No Brasil, do total de 459 bispos, 273 (59%) foram nomeados pelo papa polonês e 102 (22%), pelo seu sucessor alemão.

O episcopado brasileiro tem hoje o perfil dos dois últimos papas. Do total de 459 bispos, contando os da ativa e os aposentados, 270 foram nomeados por João Paulo II, em 26 anos e 5 meses de pontificado, e 102 por Bento XVI, em 5 anos e 8 meses. A maioria assumiu as dioceses após o Concílio Vaticano II (1962-1965), representando uma nova geração mais voltada para o pastoreio de seu rebanho e menos preocupada com os problemas sociais e políticos do Brasil.

“Boa parte dos bispos mais novos não tem o concílio como referencial, porque, na atual perspectiva de Igreja, a conferência episcopal está enfraquecida, valendo mais a relação direta entre bispos e papa, numa comunhão mais vertical que horizontal”, observa o padre Manoel Godoy, ex-assessor da CNBB em Brasília. “Com raras exceções, não se vê bispo com grandes iniciativas, pois os bispos agora são mais tímidos e mais curiais (alinhados com a Cúria Romana), embora haja um ou outro mais preparado”, acrescenta.

Padre José Oscar Beozzo, teólogo e autor de A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II, classifica como excepcional a geração de bispos de 40 anos atrás, não só pelo cuidado do então núncio apostólico, d. Armando Lombardi, na escolha dos indicados, mas sobretudo pela experiência do concílio. “A experiência do concílio significou que os bispos conviveram entre si, trabalharam juntos e se confrontaram com questões novas e difíceis.”

Os bispos resumiram os 16 documentos do concílio em 6 linhas pastorais, a partir da realidade brasileira. As mudanças assustaram. Saíram mais de 4 mil padres, de um total de 12 mil. “Foi dramático, mas compensou, porque milhares de leigos vestiram a camisa do Vaticano II e a Igreja passou a ser carregada por outras forças”, diz padre Beozzo. Em sua opinião, o caminho lógico seria ter avançado mais, com mais funções para leigos, incluindo a ordenação sacerdotal para homens casados e mulheres.

“Isso se abortou na Igreja que, infelizmente, perdeu o bonde da História”, lamenta. Poucos bispos defendem a ordenação de homens casados, embora a proposta tenha sido apresentada com aval da CNBB em dois sínodos, depois de ter sido levada por dois delegados brasileiros ao Concílio Ecumênico Vaticano II. Os papas Paulo VI e João Paulo II vetaram a discussão.

D. Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau, defende a ordenação de homens casados, para atender as comunidades abandonadas. O Brasil tem 20.561 padres para cerca de 130 milhões de católicos. É pouco para as 10.218 paróquias de 273 dioceses do País.

Apesar dos desafios, d. Angélico é otimista: “É preciso rever o concílio, sem saudosismo.” D. Angélico insiste que todos – bispos, padres, freiras e leigos – têm de ser discípulos e missionários de Jesus Cristo, adaptando os documentos e a orientação do Vaticano II à nova realidade. A Igreja tem de se renovar, diz o bispo, para enfrentar os desafios atuais, que são o consumismo, o relativismo, as drogas e o sexo, especialmente para os jovens, por causa da falta de horizonte.

[b]Fonte: Estadão[/b]