A cena é rotineira em muita cidade brasileira: um casal começa a namorar, casa, tem filhos, vê as crianças crescendo e depois de anos se diverte brincando com os netos, rodeado da família. De forma crescente, no entanto, essa cena tem se tornado nem tanto rotineira porque tem dado lugar a novos modelos de formação familiar.

A família tradicional, aquela formada por pai, mãe e filhos convivendo em um mesmo ambiente chamado lar, não consegue mais ser o único modelo vigente, já que a cada dia tem sido comum a existência de mães e pais divorciados, ou mesmo viúvos, que criam seus filhos sozinhos, mas pensam em se casar de novo. Ou pessoas que criam seus filhos acompanhados por um novo cônjuge, que assumiu os filhos do outro, frutos de um relacionamento anterior.

Esses e outros novos formatos de família tornaram-se um desafio para muitas igrejas evangélicas e são reflexo de dados revelados pelo último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2003. Aos poucos, a mulher tem conquistado sua emancipação financeira, dependendo cada vez menos do homem para sustentar um lar. De acordo com o levantamento, o percentual feminino na população ocupada passou de 38,8%, em 1999, para 40,3%, em 2000. O número de domicílios sob a responsabilidade de uma mulher saltou de 18,1%, em 1991, para 24,9%, em 1999.

Especialistas apontam que essas mudanças sociais trouxeram conseqüencias para a constituição da família. Na análise da professora e pesquisadora do Departamento de Psicologia da Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) Terezinha Féres-Carneiro, hoje existem mais famílias monoparentais em razão de produções independentes ou de separação. “Atualmente, as mulheres dependem menos economicamente do marido e têm mais tranqüilidade para pedir a separação”, afirma a professora, organizadora do livro Família e casal: arranjos e demandas contemporâneas (uma parceria entre a Editora PUC-Rio e Edições Loyola).

Ela argumenta ainda que, mesmo com todas as configurações da família brasileira, esta nunca deixará de ser a referência mais importante para o indivíduo, “sobretudo se considerarmos que os pais são os principais modelos de identificação para os filhos”. Terezinha acrescenta que “assim, ninguém consegue escapar da família que tem”. E as igrejas não conseguem escapar do reflexo das mudanças na sociedade. As “novas famílias” estão ali, sentadas nos bancos, participando dos cultos, das orações, do louvor e de várias outras programações.

Secretária de uma igreja batista no interior de São Paulo, Ruth Daniel de Souza é divorciada e cuida sozinha da filha Marcella, 16 anos. O casamento, que foi realizado numa igreja evangélica em 1987, rompeu-se três anos depois. Ela conta que, já na gravidez, o casal se afastou da comunhão dos irmãos, e sua presença nos cultos já não era tão assídua. O relacionamento desmoronou quando o marido a traiu com a funcionária da padaria que Ruth e o marido mantinham. “Na época, era funcionária pública e tinha segurança financeira. Isso me ajudou na decisão de me separar”, diz, confirmando a análise de especialistas.

Ruth Souza recebeu conselhos do pastor da igreja da qual era membro na época. “Ele me aconselhou a separação.” Hoje, numa nova igreja, ela afirma que sabe que a filha sente falta de uma figura masculina na casa, mas, ao mesmo tempo, confia na provisão de Deus. Ruth já tentou encontrar um novo companheiro. Sobre o seu relacionamento na igreja, responde de maneira firme: “Sou respeitada porque sempre me dei ao respeito.”

A professora da PUC-Rio afirma que, por mais que se questione se a família está viva ou morta, conclui-se que está cada vez mais viva e cada vez mais importante. “Então, poderíamos perguntar por que as pessoas se separam tanto? Separam-se porque têm expectativas muito elevadas em relação ao casamento e às relações familiares. Mas, se observamos bem, a maioria das pessoas que se separa caminha para um novo casamento”, conclui Terezinha.

O professor Cláudio de Castro, 39 anos, está todos os fins de semana com o filho Lucas, 10 anos, na pequena igreja presbiteriana de que é membro. Sempre só os dois. É que ele está separado da mãe do garoto há quase três anos. “Não senti pressão da igreja para continuar casado e sinto que sou bem recebido, tanto que sou um dos oficiais da igreja”, explica. “Pretendo me casar de novo porque sinto que tenho condições de formar uma nova família”, planeja.

Histórias como a de Ruth e Cláudio estão espalhadas por todos os cantos do Brasil, mas nem sempre com um final tranqüilo. Afinal, como as igrejas têm se comportado diante dos novos modelos de famílias que elas próprias abrigam? Independentemente dos motivos – muitos especialistas afirmam que os evangélicos casam mal, principalmente em razão da necessidade sexual – , o divórcio ainda é tratado com receio, pudor e intolerância por muitos evangélicos, embora essa situação seja enfrentada até mesmo pelas lideranças das igrejas, inclusive seus pastores.

Mas é com tristeza que muitos encaram as separações entre casais, principalmente entre aqueles que nasceram e cresceram numa igreja. Afinal, casamento é algo que Deus leva a sério. E se é notória e percebida pela Igreja os movimentos que aceleram as separações e se a comunidade evangélica tem sido atingida por inúmeras influências de pressões a que tantos casais são submetidos, o necessário seria criar um hospital de feridos emocionais na esfera afetiva e familiar. CTIs de emergência funcionando em igrejas podem fazer diferença na história de uma família, seja ela em formato tradicional ou não. Embora as cenas rotineiras de um lar estejam passando por transformações, o papel do Evangelho não se altera porque ele é sempre preventivo, restaurador e perdoador.

Fonte: Elnet