A polícia deteve famílias cristãs no alto Egito e as obrigou a negar que foram vítimas de incêndios criminosos durante uma onda de violência anticristã que as atingiu na semana passada.

Duas famílias ortodoxas coptas disseram que a polícia as deteve por 36 horas, quando elas foram delatar um ataque a suas casas ocorrido em 13 de fevereiro. As famílias vivem em Armant, a 600 quilômetros ao sul do Cairo.

O ataque ocorreu cinco dias depois que grupos de muçulmanos incendiaram quatro lojas de comerciantes cristãos, em 9 de fevereiro.

A mídia internacional disse que boatos de um caso amoroso entre um cristão e uma muçulmana teriam motivado a violência. Mas, os jornais da região afirmam que as hostilidades tiveram início quando os cristãos foram acusados de chantagear aquela muçulmana a se converter.

Durante a onda de violência, a polícia prendeu oito jovens muçulmanos e o copta Ramy Ishaq (que teria o suposto romance com uma muçulmana de 19 anos).

Segundo os contatos da agência de notícias Compass na cidade, Ramy e sete muçulmanos permanecem sob custódia da polícia.

Dois coptas disseram que na noite de 13 de fevereiro, assaltantes atiraram blocos de algodão, embebidos em querosene e em chamas, contra suas casa no subúrbio de Armant.

Os cristãos, que pediram anonimato, disseram que eles conseguiram apagar o fogo rapidamente e então foram com os seis membros da família dar queixa na delegacia. Assim que chegaram, os policiais se recusaram a investigar o caso, dizendo que não havia provas e que o dano havia sido mínimo.

Uma fonte contou à agência de notícias Compass que a polícia fez com que os membros da família assinassem declarações de que eles mesmos haviam tentado atear fogo às suas casas para forjar um ataque dos muçulmanos e requisitar proteção da polícia.

Os policiais detiveram os seis coptas até a manhã de 15 de fevereiro, quando os cristãos finalmente concordaram em assinar as declarações de que eles haviam queimado suas casas. Segundo Makram Gerguis, morador do local, um cristão membro do conselho do governo ajudou a negociar com os coptas, prometendo que as declarações não seriam usadas contra eles.

Suspeita de chantagem

O jornal “Sawt al-Umma”, que circula semanalmente no Cairo, afirmou que as hostilidades em Armant começaram com acusações de que os cristãos forçaram uma muçulmana a se converter ao islamismo. Um artigo de 19 de fevereiro deu a entender que o copta Ashraf Narouz, dono de um estúdio fotográfico, havia tirado fotos de uma muçulmana nua e as usava para chantageá-la.

O estúdio de Ashraf e uma mercearia de outro copta, Mehareb Azer, foram seriamente danificados no ataque de 9 de fevereiro. As lojas dos cristãos Shenouda Farag e Mina Sawiris foram parcialmente queimadas. O “Sawt al-Umma” relatou que o carro de um cristão foi incendiado no dia seguinte.

O jornal também acusou o governador cristão de Qina, Magdy Iskandar, de incentivar a tensão religiosa, favorecendo os cristãos em seu governo. O jornal também culpou ativistas coptas estrangeiros de “elevar a disputa sectária ao afirmar que os cristãos são perseguidos”.

Mas entrevistas com os moradores muçulmanos de Armant, publicados no jornal copta “Watani”, deram um quadro bastante diferente.

Mohamed Abdel-Qader, pai muçulmano de um garoto de 16 anos envolvido com a violência, disse ter ficado tão bravo com seu filho que ele não o visitaria na prisão. Mohamad e outros pais culparam grupos muçulmanos radicais de doutrinarem os jovens da cidade no “extremismo e em pensamentos fanáticos” desde o final da década de 1990.

Um importante muçulmano da região, que pediu anonimato, disse que o copta Ramy provavelmente teria causado o ódio dos outros jovens por ter um negocio próspero, enquanto muitos jovens muçulmanos sofriam com o desemprego e a pobreza.

O artigo do “Watani” notou que os cristãos e muçulmanos em Armant eram bem-integrados, o contrário de outras vilas no Alto Egito, onde os grupos vivem em áreas separadas.

Fontes locais disseram ao Compass que os donos das lojas danificadas não foram indenizados pelo governo. Mas o jornal “Watani” relatou que o membro do Parlamento Mohamed al-Nubi e outros líderes da vila discutiam a abertura de uma conta particular para ajudar na reconstrução dos prédios.

Romances inter-religiosos, um tabu para as comunidades cristãs e muçulmanas do Egito, tem sempre carregado a culpa de tensões entre cristãos e muçulmanos nos últimos anos.

Os coptas afirmam que jovens cristãs são regularmente seqüestradas e forçadas a se converter ao islamismo. Essas afirmações são difíceis de se provar; céticos afirmam que as mulheres fogem por vontade própria para escapar da pobreza, situações familiares ruins, ou por amor.

Mas o debate sobre os reais motivos às vezes obscurecem a realidade de que os não-muçulmanos são discriminados sob a lei egípcia. Os homens cristãos não podem se casar legalmente com mulheres muçulmanas (embora muçulmanos possam se casar com mulheres cristãs), e não há condições legais para alguém se converter do islamismo a outra religião.

Na prática, as forças de segurança egípcias sempre cooperam com a violência anticristã, que a imprensa estatal, local e internacional amenizam sob o rótulo de “intranqüilidade sectária”.

No ano passado, dois coptas morreram e mais de 20 foram feridos em ataques contra igrejas em el-Udaysaat, em janeiro, e em Alexandria, em abril.

Fonte: Portas Abertas