A divulgação da prisão do presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista (CIP), rabino Henry I. Sobel (foto), chocou a comunidade judaica de São Paulo. O rabino foi detido na última sexta-feira, 23, em Palm Beach, nos Estados Unidos, acusado de ter furtado quatro gravatas de lojas de grife.

Há um consenso entre os membros da comunidade de que a notícia pode chegar ao ponto de manchar a imagem da religião no País. “Essa história está muito estranha, duvido que o rabino tenha feito uma coisa dessas”, diz o também rabino Schmulosher Begun, que dá aulas sobre religião e história de Israel no Colégio Hebraico-Brasileiro Renascença, no bairro de Santa Cecília.

“A imagem do Sobel é importantíssima para a comunidade. Tanto que pessoas de má-fé podem usar essa informação para tentar rebaixar os judeus em São Paulo. É uma situação muito estranha para nós. Isso pode exacerbar preconceitos contra a comunidade judaica.”

O momento é delicado para a comunidade, se disseram chocados com a notícia e afirmaram que esperam a confirmação do próprio rabino Henry Sobel antes de acreditarem na veracidade da história.

Para piorar o mal-estar, o episódio ocorre às vésperas do Pessach, a Páscoa Judaica, que celebra a libertação do povo judeu da escravidão no Egito. As comemorações do Pessach começam na segunda-feira, 02.

Claudia Costin, ex-secretária de Cultura do Estado de São Paulo, disse que o fato de alguém cometer um erro não deve apagar o restante de sua biografia. Claudia lembra um momento marcante na atuação política de Sobel na comunidade judaica brasileira, em fevereiro. O momento era desfavorável à comunidade judaica. O presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, havia dado declarações de que o holocausto era uma ficção. Depois teve encontros com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Ambos estreitaram as relações políticas.

Foi marcada a cerimônia religiosa do Dia da Recordação das Vítimas do Holocausto. Sobel articulou a vinda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o evento. Depois do ato, Lula fez declarações criticando os que haviam duvidado da história. “Ele sempre teve uma representação política ativa e positiva para a comunidade judaica brasileira. Acho que sua biografia não pode ser esquecida, mesmo que ele tenha errado”.

O jornalista Norman Gall, diretor do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, disse que conhece Sobel faz 30 anos e que o considera um homem de grande sensibilidade e compaixão. Diz que todos estão sujeitos a momentos ruins e a fraquezas. Segundo Gall, caso o episódio se confirme, ele acredita que o rabino estava passando por um desses momentos complicados. “Todos passam por situações difíceis. Não imagino o que possa ter acontecido, precisamos ouvi-lo.”

Amigos mais próximos do rabino, como o diretor-presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, Cláudio Luiz Lottenberg, preferiram não emitir opiniões até ouvir a versão de Sobel. Outras seis pessoas ouvidas pela reportagem disseram que não iriam comentar até haver uma posição oficial da Congregação Israelita Paulista, comunicada na noite de quinta-feira, 29. “É uma situação muito delicada para falar qualquer coisa no calor dos acontecimentos”, diz o rabino David Weitman.

Rabino Sobel pede afastamento após prisão

O presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista (CIP), Henry Isaac Sobel, de 63 anos, pediu ontem afastamento do cargo depois da divulgação da notícia de sua prisão na sexta-feira em Palm Beach, Flórida.

No começo da tarde de ontem, Sobel negou veementemente as acusações para seus colegas da congregação e disse que tudo não passava de um “mal-entendido”. À noite, o rabino divulgou uma nota sobre o caso: “Jamais tive a intenção de furtar qualquer objeto em toda a minha vida. Pessoalmente, estou habituado a enfrentar crises e acusações de que posso me defender. Só não posso admitir que tentem desqualificar os valores morais que sempre defendi”. Com a licença, o rabino não deverá mais receber o papa Bento XVI num encontro de líderes religiosos no Mosteiro de São Bento, em maio. Às 22 horas de ontem, integrantes da direção da CIP deixaram a sede da entidade, na região central de São Paulo, sob forte esquema de segurança. Entre eles, estavam a presidente, Dora Lúcia Brenner, e o rabino Michel Schlesinger, apontado como possível substituto de Sobel.

