Talvez o cristianismo esteja mais ligado à pequena cidade de Belém do que a qualquer outro lugar do mundo. Mas, teme-se que logo essa cidade não seja mais a terra de nenhum cristão.

Para chegar a Belém, vindo de Jerusalém, é preciso atravessar um posto de controle. Na verdade, parece mais a travessia de uma fronteira.

O pessoal da segurança israelense fica sentado atrás de vidros blindados e pedem o passaporte. Soldados ficam em pé, com rifles apoiados em seus braços.

A barreira vai subindo, e o visitante dirige através de uma passagem na muralha de 9 metros de altura, que, segundo Israel, foi construída para manter longe os homens-bomba.

A muralha separa agora Belém e Jerusalém – duas cidades que estiveram ligadas por séculos.

Resignados

Estrada abaixo, em sua sala, Reem Odeh traz as bebidas. Pequenas xícaras, cheias até à borda de um espumante café árabe.

Ela se senta em um felpudo canapé roxo. Então ela e seu marido explicam porque eles são quase os últimos cristãos a sair de Belém.

Fuad Odeh diz: “Tudo é difícil aqui. Como o trabalho – eu gasto quase duas horas todo dia no posto de controle antes de conseguir entrar em Jerusalém. Duas horas todo dia”.

Reem parece resignada. “Não há trabalho, as crianças não têm onde brincar. Não queremos sair daqui e ir para os Estados Unidos, mas você sabe…”

Eles não são os únicos a irem embora.

As últimas estimativas, publicadas no começo de novembro de 2006, mostram que os cristãos são agora apenas 15% da população de Belém.

Não muitos anos atrás, eles eram 80% da população da cidade.

A vida é difícil para todos em Belém, mas geralmente são os cristãos que têm mais meios e contatos no exterior e, assim, podem ir embora.

George Ghattas trabalha para o Patriarcado Latino de lá, e tenta animar os cristãos a ficarem.

“De uma perspectiva estatística, e do jeito que as coisas caminham política e socialmente, isso é um problema. As mudanças são muito drásticas e dramáticas em um curto espaço de tempo.”

Poucos turistas

Em uma pequena oficina de uma das travessas mais estreitas de Belém, um homem faz uma escultura de uma madeira de oliveira. Mas não há ninguém para quem vender.

Descendo a travessa, loja por loja estão fechadas, trancadas atrás de portas verdes de metal.

O turismo pode ter voltado para Israel, mas poucos turistas experimentam a viagem através do muro de Belém.

No fim da travessa fica a Praça da Manjedoura. Se chegar na hora certa, o visitante vai ver como essa cidade é misturada.

O chamado do muezim ressoa de uma mesquita em um lado da praça. E então, bem fraquinho, você consegue escutar o som dos sinos da Igreja da Natividade – onde se acredita que Cristo nasceu.

Ao meio-dia há uma procissão de velas dentro da igreja. Monges em vestes marrons andam vagarosamente dentro da gruta, entoando ricos cânticos latinos. O cheiro do incenso flutua no espaço apertado e escuro.

“Polarizado”

Publicamente, os cristãos de lá insistem que não há atritos com a maioria muçulmana.

Mas, com a chagada do movimento islâmico Hamas ao poder no começo do ano, alguns cristãos dizem agora, em particular, que eles se vestem de maneira mais conservadora. Tem havido também conflitos entre famílias cristãs e muçulmanas.

O padre Majdi Syriani diz que o problema não é local, mas global. “O mundo todo está polarizado entre o cristianismo ocidental e o islamismo. Essa é uma ameaça real, não para mim, mas para o mundo todo.”

Os cristãos de Belém não estão apenas assustados. Eles se sentem fracos e oprimidos. Muitos decidem que a melhor forma de se protegerem é ir embora.

“O cristianismo começou aqui e deve permanecer aqui”, disse George Ghattas do Patriarcado Latino. “Você pode considerar que a origem dessa religião seja basicamente monumentos, capelas e pedras, mas você não vai encontrar os seguidores dessa religião.”

Fonte: Portas Abertas