

Trata-se de um apelo sem precedentes porque o islã não possui uma autoridade central capaz de falar em nome de todos os muçulmanos.

Tauran elogiou o apelo, que descreveu como “um eloquente exemplo de um diálogo de espiritualidades” que mostrou boa vontade ao citar não apenas passagens do Alcorão — conforme costumam fazer frequentemente os muçulmanos —, mas também da Bíblia.

Fonte: Reuters