Enquanto a batalha prosseguia, uma reunião dos Estados Unidos e países europeus e árabes em Roma fracassou em chegar a um acordo quanto a um plano para colocar um fim ao combate entre Israel e o Hezbollah, com os Estados Unidos resistindo aos pedidos para um cessar-fogo imediato.

Ataque de Israel ao LíbanoO conflito em duas frentes de Israel viu seu dia de combates mais pesados na quarta-feira, com a morte de nove soldados israelenses, dezenas de combatentes do Hezbollah e pelo menos 23 palestinos em Gaza. Enquanto a batalha prosseguia, uma reunião dos Estados Unidos e países europeus e árabes em Roma fracassou em chegar a um acordo quanto a um plano para colocar um fim ao combate entre Israel e o Hezbollah, com os Estados Unidos resistindo aos pedidos para um cessar-fogo imediato.

O Hezbollah manteve seu fogo sustentado contra o norte de Israel, com 130 foguetes atingindo a região, ferindo mais de 10 israelenses.

O número de mortos já é de pelo menos 433 no Líbano e 51 em Israel, segundo a agência de notícias “Reuters”.

Israel sofreu o maior número de baixas desde que o combate teve início em 12 de julho, depois que o Hezbollah capturou dois soldados israelenses durante uma incursão em território israelense. O combate terrestre mais intenso ocorreu em torno da cidade de Bint Jbail, uma fortaleza do Hezbollah no alto de uma colina, a poucos quilômetros da fronteira de Israel.

Na reunião em Roma, enquanto outros países pressionavam por um cessar-fogo imediato, os Estados Unidos defendiam um “cessar-fogo sustentável”, com o governo libanês recuperando a soberania sobre o sul do Líbano e o debandar de milícias como o Hezbollah.

A falta de ação levou o primeiro-ministro do Líbano, Fouad Siniora, a atacar com um grito de desespero. “O valor da vida humana no Líbano é menor do que o de cidadãos de outros lugares?” perguntou Siniora. “Somos filhos de um deus menor? Uma lágrima israelense vale mais do que um gota de sangue libanesa?”

Acusando Israel de “destruição bárbara”, ele prometeu buscar justiça, anunciando que o Líbano dará início aos procedimentos legais para indenizações de guerra.

Os governos europeus e árabes, assim como o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e o chefe de política externa da União Européia, Javier Solana, o apoiaram e pressionaram por um fim imediato das hostilidades ou mesmo uma trégua baseada em questões humanitárias, disseram vários participantes.

Mas em um debate tenso, às vezes tempestuoso, que durou quase uma hora, a secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, firmou o pé e prevaleceu.

Posteriormente, ela defendeu a recusa dos Estados Unidos em pedir um cessar-fogo imediato, dizendo: “Não fará bem a ninguém gerar falsas esperanças sobre algo que não vai acontecer. Não vai acontecer. Eu disse ao grupo: ‘Quando vamos aprender?’ Os campos do Oriente Médio estão repletos de cessar-fogos violados”. Ela disse que espera que a questão acabará sendo resolvida pelo Conselho de Segurança da ONU.

Em uma coletiva de imprensa após as negociações, o normalmente calmo Annan não fez nenhum esforço para controlar sua raiva em relação a Israel pelo que chamou de “ataque aparentemente deliberado” contra um posto de observação da ONU no sul do Líbano, na terça-feira. O ataque matou quatro observadores.

“O sr. Olmert acredita que foi um erro”, disse Annan, se referindo ao primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert. Apesar de pelo menos 10 telefonemas de pessoal da ONU para Israel alertando que suas posições estavam sendo atacadas, Annan acrescentou: “O bombardeio às posições da ONU começaram ao amanhecer e prosseguiram durante todo o dia”.

Ele prometeu uma investigação formal.

