Numa tendência recente que preocupa os defensores dos direitos humanos, os retratos de tortura vêm ganhando espaço em vários dramas de TV lançados desde o 11 de setembro.

Desesperado para obter respostas de um suspeito de terrorismo que se recusa a falar, o agente de inteligência americano Jack Bauer invade uma sala de interrogatório e dispara um tiro na perna do prisioneiro.

Num instante o vilão se rende, revelando o alvo de um plano de assassinato.

Em outras ocasiões, o herói Bauer, para obter informações cruciais de outros vilões, os sufoca com sacos plásticos, administra injeções intravenosas que provocam dor e chega a decepar o dedo de um suspeito.

Bem-vindo a uma noite de televisão nos EUA pós-11 de setembro.

Quer isso choque a consciência dos defensores das liberdades civis ou agrade aos seguidores da linha dura, o fato é que esse tipo de cena já fez do seriado premiado com o Emmy “24 Horas” um dos maiores sucessos da rede Fox, e do ator Kiefer Sutherland, que representa o agente Jack Bauer.

Esse tipo de cena também vem provocando uma discussão sobre a conexão entre os retratos feitos por Hollywood de interrogatórios coercitivos e o tratamento dado a prisioneiros dos EUA na vida real em lugares como a prisão de Abu Ghraib e o campo de detenção de Guantánamo, em Cuba. Na verdade, alguns interrogadores militares dizem que basearam as técnicas que empregam nas coisas que viram na televisão.

Numa tendência recente que preocupa os defensores dos direitos humanos, os retratos de tortura vêm ganhando espaço em vários dramas de TV lançados desde o 11 de setembro.

Outro motivo de preocupação é que os torturadores vistos na TV são, cada vez mais, os heróis das histórias, que empregam a brutalidade para arrancar informações de bandidos em nome da verdade, da justiça e da segurança nacional.

Entre 2002 e 2005, o grupo de vigilância Conselho de Pais para a Televisão contabilizou 624 cenas de tortura no horário nobre da TV americana — um número seis vezes maior que nos quatro anos anteriores. O grupo também constatou que “24 Horas” teve 67 cenas desse tipo em suas cinco primeiras temporadas, mais que qualquer outro programa.

A Fox e os produtores de “24 Horas” se negaram a dar declarações para este artigo. Mas o produtor executivo Howard Gordon disse recentemente ao jornal Philadelphia Inquirer que vai reduzir as cenas de tortura no seriado, porque “elas estão começando a ficar batidas”.

Ainda esta semana, porém, Jack Bauer estava de volta, torturando novamente. No episódio exibido na segunda-feira ele invadiu o escritório de um cônsul russo corrupto nos Estados Unidos, deu um soco no rosto do diplomata e decepou a ponta de um de seus dedos com um cortador de charutos. Em menos de um minuto, o herói descobriu a localização de três maletas contendo bombas nucleares.

Além de “24 Horas,” os seriados “Lost”, da ABC, “Law & Order”, da NBC e “The Shield”, da FX, estão entre os muitos que já mostraram seus protagonistas cometendo violências físicas contra vilões para solucionar crimes ou evitar desfechos catastróficos.

Para alguns especialistas, o mais preocupante é que programas de entretenimento como esses inspiraram soldados americanos na vida real a interrogar prisioneiros sem terem treinamento anterior em técnicas de interrogatório, ou sob novas normas controvertidas que, segundo críticos, autorizam o emprego da tortura e desprezam os dispositivos da Convenção de Genebra.

Fonte: UOL