Pastores sempre foram vistos como exemplos de fé e de conduta cristã. No púlpito, eles comandam reuniões, dirigem a congregação e traçam os rumos da comunidade. Submetidos a pressões cada vez maiores e ao estresse constante, líderes evangélicos são vítimas potenciais de problemas psicológicos.

São a eles que as ovelhas recorrem na hora dos problemas – os ministros do Evangelho precisam estar sempre prontos para um aconselhamento, uma visita, uma cerimônia fúnebre. Para muitos deles, as responsabilidades não se limitam à esfera puramente espiritual. É preciso administrar o templo, acompanhar o serviço de funcionários e auxiliares e manter a agenda sempre em dia. Por isso mesmo, pastores são objetos de contínua exposição. Espera-se deles que não falhem, mantenham o bom testemunho de vida e ainda por cima tenham sempre uma palavra abençoada.

Contudo, sem ter com quem compartilhar seus próprios problemas – ansiedade, medos, expectativas e tristezas –, pastores e dirigentes evangélicos constantemente sucumbem à pressão. A conseqüência dessa vida solitária é o aparecimento, cada vez mais freqüente, de doenças emocionais e psicológicas que, muitas vezes, afetam diretamente a vida e a saúde dos ministérios onde atuam. A tese Psiquiatria e religião: a prevalência de transtornos mentais entre ministros religiosos, elaborada pelo psiquiatra cristão Francisco Lotufo Neto, há cerca de dez anos, revelou que a média de transtornos mentais entre líderes cristãos não-católicos é enorme. E, de lá para cá, a coisa só pode ter piorado. O estudo mostrou que 47% dos pesquisados, todos evangélicos, apresentavam distúrbios mentais e transtornos de comportamento – índice bem superior ao da média da população de São Paulo, base territorial do levantamento, que ficou na casados trinta por cento.

A tese, preparada com rigor científico e apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, serviu para que Lotufo, associado ao Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos, o CPPC, entidade que congrega profissionais da área ligados ao Evangelho, obtivesse o título de livre-docente junto ao Departamento de Psiquiatria da instituição. Para se chegar ao resultado, foram enviados a 750 líderes cristãos, que moravam ou trabalhavam em São Paulo, dois questionários, que pretendiam rastrear os transtornos mentais e fazer o uma espécie de “inventário da vida religiosa” dos obreiros protestantes, das mais diversas denominações, históricas e pentecostais. Das respostas obtidas, foram sorteados 40 ministros para participar de duas entrevistas, cujo objetivo era classificar os transtornos mentais e medir a intensidade do estresse a que são submetidos. Entre outros indicadores, o estudo constatou que 16,5% dos pastores avaliados sofriam de depressão e outros 13% não conseguiam dormir normalmente.

“Uma das explicações da pesquisa para um número tão elevado de líderes cristãos com distúrbios mentais é a falta de tratamento adequado”, explica Lotufo. “Apesar de no Brasil o acesso aos serviços de saúde mental não ser fácil, isso pode ser agravado pela dificuldade que os ministros religiosos têm em procurar auxílio.” Mais: o diagnóstico que emergiu da pesquisa revela um quadro de pastores atormentados por problemas financeiros, rixas com outros líderes, dificuldades conjugais e sobrecarga de trabalho.

Pânico

O preconceito tem sido um dos maiores obstáculos que impedem a busca de ajuda especializada. Como os problemas emocionais sempre foram vistos por muitos setores evangélicos como algo demoníaco, muitas pessoas buscam a solução em campanhas de cura e libertação, correntes de oração e unções especiais. Como nem sempre conseguem o resultado esperado, os doentes só procuram especialistas quando se encontram em situação desesperadora. “Os líderes não querem se expor aos membros da própria igreja. Quando chegam aos nossos consultórios, o caso já é de emergência”, revela o psicólogo clínico João Carlos Gomes. “E alguns ainda têm dificuldade de perceber que nem tudo é espiritual”, completa. Gomes, que é membro da Igreja O Brasil para Cristo, explica que apesar dos pastores conhecerem de perto o Evangelho e seus benefícios para o corpo, a alma e o espírito, acabam deixando de lado os cuidados com a mente. Há situações absurdas: “A gente encontra pessoas que tiveram dependência química e, chegando a uma igreja, são precocemente colocadas em posição de destaque. Sem estrutura para suportar o assédio e a pressão, acabam sucumbindo – isso, quando não retornam ao vício. E não querem pedir ajuda, já que são líderes”, aponta.

Palpitações cardíacas, suor excessivo, queimações no estômago, tremedeiras e pavor da morte são os sintomas que, normalmente, afetam o pastor E.S, 42 anos, durantes suas crises. Os primeiros sinais de que estava doente apareceram há três anos, após um mal-estar sofrido em casa. Submetido a uma bateria de exames, nada foi constatado em relação à sua saúde – era um caso típico de estresse causado pelas demandas ministeriais. O pastor, que lidera um grupo de 300 congregados, até hoje não sabe ao certo o que gerou a doença. Ele afirma que sempre teve uma vida tranqüila, administrava uma boa igreja, praticava esportes com regularidade e não deixava as preocupações ministeriais atrapalharem a boa relação familiar. Porém, a enfermidade apareceu numa época de muita dedicação à obra. E.S. exercia as funções pastorais e ainda cuidava da construção do novo templo, 40 km longe de sua casa. “Minha vida era acordar às 7 horas da manhã e dormir à 1 hora”, recorda.

