Lideranças evangélicas vão pedir votos em igrejas em defesa da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (foto) à reeleição. O líder da Convenção Nacional das Assembléias de Deus no Brasil (Ministério de Madureira) e presidente do Conselho Nacional de Pastores do Brasil, Manoel Ferreira, disse ontem à Folha que a entidade vai pedir aos fiéis da igreja para votar em Lula.

A atividade política é proibida pela Justiça Eleitoral em cultos religiosos. A Igreja Universal do Reino de Deus, outra evangélica com atuação política, já apóia Lula.

“Recomendamos o apoio, os pastores levam a palavra [para os fiéis]. Geralmente eles estão três vezes por semana com os fiéis do país e já falam com os fiéis que a direção se manifestou favorável [ao apoio a Lula]. É mais ou menos por aí.”

Lula estará hoje em Santa Cruz, zona oeste do Rio, para formalizar o apoio dos líderes da Assembléia de Deus.

Segundo Manoel Ferreira, a igreja “vai manifestar apoio e recomendar o voto em Lula aos fiéis”. “Apenas recomendamos, mas o voto é livre”, disse.

A “decisão definitiva” de aderir à campanha de Lula foi tomada pela Assembléia de Deus na segunda, mas o presidente receberá oficialmente o apoio amanhã, durante convenção brasileira que reúnirá cerca de 2.500, pastores de todo o país no Rio e vai de hoje a domingo.

Correntes

A Convenção Nacional é uma das duas grandes correntes da Assembléia de Deus, que congrega 9 milhões de fiéis, 22 mil pastores e é a maior pentecostal do país. O outro ramo, a Convenção Geral, com cerca da metade do total de fiéis, está com o principal rival de Lula, Geraldo Alckmin (PSDB), mas cogita desistir do apoio ao tucano.

A Assembléia de Deus detém um terço (21) dos 63 integrantes da bancada evangélica no Congresso Nacional -60 deputados e três senadores. Treze deputados e o senador Magno Malta (66% dos representantes da Assembléia no Congresso) foram investigados pela CPI dos Sanguessugas.

Questionado sobre a proibição de pedir votos em cultos, Manoel Ferreira explicou que a orientação política aos fiéis pode ocorrer em outros lugares.

“Geralmente os pastores têm, além do templo, um salão social, onde se reúnem com os fiéis e têm a parte de assistência social. Eles também publicam uma nota, boletim informativo semanal, com a decisão que a igreja tomou, de apoiar o presidente Lula”, afirmou.

A Folha mostrou terça-feira que o responsável pela Universal no Rio, bispo Gérson Cardoso, pediu votos para o candidato a governador do Estado Marcelo Crivella, bispo licenciado e sobrinho do fundador, Edir Macedo, e insinuou que um rival “cheira cocaína”.

A “razão maior” do apoio da Assembléia de Deus a Lula, segundo o pastor Manoel Ferreira, é o fato de o governo ser o “que tem dado comida ao maior número de pobres”, por meio do programa Bolsa-Família. Ele contou que a igreja realiza trabalho nessa área.

“Nossa igreja está no meio do proletariado, na classe menos provida. Temos a “campanha do quilo”, por meio da qual todos os meses distribuímos toneladas de alimentos aos mais carentes, independentemente de credo”, afirmou.

Filiado ao PTB, partido da base de sustentação do governo Lula, Manoel Ferreira disse que a decisão é exclusivamente da igreja e não tem nenhuma relação com sua legenda política. Aos 74 anos, ele é candidato a deputado federal em outubro. Ele concorreu ao Senado em 2002 e obteve 1,7 milhão de votos. Ficou em terceiro lugar.

Evangélicos cogitam retirar apoio a tucano

O ramo da Assembléia de Deus que decidiu apoiar Geraldo Alckmin (PSDB) já cogita desembarcar da candidatura do presidenciável.

“Não sei se eles [os tucanos] estão jogando a toalha. A nossa palavra ainda é essa [dar apoio]. Mas o negócio, do jeito que está, pode ser que a gente discuta o apoio”, afirma Ronaldo Fonseca, presidente do conselho político da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil (CGADB), presidida pelo pastor José Wellington da Costa. Segundo Fonseca, 70% dos fiéis da Assembléia seguem suas orientações.

A manifestação de apoio foi transmitida diretamente ao presidente do PSDB, Tasso Jereissati, diz Fonseca. A convenção pediu um espaço na agenda de Alckmin para realizar um evento de apoio em Brasília com a presença de várias lideranças da igreja. “Não entraram mais em contato e estamos aguardando”, afirma o presidente do conselho político. Ele diz que a CGADB vai esperar até o próximo dia 10. “Está complexo, difícil. Na minha interpretação, empacou.”

Fonte: Folha de São Paulo