Filho de belgas, nascido em Portugal, mas cidadão americano, Sobel mora no Brasil há 36 anos. Seu salário na Congregação Israelita Paulista, a maior do País, é estimado em R$ 25 mil. Durante a tarde, o rabino esteve em Campinas, onde participou de um evento da comunidade judaica. A CIP também divulgou nota.

A notícia surpreendeu a comunidade judaica. A artista plástica Amanda Sobel, mulher do rabino, afirmou ao Estado que sequer sabia do caso. “Não acredito nisso, só pode ser mentira”, disse ela, que nasceu em Nova York e morou em Palm Beach. “Ele estava de fato lá na Flórida, mas não falou nada comigo sobre prisão ou gravatas. Só pode ser armação. Vamos provar que essa notícia é completamente falsa.”

Segundo a ficha da polícia do condado de Palm Beach, um policial deteve o rabino duas horas depois de ele sair da Louis Vuitton, andando pela Avenida Worth. “Eu não peguei nada”, teria dito Sobel ao ser abordado pelo policial, mesmo sem ter sido perguntado. Depois que o policial afirmou que Sobel havia sido filmado pelo circuito interno de vídeo da loja, o rabino se ofereceu para pagar pela gravata, ainda negando o furto. Uma única gravata da Louis Vuitton custa, em média, US$ 150.

Depois, segundo a polícia, Sobel admitiu o furto e disse que a gravata estava em seu carro. Ele levou o policial até o carro, onde havia uma sacola com quatro gravatas furtadas, todas com as etiquetas, das marcas Louis Vuitton, Giorgio’s, Gucci e Giorgio Armani. Segundo a polícia, Sobel admitiu “não ter pagado pelas gravatas”.

Sobel foi preso e dormiu em uma cela com vários outros prisioneiros, na prisão de Palm Beach, a mesma onde ficaram a bispa Sônia e Estevão Hernandez, da igreja Renascer, presos em janeiro. Ele ficou cerca de 21 horas na cela que abriga até 64 detentos. Sobel pagou fiança de US$ 3 mil para ser liberado. Ninguém sabia que ele é rabino. “Ele disse que era professor”, disse Janet Kinsella, porta-voz da polícia de Palm Beach.

A Avenida Worth reúne marcas como Hermés, Jimmy Choo, Cartier, Valentino, Saks Fifth Avenue, Ferragamo, Gucci, Louis Vuitton e Armani. Celebridades como Donald Trump, Rod Stewart e a Família Kennedy têm casa em Palm Beach, onde a renda média anual dos habitantes é de US$ 138 mil.

Pena

O rabino foi acusado formalmente de furto em varejo pela Louis Vuitton, Giorgio’s e Gucci – a Giorgio Armani foi a única que ainda não procurou a polícia de Palm Beach. A pena máxima prevista é de 5 anos. Sobel terá de se apresentar ao juiz de Palm Beach para uma audiência no dia 23 de abril.

O caso se assemelha ao da atriz Winona Ryder, que foi pega furtando US$ 5,5 mil em roupas da Saks Fifth Avenue de Beverly Hills, em 2001. Ela foi condenada a 3 anos em liberdade condicional.

O psiquiatra forense Guido Palomba diz que, isoladamente, o crime supostamente cometido por Sobel não pode ser classificado como um caso de cleptomania. Segundo o médico, pessoas que sofrem esse tipo de transtorno costumam praticar furtos compulsivamente. Além disso, diz ele, os crimes envolvem objetos sem muito valor. “Os cleptomaníacos furtam pelo prazer do ato. São flagradas furtando tampinhas de pneus, por exemplo. Pelas notícias, não me parece ser o caso do rabino”, diz Palomba.

Na opinião dele, Sobel pode ter apresentado um “estreitamento de consciência”, denominado estado crepuscular pela literatura médica. “Por um momento, a pessoa perde a noção da gravidade de seu ato”, explica o psiquiatra. Para que isso ocorra, diz Palomba, é preciso que haja uma predisposição do indivíduo, seguida de múltiplos fatores desencadeantes. “Pode ser stress, consumo de bebidas, ingestão de remédios.”

Fonte: Estadão