Depois de muita resistência, o pastor, que por constrangimento não quer ser identificado, aceitou tratamento mental. Logo na primeira sessão, descobriu que sofria da síndrome do pânico. “Logo eu, que era daqueles que sempre acreditaram – e pregava assim – que o crente jamais poderia sofrer esse tipo de problema”, confessa E.S. O psiquiatra lhe receitou dois medicamentos controlados, de tarja preta, que tomava duas vezes ao dia. Hoje um pouco melhor, o evangelista continua tomando remédios, inclusive um para controlar as áreas do cérebro que desencadeavam os sintomas. “Só entende aquilo que Jesus passou no Getsêmani, quem tem síndrome do pânico”, compara, referindo-se ao dramático episódio em que o Filho de Deus, angustiado diante da perspectiva do Calvário, chegou a suar sangue, um quadro característico do mais alto grau de estresse, um verdadeiro colapso nervoso. Depois do susto, E.S. mudou a rotina de trabalho e passou a dividir tarefas com auxiliares.

“Síndrome de messias”

O pastor e psicanalista Joel Pedro da Silva Júnior explica que líderes que têm distúrbios mentais apresentam comportamentos parecidos. “Normalmente, são pessoas solitárias, sem conselheiros espirituais. Tornam-se profissionais da fé – querem conquistar resultados e serem eficientes do ponto de vista institucional”, enumera. “Além disso, não aceitam opinião de outras pessoas, são impacientes e egocêntricos, mas convivem com uma grande frustração.” As atividades ministeriais, somadas aos problemas no trato com os membros da igreja e os compromissos diários contribuem para construir este quadro de transtornos emocionais. O psicólogo Luiz Antônio Pereira, que há 24 anos também atua no ministério de aconselhamento, afirma que muitos líderes vivem a “síndrome de messias”, ou seja, acham que têm que se responsabilizar por tudo e por todos. “É preciso que cada um se conscientize dos seus limites e trabalhe dentro deles”, adverte.

Pastor da Igreja Batista Ebenézer, em Santos (SP), José Carlos Carvalho conhece bem a rotina de um líder sobrecarregado. Único responsável pelos 70 congregados e sem férias há anos, ele muitas vezes viu-se na necessidade de executar tarefas completamente estranhas ao ministério pastoral, como limpeza do templo e coordenação de obras e reformas. Isso, claro, sem abrir mão do aconselhamento e orientação às ovelhas, da organização de eventos, das visitas, das pregações e da direção dos cultos. Ele reconhece que agia assim por puro ativismo: “Eu pensava que a igreja era minha, que tinha que prestar contas e fazer tudo”, lembra.

Os primeiros sinais de que algo ia errado se manifestaram em dezembro de 2004, quando seu irmão morreu. Sem extravasar a dor que sentia, e ainda tendo que dar conta de tantos compromissos, Carvalho desabou – começou a apresentar sintomas físicos como cansaço fora do normal, indisposição, irritabilidade, distúrbios de sono e indiferença em relação à mulher. Após procurar ajuda profissional, ficou claro que o problema ia muito além do luto pela perda do parente: o pastor estava mesmo era com depressão, agravada pelo estresse e excesso de trabalho. Desde então, faz terapia e toma medicamentos antidepressivos. “Quando comecei o tratamento, sentia vontade de abandonar tudo, até o ministério.Tinha dias que eu queria ficar só deitado”, admite. Mas seu quadro geral melhorou bastante. Sob orientação médica, passou a dividir as atividades, praticar exercícios físicos e ter momentos de lazer com a família. “Sinto-me melhor. Agora, consigo sentir Deus de uma outra forma”, comemora.

Competitividade

A pressão exercida por algumas instituições eclesiásticas exigindo resultados positivos das lideranças é, segundo o psicanalista Joel Júnior – que é ligado a uma igreja Batista renovada –, outro fator determinante para que distúrbios emocionais surjam. Ele explica que pastores com congregações pequenas sentem-se inferiorizados em relação aos que lideram grandes ministérios – e isso, quando a própria denominação não estimula a rivalidade entre seus ministros em busca de melhor desempenho.

Como alternativa ao ativismo, o especialista lembra a trajetória de Moisés, um dos mais destacados líderes descritos no Antigo Testamento. A conselho do sogro, Jetro, o libertador de Israel delegou poderes a assessores que cuidassem das questões menores e do dia-a-dia do povo, enquanto ele se ocupava dos grandes assuntos de Estado. Segundo o psicanalista, muitos ministros acabam sendo acometidos por doenças mentais por tentarem mostrar o que realmente não são. Júnior lembra que Jesus nunca fazia ‘marketing pessoal’ , mas convencia e ensinava com sua postura e mensagem.