Rice e Annan discordaram em uma coletiva de imprensa sobre se a Síria e o Irã deveriam ser adicionados ao esforço para colocar um fim à violência. Annan pediu para trabalhar “com os países da região para encontrar uma solução”, citando o Irã e a Síria como participantes; Rice, por outro lado, disse estar preocupada com o papel do Irã e pediu para que a Síria cumpra suas responsabilidades, uma referência às resoluções anteriores da ONU.

Enquanto o mundo se concentrava na luta no Líbano, Israel prosseguiu atacando Gaza. A maioria dos mortos em Gaza na quarta-feira eram militantes, mas uma mãe e suas duas filhas pequenas morreram quando fogo de artilharia atingiu a casa delas, disse o Ministério da Saúde palestino. Uma terceira menina também foi morta e dezenas de palestinos ficaram feridos.

Em sua campanha, que teve início como um esforço para deter os ataques de foguete e que se intensificou depois que militantes palestinos capturaram um soldado israelense no mês passado, Israel atingiu casas nas áreas residenciais onde o país acredita que armas estão estocadas, causando mortes de civis em alguns casos.

Israel disse que despejou panfletos e até mesmo deu telefonemas para as famílias na área, alertando que deveriam partir porque os militantes estavam operando na área e que as forças armadas israelenses realizariam operações.

No sul do Líbano, a conversa inicial de Israel de quebrar as costas do Hezbollah aos poucos tem dado lugar a metas mais limitadas, já que as tropas terrestres israelenses estagnaram a apenas poucos quilômetros no seu avanço pelo país. A mais recente conversa é a de criação de uma zona tampão de apenas dois quilômetros país adentro, que Israel disse que poderia policiar do seu lado da fronteira.

“É possível criar uma zona tampão não necessariamente estando lá, mas entrando e saindo”, disse o general de divisão Benny Gantz, que está encarregado das forças terrestres israelenses.

Olmert informou um comitê parlamentar israelense na quarta-feira sobre os planos para a zona, segundo os participantes da sessão fechada.

Um alto oficial israelense que falou sobre o plano na terça-feira disse que tropas terrestres seriam usadas na zona. Mas Olmert sugeriu que Israel tentaria patrulhá-la de seu lado da fronteira com artilharia e ataques aéreos.

O plano já está sendo criticado, assim como o lento progresso militar por terra. Yuval Steinitz, um membro do comitê para defesa e relações exteriores que se reuniu com Olmert, descreveu o plano do governo como inadequado.

“Nós já temos tropas no Líbano, mas o governo está muito relutante em usar as forças terrestres em grande escala”, disse Steinitz, um membro do partido Likud de direita.

“Se quisermos conseguir algo com esta operação, então precisaremos realizar grandes operações terrestres e limpar todo o sul do Líbano”, ele disse.

Três dias atrás, oficiais militares israelenses na fronteira anunciaram confiantemente que primeiro a aldeia de Maroun al Ras, depois a cidade maior de Bint Jbail, tinham sido subjugadas. Mas novos combates surgiram na região, por volta do amanhecer de quarta-feira, e à tarde oficiais militares se mostravam mais circunspectos com seu progresso.

Na aldeia de Maroun al Ras, um soldado israelense foi morto e três outros ficaram feridos na quarta-feira, disseram as forças armadas israelenses. Os combatentes do Hezbollah dispararam um foguete antitanque que atingiu os soldados em um prédio, elas disseram.

Quando perguntado sobre o que as forças armadas israelenses conseguiram após duas semanas de combate, Gantz respondeu: “Eu sugeriria perguntar o que o Hezbollah conseguiu. Eles se diziam defensores do Líbano mas basicamente destruíram o país”.

Gantz, um homem grisalho e esguio que é famoso por ter sido o último israelense a deixar o sul do Líbano, depois da retirada há seis anos após uma presença de 18 anos no país, insistiu que o combate, apesar de longo, no final penderia a favor de Israel. Mas ele exibiu sinais de frustração com as pressões políticas que estão moldando o plano de batalha.

