O secretário-geral da CNBB, d. Odilo Scherer (foto), de 57 anos, fala quais serão os temas discutidos durante a Conferência Episcopal e como a Igreja Católica planeja reconquistar fiéis

O secretário-geral da CNBB, d. Odilo Scherer, de 57 anos, foi eleito por Bento XVI para o cargo de secretário-adjunto da 5ª Conferência Geral do Episcopado da América Latina e Caribe (Celam), que acontece de 13 a 31 de maio, em Aparecida. O bispo falou ao Estado dos temas do encontro, considerado um dos mais importantes para a Igreja Católica e que terá a presença do papa na abertura.

Nas conferências anteriores o trânsito de fiéis não tinha a importância que tem hoje para a Igreja. Isso será discutido?

Sim. Já tivemos rachas históricos, como no Concílio de Trento (encontro em resposta à Reforma Protestante, que dividiu a Igreja). Mas agora vivemos um fato inédito: a fuga silenciosa de católicos. Não se vê um comando político nisso, como já ocorreu em outros tempos.

Esse fenômeno não é mais forte no Brasil do que nos outros países que vão participar da 5º Celam?

O avanço dos pentecostais ocorre em toda a América Latina. Mas há uma diferença fundamental do católico brasileiro em relação aos vizinhos. Aqui o fiel é mais volúvel. O brasileiro é muito religioso, mas com pouca instrução sobre a Igreja e a religião. Na América Latina, o clero sempre foi autóctone (natural da região). Durante muitos anos, o Brasil teve mais padres estrangeiros que brasileiros. Com a identidade, acaba o risco da volubilidade. E a identidade da Igreja e dos católicos será um dos temas mais debatidos. A dicotomia entre fé e prática tem de acabar. Não dá pra alguém dizer que é católico e não conhecer Jesus.

Como uma evangelização pode ser bem-sucedida?

A Igreja não tem que se preocupar com o crescimento de outras igrejas, mas em fazer bem seu trabalho. Ser missionária e cada vez mais autóctone. Esse assunto é um dos mais amplos e desafiadores já tratados pelo episcopado latino-americano.

Algumas conclusões das conferências anteriores foram consideradas conservadoras ou pouco representativas da sociedade. A de Puebla (México, em 1979) é lembrada como trincheira da Teologia da Libertação. Como deve ser a próxima?

Sempre haverá discordâncias. Há quem reivindique temas da década de 70, 80 para a 5ª Celam, por exemplo. Mas hoje as circunstâncias são outras. Estamos dentro de um novo contexto político, que está sendo formatado na América Latina (atual regime político da Venezuela). Como vamos nos posicionar? A Igreja tem de zelar pelo direito à liberdade, e o católico, exigir determinada postura de seus representantes para não ser enganado por eles. Outros temas para debater serão sobre novas situações para a Igreja, como informatização e a urbanização cada vez mais forte. Temos de mudar a forma de evangelizar nas cidades grandes, onde as pessoas têm horários cada vez menos flexíveis e medo de sair de casa.

Qual é a importância da 5º Celam para Igreja?

Não há evento igual em outros continentes. É o momento em que os líderes da Igreja colocam o pé na situação, refletem sobre seu papel com a sociedade e determinam como a Igreja vai se comportar no futuro.

Fonte: Estado de São Paulo