É magia negra que eu desmancho. Eu sou especialista pra desmanchar porque eu tenho o dom”, anuncia Abrilino Fross. Este depoimento é de um homem que afirma ter poderes especiais e que hoje está na cadeia.

Ele já teria atendido, segundo a polícia, mais de 600 mil pessoas. Com alvará na prefeitura de Toledo, no interior do Paraná, ele cobra para prestar serviços de consulta espiritual. Abrilino Fross, de 56 anos, diz que escuta os espíritos e que descobre o local onde estão enterrados objetos usados em rituais de magia negra.

Em uma casa de madeira, Abrilino Fross costumava atender aos clientes. Dinheiro, amor, impotência sexual – as promessas eram de cura para todo o mal. Seduzidas, as vítimas entravam no “consultório”. Era o início de um “tratamento” longo e caro.

“A gente tinha pessoa da família com problema mental Então, a gente procurou. Eu acredito que hoje deverá passar, corrigido, R$ 150 mil”, contou uma vítima.

“O montante de algumas vítimas pode chegar a R$ 300 mil. Nós temos já provas materiais de valores de R$ 45 mil e R$ 48 mil, e ele já nos disse informalmente de valores de R$ 70 mil ou R$ 80 mil”, afirmou o delegado Júlio Reis.

No escritório do curandeiro, cada quarto tinha uma espécie de altar. Espalhadas pelas paredes, estavam milhares de fotos e cartas que seriam dos clientes. Na primeira consulta, que custava R$ 50 reais, o curandeiro fazia um diagnóstico, botando apenas um olho na vítima.

“Eu olho o pulso da pessoa e enxergo o interior da pessoa e enxergo também pelos olhos do cliente se a pessoa tem o mal feito”, dizia o bruxo.

Identificada a causa do problema espiritual, o curandeiro dizia onde estava enterrado o trabalho de que estava atrapalhando a vida do cliente. Geralmente, era em lugares distantes.

O desenterro dos trabalhos era filmado, como mostram fitas que estão sendo analisadas pelos peritos. Imagens mostram uma mulher que retira pedaços de roupas cortadas, imagens e um papel com os nomes dos parentes dela, seguidos de palavras de maldição: “Sua família vai pagar muito do mal. João vai morrer”.

Mas raramente ele permitia que a vítima fosse junto. “Geralmente, esses desenterros eram em praias, onde o cliente bancava o hotel, a viagem, toda a estadia dele. Ele ficava de três a cinco dias lá. Daí, trazia a fita como prova pra que pudesse talvez aproveitar melhor essa estadia dele junto ao mar”, explica Ana Virgínia Brinker, investigadora.

“Exatamente. Aí ele levava intacto, do jeito que ele desenterrava na sacola, segundo ele, para desmanchar na frente do cliente”, conclui a investigadora.

Em vários depoimentos a polícia ouviu a mesma história: o curandeiro mantinha relação sexual com as clientes, e a mulher dele, com os clientes homens.

“Toda pessoa que se envolvia no trabalho, depois do trabalho, ele dizia que tinha que passar mel na pessoa para os espíritos não atacarem. E ele é tão sem-vergonha que acabava passando o mel e se aproveitando das mulheres. Eu sei que de inúmeras mulheres que ele se aproveitou. Teve relações sexuais na marra, até com jovens menores de idade”, revela um homem.

Entre os depoimentos feitos à polícia, está o de uma garota de 13 anos, que também relata ter sofrido abuso do curandeiro.

Tudo funcionava exatamente como uma empresa: o curandeiro fazia um orçamento. Depois do receber o pagamento pelos trabalhos, ele emitia nota fiscal. No fichário bem organizado, havia envelopes de 3,2 mil clientes. Em um orçamento, o total da cobrança passava dos R$ 13 mil. Ele costumava escrever que tudo seria feito dentro da mais pura honestidade.

Várias casas em Toledo pertencem ao curandeiro. São imóveis nada luxuosos, segundo a polícia, para não ostentar o dinheiro que juntava com as consultas. Ele só tinha uma fraqueza, que não se importava em mostrar: o gosto por automóveis caros. Somando o patrimônio apurado até agora, o valor já passa dos R$ 2 milhões. Além das cinco casas que estão no nome dele, ainda são seis carros.

“Ele tinha um poder de atuação interestadual. Não era só no Paraná que ele prestava consulta. Em outros estados também. Há relatos de vítimas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Então, efetivamente, ele tinha uma atividade muito intensa. É um grande estelionatário, um grande charlatão. As penas somam aí mais de 20 anos de prisão”, calcula o secretário de Segurança Pública do Paraná, Luiz Fernando Delazari.

Mesmo atrás das grades, Abrilino Fross não desiste.

“Você tem trabalho contra você, viu”, finaliza o bruxo.

Fonte: Site do Fantástico