Quando perguntado se achava que a resposta de Israel à incursão inicial do Hezbollah foi desproporcional, como muitos críticos têm acusado, ele não mediu palavras. “Eu não acho que foi desproporcional”, ele disse. “Deveria ser muito mais forte e é o que faremos.”

Ele acrescentou: “Nós temos um longo caminho pela frente e muito a fazer”, apesar de não ter dito quantas aldeias precisariam ser expurgadas de combatentes do Hezbollah. Oficiais do exército israelense estão dizendo que provavelmente é irreal esperar que as forças armadas conseguirão eliminar o arsenal disseminado e bem escondido do Hezbollah, que supostamente continha mais de 10 mil mísseis quando o combate teve início.

Gantz reconheceu que seria difícil deter os foguetes que ameaçam o norte de Israel apenas com meios militares, notando que os lançadores são móveis e fáceis de esconder, podendo ser disparados de forma remota ou com temporizadores.

Outro oficial, que pediu para que seu nome não fosse citado por não estar autorizado a falar com a imprensa, notou que mesmo se Israel conseguir destruir 50 ou 60% destes foguetes, ainda restará o suficiente para manter o atual ritmo de cerca de 100 foguetes por dia por semanas.

“Tudo o que o Hezbollah precisa para vencer é não perder”, disse outro
oficial.

Enquanto isso, Israel respondeu às fortes críticas internacionais ao ataque aéreo que matou quatro observadores da ONU na terça-feira, na cidade de Khiyam, no sul do Líbano. Eles eram do Canadá, Finlândia, Áustria e China.

“Foi um erro trágico”, disse Gantz, acrescentando que não há motivo para Israel visar observadores internacionais. Outros oficiais israelenses negaram a sugestão de que Israel escolheu o posto como alvo, dizendo que tal ação não faria sentido em um momento em que o país está tentando obter uma força multinacional de manutenção da paz junto a uma comunidade internacional já relutante.

Em outro assunto que tem atraído críticas, o general reconheceu que Israel usou munições de fragmentação no conflito. As munições dispersam pequenas bombas por uma grande área e foram proibidas por alguns países devido ao alto número de vítimas civis que provocam.

O Human Rights Watch acusou Israel no início desta semana de usar munições de fragmentação contra a aldeia libanesa de Blida, em 19 de julho, matando uma mulher e ferindo pelo menos 12 outros civis, incluindo sete crianças. Mas Israel disse que as armas que usa são autorizadas pela lei internacional. “Nós tentamos minimizar seu uso”, disse Gantz. “Nós apenas as usamos em áreas específicas que foram isoladas até pelo próprio Hezbollah.”

Em outro desdobramento, aviões de carga militares jordanianos pousaram no aeroporto de Beirute carregados com ajuda humanitária. Os vôos chegaram um dia depois de Olmert ter dito a Rice que Israel autorizaria corredores de salvo conduto para que ajuda chegasse aos civis libaneses. Suprimentos de ajuda também começarão a chegar pelo mar aos portos de Beirute, Sidon e Tiro.

Um ataque aéreo israelense perto da fronteira síria atingiu um caminhão que transportava suprimentos médicos e alimentos vindos dos Emirados Árabes Unidos na quarta-feira, matando seu motorista sírio, informou a “Reuters”.

Nos combates em Gaza, blindados israelenses avançaram para os limites da Cidade de Gaza e entraram em choque com os militantes. Os israelenses derrubaram pomares e estufas na área para remover a cobertura usada pelos militantes para disparo de foguetes.

As forças armadas israelenses disseram que realizaram uma série de ataques e dispararam fogo de artilharia contra homens armados na área.

Os militantes palestinos dispararam pelo menos 13 foguetes contra o sul de Israel, ferindo levemente uma pessoa na cidade de Sderot.

Fonte: The News York Times