“Por todo o Cairo eu vi longas filas, de modo ordenado, esperando para votar,” relata um funcionário da Portas Abertas que esteve no Egito durante o referendo constitucional no sábado, dia 19 de março. “Falei com muitos cristãos de váras denominações – ortodoxos, presbiterianos – mas todos disseram que votariam ‘não’. E todos esperavam que a maioria no Egito fizesse o mesmo.”

“Não é que a população cristã não queira que a constituição seja mudada”, explicaram eles. “A razão que os cristãos dão é que esta mudança é muito rápida e beneficiará apenas os blocos políticos já estabelecidos – a Irmandade Muçulmana e o Partido Democrático Nacional”.

“Normalmente, uma mudança constitucional leva meses ou até mesmo anos de preparação, antes que todos os prós e contras sejam bem pesados”, disse um convertido egípcio que pediu para não ser identificado. “Então, o que acham eles? Que em algumas semanas depois da revolução, estas mudanças já estão preparadas adequadamente? Não posso acreditar nisso.”

A respeito das mudanças constitucionais, ele comentou: “Mudar a constituição é bom e necessário, mas há muito mais coisas que precisam ser mudadas. Então é melhor esperar e dar um passo de cada vez. Se você quiser fazer mudanças, tenha certeza que sejam bem feitas.”

Este cristão explicou porque ele acha que as mudanças foram feitas muito rapidamente. “O Partido Democrático nacional e a Irmandade Muçulmana estão bem organizados e querem eleições parlamentares logo que possivel. Assim sendo, outros partidos ou novas iniciativas não terão condição de se organizar. Uma vez que estes dois partidos têm a liderança, imagino que eles conseguirão uma grande maioria, se as eleições parlamentares acontecerem em apenas seis meses. Isto lhes dará a liberdade de reescrever a constituição do modo que quiserem, e a revolução terá sido inútil.”

Em outra área do Cairo, Abuna Butros mostrou seu dedo indicador sujo de tinta, indicando que havia votado mais cedo. O sacerdote serve nas igrejas clandestinas na área de Mokattam, nos arredores do Cairo, onde acompanhou o tempo todo o processo de votação durante o dia do referendo.

“Um dos locais de votação não permitiu que pessoas de outras áreas votassem ali”, disse o sacerdote. “Mas com um documento de identidade, qualquer um poderia votar em qualquer lugar no Egito. Esta situação afetou especialmente a comunidade de maioria cristã que vive em Mokattam.” Abuna Butros disse ter relatado o fato às autoridades, e felizmente, naquele dia, os cristãos da “Cidade do Lixo” em Mokattam puderam dar seu voto no referendo, aparentemente sem mais problemas.

Abuna Butros pediu oração pela nova situação do Egito, declarando que confia que algo bom surgirá, porque Deus pode fazer isso. ”Ore pela constituição e pelo país. Temos certeza de que estamos nas mãos de Deus, como correntes de águas. Esperamos por um presidente e por uma constituição vindos da mão do próprio Deus. Nós cremos que Deus nos dará isso, porque cremos que o Egito verá uma grande revolução espiritual. E queremos que seja em breve.”

[b]Votando pela primeira vez
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Para muitos egípcios, esta foi a primeira vez que votaram, porque votar em eleições anteriores parecia inútil. Um egípcio, que parecia ter cerca de 40 anos, de pé na fila de uma seção eleitoral declarou: “Estou muito feliz por votar agora. Durante as eleições anteriores eu tentei obter o cartão especial, necessário pra votar. Mas era um trabalho tão grande, que decidi não perder tempo com isto – não faria diferença mesmo. Pela primeira vez, eu tenho a sensação que o meu voto conta!” ele disse, com os olhos brilhando.

O processo de votação foi mantido o mais simples possível. Todo egípcio podia votar em qualquer lugar apenas monstrando sua identidade. O nome do cidadão e o número do seguro social eram registrados, ele(a) assinava e recebia uma cédula com dois círculos – um círculo verde para “Sim” e um círculo preto para “Não”. Depois de marcar a cédula, o dedo da pessoa era mergulhado numa tinta magenta, para impedir qualquer um de votar novamente num local de votação diferente.

Nas ruas do Cairo, várias faixas foram colocadas, convocando as pessoas a votar. Quase todas pediam um voto de “sim”, e apenas algumas poucas pediam um voto de “Não”. As faixas “Sim” diziam abertamente que eram da Irmandade Muçulmana e do Partido Democrático Nacional.

“Algumas faixas eram enganosas e exploravam a ignorância do povo”, disse o convertido egípcio. “Por exemplo, uma faixa dizia: ‘Diga SIM para uma nova constituição”. Mas as oito pequenas mudanças propostas dão poder apenas para certos grupos e certamente isto não é uma nova constituição.”

A liderança militar que temporariamente dirige o Egito não indicou quando o resultado do referendo de 19 de março será anunciado.

[b]Fonte: Missão Portas Abertas[/b]