O líder budista Dalai Lama propôs um referendo sobre sua reincarnação, o que poderia levar ao fim de uma tradição de séculos, numa tentativa de diminuir a influência chinesa no processo de seleção do próximo líder tibetano.

Tradicionalmente, o Dalai Lama é reincarnado em um menino, logo após morrer. Vários meninos são identificados como a possível reincarnação – a partir de pistas deixadas pelo último Dalai Lama – e passam por uma série de testes até que seja identificado.

Em um encontro de religiosos de todo o mundo, na Índia, o 14º Dalai Lama, de 74 anos, sugeriu uma consulta popular entre os budistas tibetanos para saber se ele deveria reincarnar ou não, afirmando que quer tornar a escolha do líder tibetano mais democrática.

Outras sugestões seriam reincarnar enquanto ainda vivo, uma eleição feita por outros lamas, num método similar à escolha do papa, ou a possibilidade de ele próprio nomear o próximo Dalai Lama, enquanto ainda estiver vivo.

As propostas do Dalai Lama foram duramente condenadas pelo governo de Pequim.

“A declaração do Dalai Lama é uma violação clara da prática religiosa e procedimentos históricos”, disse o Ministério do Exterior.

“O governo chinês não vai aceitar nenhuma dessas propostas, já que quer controlar a futura liderança espiritual do Tibete.”

O governo comunista e ateísta parece, estranhamente, estar apelando diretamente à fé dos tibetanos.

O governo afirma que o Dalai Lama não está respeitando a tradição religiosa tibetana ao sugerir que o velho método de reincarnação seja descartado.

Pequim agora alega ser única organização que pode salvaguardar e validar as futuras reincarnações de todos os lamas.

A briga se intensificou desde setembro, quando Pequim aprovou uma lei com o objetivo de controlar a indicação de lamas de escalão mais baixo em templos no Tibete.

Segundo as novas regras, qualquer reincarnação que não seja aprovada pelo governo é considerada ilegal.

Os chineses já nomearam seu próprio Panchen Lama – o segundo mais importante na tradição tibetana – substituindo o 11º Panchen Lama, que havia sido identificado pelo Dalai Lama e que agora está desaparecido.

O governo justifica sua decisão de dar a aprovação final com base em um precedente estabelecido no século 17, sob a dinastia Qing.

Lamas em todo o Tibete são vistos como uma ameaça pelo governo chinês por serem líderes comunitários e símbolos da oposição à dominação cultural chinesa.

O Tibete é tido como uma província rebelde, e muitos tibetanos vêem a postura de Pequim como a transformação de um sistema baseado em antigas regras espirituais em uma religião organizada pelo governo, enfraquecendo ainda mais a cultura himalaia.

Apesar de estar bem de saúde, o Dalai Lama costuma falar sobre sua sucessão.

Há dez anos ele anunciou que se o Tibete ainda estivesse ocupado quando ele morresse, sua reincarnação não ia nascer em uma região controlada pela China, mas sim em um país livre.

Com o aumento da pressão sobre os monastérios tibetanos, a retórica parece estar ganhando força.

O governo chinês vê o Dalai Lama como uma ameaça à estabilidade, chamando-o de “separatista”, determinado a dividir o Tibete de sua “terra-mãe” chinesa.

O líder tibetano afirma que só quer autonomia para a região.

Fonte: Estadão