Faça chuva ou faça sol, alguns jazigos de cemitérios paulistas recebem visitantes o ano todo. Não são os de pessoas famosas, como o piloto Ayrton Senna, enterrado no cemitério do Morumbi, ou de personalidades como a pintora Tarsila do Amaral. Trata-se de uma categoria especial, a dos chamados santos urbanos.

Nenhum deles foi declarado santo pela Igreja Católica, mas para os peregrinos isso não importa. Eles são adorados pela população porque, segundo se conta, teriam operado milagres. Seus túmulos são cheios de placas de agradecimento, flores pela graça alcançada e papéis com pedidos de novos milagres. Em comum, os mortos tiveram mortes trágicas, prematuras ou dedicaram suas vidas a ajudar.

No cemitério da Consolação, no centro, o túmulo mais procurado é o de Antoninho da Rocha Marmo. Ele morreu aos 12 anos, em 1930, em decorrência da tuberculose. Conta-se que pessoas que pediram a cura de doenças a ele foram atendidas. Por mês, cerca de mil devotos visitam o túmulo do garoto. Até um site foi criado por pessoas que dizem ter alcançado milagres feitos por ele.

Pela internet, é possível solicitar santinhos com a figura do garoto, contar histórias sobre a vida dele e até registrar as graças alcançadas. Também está no Consolação o túmulo de Maria Judith de Barros, que morreu aos 41 anos de uma doença degenerativa. Segundo se conta, ela sofria maus-tratos do marido. Também se atribuem a ela várias curas e ajuda a pessoas com problemas de relacionamento.

No cemitério de Santo Amaro, na zona sul, o túmulo que mais atrai visitantes é o de um homem conhecido como ‘Bento do Portão’. Antônio Bento ficou conhecido como protetor dos aflitos e desesperados. Nascido em 1875 na Bahia, morreu aos 42 anos, com fama de curandeiro no bairro. Segundo a história passada de boca-a-boca, Bento ficava no portão do cemitério e vivia como um mendigo. Uma mulher rica que teria tido um pedido atendido mandou construir o jazigo.

No cemitério de Vila Formosa, na zona leste, o maior da América Latina, o túmulo mais visitado é o da menina Débora, que aos 5 anos de idade, em 1983, foi esquartejada por uma vizinha. O crime aconteceu porque a mulher tinha ciúmes do carinho que o marido tinha por ela. Hoje, atribui-se à menina uma lista de milagres. Aqueles que acreditam, costumam deixar flores, bonecas e até chupetas sobre seu túmulo.

No cemitério São Pedro, vizinho ao crematório de Vila Alpina, na zona leste, os jazigos que atraem milhares de visitantes o ano todo são o das 13 almas do Edifício Joelma. Elas morreram queimadas num dos piores incêndios já registrados na capital paulista. Nunca foram identificadas e a elas também são atribuídos milagres. Até uma capela foi construída no cemitério ao lado dos túmulos onde se podem fazer pedidos às almas. Muita gente costuma depositar embalagens com leite ou água sobre os jazigos. Seria uma forma de ‘desintoxicar’ as almas que inalaram muita fumaça antes de morrer.

Fonte: O Globo