Joel Júnior, que também integra o CPPC, lista práticas que contribuem para o aparecimento de problemas psicoemocionais. Conforme o psicólogo, por não tirarem férias, muitos líderes ficam estressados mental e fisicamente, proporcionando o aparecimento de desordens mentais. Para isso, ele sugere que ministros respeitem os limites do corpo, trabalhem uma média fixa de horas por dia e não abram mão de folgas semanais, como qualquer trabalhador. “Se o físico agüentar, o psicológico não agüenta por muito tempo”, alerta.

A falta de um conselheiro, comum para quem ocupa posição de liderança nos ministérios, também é algo negligenciado. “Os pastores e líderes, de modo geral, precisam de um supervisor ou um conselheiro, uma pessoa mais idosa e madura espiritual e emocionalmente, com quem o ministro possa ter liberdade para compartilhar sua vida pessoal e ministerial. Afinal, os pastores também precisam ser pastoreados”, enfatiza. Outro fator que favorece o aparecimento de doenças mentais, conforme o especialista, é a falta de um entendimento de que o Evangelho é baseado na graça. “Muitos líderes ainda vivem um ‘evangelho da lei’, sentindo-se culpados por pecados que cometem e não conseguem se perdoar e sentir o perdão de Deus. O cristão, inclusive o líder, precisa ter consciência de que é pecador e que precisa correr para a cruz de Cristo.”

De volta ao campo

Ex-presidente do Conselho de Pastores do Estado de São Paulo e dirigente da Comunidade da Graça, o pastor Carlos Alberto Bezerra afirma que a situação enfrentada por ministros evangélicos foi algo anunciado por Cristo. “Jesus advertiu seus seguidores de que teria aflições neste mundo”, ressalta. “Em nenhum momento, o nosso Deus nos promete o paraíso nesta vida e seria injusto que nós, por sermos cristãos, tivéssemos menos problemas do que aqueles que ainda não tiveram o privilégio de conhecer a Cristo.” Bezerra acha que problemas psicológicos e emocionais são comuns na sociedade de hoje – e não haveria o porquê dos pastores permanecerem imunes a este tipo de situação. “A Igreja está inserida na sociedade. Parece-me óbvio que esses problemas ocorram, porque a vida nas grandes cidades é cada vez mais complexa”, comenta.

Além disso, na opinião do pastor, teologias que enfatizam a prosperidade e não o relacionamento com o Senhor propiciam o aparecimento de novas neuroses. “A teologia da prosperidade é neurotizante na medida em que nem sempre os milagres prometidos acontecem – e, quando não acontecem, os crentes se sentem culpados, porque acham que estão em pecado. Daí para a doença da alma é um pulo.” Foi o que aconteceu com o missionário Luis Gonzaga Chirico França, 43 anos. Ele só descobriu-se portador de uma enfermidade mental quando estava prestes a se formar, em 2003. Na época, ele estudava no renomado Centro Evangélico de Missões, na cidade de Viçosa (MG).

Diferente do que acontece com a maioria dos irmãos que recebem este chamado, França já esteve no campo antes de ingressar no seminário – entre 1999 e 2001, integrou a equipe do navio missionário Logus e pregou o Evangelho em 26 países dos continentes africano e europeu. De volta ao Brasil, foi encorajado, pela liderança, de sua igreja, a estudar para depois voltar ao campo. Porém, o projeto teve que ser adiado por causa do pânico. Depois que começou a fazer terapia com um psicólogo e a investigar as possíveis causas, Chirico descobriu que traumas da infância contribuíram para que a doença surgisse. “O que me causava o pânico não era apenas o problema do passado, mas a convicção de que Deus não me aceitaria do jeito que eu sou.” Seu quadro de pânico se manifestava em lugares com grande concentração de pessoas como supermercados e até igrejas. Além disso, ele temia andar sozinho. No corpo, as crises provocavam taquicardias, desconforto e a sensação de que a qualquer momento iria desmaiar. “Depois, descobri que isso era fantasioso. Jamais uma pessoa morreu de desmaio ou de pânico, isso é um sentimento psicológico. O meu medo era falar para Deus que eu era essa pessoa com defeitos, agressividade e limites”, admite. “A culpa evangélica me causou pânico, e não o Deus evangélico”, completa. Hoje, tratado, superou o problema, embora continue fazendo terapia uma vez por semana.

Enquanto o momento de voltar a divulgar as boas novas pelo mundo não chega, o missionário lidera trabalhos de uma igreja Presbiteriana de Santos (SP). “O pânico já ficou para trás e os problemas da infância já estão sendo consertados”, comemora. “Eu não estou na terapia apenas por causa do tratamento psicológico; quero crescer como pessoa, estou abrindo os meus horizontes, experimentando novas coisas e me conhecendo como uma pessoa melhor. O Senhor está me fazendo crescer devagarinho”, diz, lembrando que grandes heróis bíblicos, como Paulo e o próprio Moisés, foram tratados por Deus antes de começarem seus ministérios. “Deus não faz o nosso problema desaparecer, mas é Ele quem nos trata”, sentencia.

Fonte: Revista Eclésia – Edição 118