Os sacerdotes católicos croatas aconselham as mulheres que sofrem maus-tratos de seus maridos a se resignarem, pois, caso contrário, cometeriam um pecado, segundo uma pesquisa da freira franciscana Rebeka Anic.

“Na cidade de Split, quando uma vítima pediu ajuda a seu pároco, ele a aconselhou a ‘dar à luz novamente’ e disse que, assim, ‘a situação em sua família melhoraria'”, assegura Anic em declarações publicadas pela imprensa croata.

A religiosa, doutora em Teologia e vice-diretora do Instituto Franciscano da Cultura da Paz, foi encarregada de elaborar o estudo intitulado “Violência contra a mulher”.

Este e outros conselhos similares – adverte Anic – indicam que a Igreja Católica croata desconhece a dinâmica da violência doméstica contra a mulher.

“Incorretamente, um sofrimento sem sentido é justificado e isso apenas apóia o círculo vicioso da violência e do sofrimento, em vez de encorajar a mulher a se opor à violência”, acrescenta Anic, que entrevistou 21 voluntárias de organizações eclesiásticas e paroquianas vítimas de maus-tratos.

Anic afirma que o problema da violência familiar é completamente ignorado pela literatura teológica e que os sacerdotes se comportam como se tivessem se esquecido de que, além do divórcio, existe também a separação, que a Igreja permite.

A religiosa também afirma que os sacerdotes se esquecem de destacar que a preservação da instituição do casamento “não deve custar a vida de membros da família”.

Nos cursos para noivos organizados pela Igreja também não é abordado o problema da violência doméstica, assim como não são tratadas as formas de reconhecê-la, preveni-la e reagir a ela, segundo a franciscana.

Cerca de 85% dos croatas se declaram católicos, mas, segundo esse estudo, apenas 5% das mulheres maltratadas procuram a Igreja para pedir ajuda.

O estudo conta que uma mulher que sofreu graves maus-tratos durante 17 anos, desistiu de deixar o marido após conversar com seu sacerdote.

Em outro caso, uma mulher que sofria constantes humilhações na presença de seus filhos foi aconselhada a continuar a agüentar essa situação.

O estudo também menciona o caso em que um pároco “não dava ouvidos” às queixas sobre um fiel que batia em sua filha com uma tábua de madeira.

O Frei Boze Vuleta, diretor do Instituto Franciscano para a Cultura da Paz, assegura no prólogo da publicação que o objetivo da pesquisa não foi prejudicar a Igreja, mas, ao contrário, “movimentar os processos pastorais paralisados”, para que a Igreja proteja “os mais atingidos” pelo problema.

Fonte: EFE