O sul-africano vencedor do Prêmio Nobel da Paz, o arcebispo anglicano emérito da Cidade do Cabo, Desmond Tutu (foto), reforçou ontem as críticas ao regime de Robert Mugabe e questionou o que mais precisa acontecer no Zimbábue para que os líderes da África digam “basta”.

Em comunicado, Tutu, que é uma das personalidades mais respeitadas do país, referiu-se à última repressão realizada contra a oposição no Zimbábue e às torturas às quais dirigentes políticos foram submetidos nos calabouços policiais.

“Nós, africanos, deveríamos abaixar nossas cabeças de vergonha”, afirmou Tutu. “Como pode o que está acontecendo no Zimbábue não provocar quase nenhuma palavra de preocupação, sem falar de condenação, de nós, os líderes da África?”, questionou o clérigo.

O líder religioso, de 75 anos, Prêmio Nobel da Paz em 1984, é, junto com o ex-presidente Nelson Mandela, uma das pessoas de maior respeito moral na África do Sul, e freqüentemente faz declarações corajosas sobre temas polêmicos no país.

“Justo quando pensava que as coisas no Zimbábue não podiam piorar, no final isto acontece”, acrescentou o arcebispo anglicano.

No domingo, a Polícia deteve vários militantes e líderes da oposição e frustrou um ato religioso com conotações políticas que seria celebrado em um estádio de Harare, capital do Zimbábue.

Vários dirigentes da oposição, entre eles o líder do Movimento para a Mudança Democrática (MDC), Morgan Tsvangirai, foram torturados pela Polícia, e muitos deles, inclusive Tsvangirai, precisaram ser hospitalizados por causa dos ferimentos recebidos.

Numa cadeira de rodas, o líder do MDC deixou hoje o hospital particular de Harare onde foi internado para realizar exames na cabeça devido a uma fratura profunda que sofreu na surra que recebeu dos agentes policiais.

“O que mais precisa acontecer antes que nós, que somos líderes religiosos e políticos da África, gritemos basta?”, questionou Tutu.

“Os direitos humanos nos importam verdadeiramente? Preocupamo-nos com gente de carne e osso, compatriotas africanos, que são tratados como lixo, quase pior que como eram tratados pelos racistas raivosos?”, criticou o clérigo.

O líder religioso disse ainda que compartilha do pesar de dirigentes sindicalistas sul-africanos que lamentaram o silêncio “de quem se esperava que falasse em favor dos que não têm voz”, referindo-se aparentemente às autoridades sul-africanas.

O Governo da África do Sul, o país vizinho que possui maior influência sobre o Zimbábue, mantém uma política de “diplomacia silenciosa”, que inclui evitar declarações públicas sobre o Estado conflituoso e atuar por baixo dos panos.

No entanto, na terça-feira, em uma declaração incomum, o vice-ministro das Relações Exteriores da África do Sul, Aziz Pahad, fez um apelo para que se cumpra o respeito à lei e aos direitos dos líderes políticos no Zimbábue.

“A África do Sul expressa sua preocupação com os relatórios (procedentes do Zimbábue), assim como com a deterioração da situação política e econômica no Zimbábue”, afirmou o vice-ministro, em uma declaração aparentemente fria, mas pouco comum para a diplomacia sul-africana.

As declarações de Pahad foram feitas horas depois de o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Ronnie Mamoepa, ter feito os comentários de costume de que a África do Sul pensa que o Zimbábue deveria resolver seus próprios problemas.

Afirmações semelhantes às de Desmond Tutu, mas com um tom mais ameno, foram feitas por líderes dos países vizinhos do Zimbábue, algo pouco freqüente na região, onde Mugabe é respeitado por sua luta contra os poderes coloniais na África.

O chefe de Estado de Gana e presidente temporário da União Africana, John Kuffour, disse esta semana em Londres que o continente estava “envergonhado” com as ações de Mugabe, de 83 anos, que está no poder desde a independência do país, em 1980.

Em Maputo, a ministra de Assuntos Exteriores de Moçambique, Alcinda Abreu, em entrevista ao site “Mediafax” reproduzida hoje, expressou a preocupação de seu Governo com os fatos no Zimbábue e pediu maior abertura política.

O chefe de Estado da Tanzânia e presidente temporário de uma organização que reúne os países do sul da África, Jakaya Kikwete, viajou na quinta-feira de surpresa para Harare para se reunir com Mugabe.

Fontes do Governo do Zimbábue disseram à Efe que a visita de Kikwete era uma resposta à “impaciência” que começa a surgir entre os países da região com o estilo de Governo de Mugabe, quem, pensam, “foi muito longe e está prejudicando a imagem da região”.

Fonte: EFE