O frade dominicano francês Henri de Roziers tem três policiais militares destacados para protegê-lo 24 horas por dia no município de Xinguara, no sudeste do Pará, o município do Estado onde mais mortes ocorrem por conflitos de terra.

O religioso, que é coordenador da Pastoral da Terra de Xinguara, diz que está tranquilo porque é “estrangeiro, advogado, sacerdote e idoso (tem 75 anos)” e não recebe “ameaças diretas” desde 2007.

Mas desde o assassinato, em fevereiro de 2005, da freira americana Dorothy Stang – um episódio de violência fundiária que ganhou manchetes em todo mundo – o Estado fez questão de fornecer uma escolta permanente de policiais ao frade francês.

Nas investigações do assassinato da irmã Dorothy, a Policia Federal encontrou indícios de que o francês seria o próximo na lista dos acusados de cometer o crime.

“Eu me incomodo muito por ter uma escolta policial cuidando de mim enquanto líderes populares brasileiros, que correm dez vezes, cem vezes mais riscos do que eu, estão por aí desprotegidos”, diz o religioso.

Frei Henri cita o caso de dois ativistas da região de Santarém – o líder indigenista Dado Borari e o militante sem-terra Valdecir dos Santos – que foram ameaçados de morte, mas tiveram proteção recusada pelo governo do Estado.

“Se o problema é de falta de recursos, prefiro que tirem os três policiais que me escoltam e forneçam proteção a estas duas pessoas, que correm sério risco de assassinato”, afirma o frade.

Conflitos

Frei Henri diz acreditar que a tentativa de regularizar a posse de terras na Amazônia por meio da nova lei criada a partir da MP 458 só vai agravar os conflitos que existem na região.

“Infelizmente, o governo brasileiro não tem infraestrutura para cuidar dessa situação tão complexa”, critica o religioso. “A máfia dos madeireiros e fazendeiros no Pará é muito, muito perigosa.”

O frade francês afirma temer que o modelo de regularização de terras adotado pelo governo só sirva para agravar ainda mais a concentração fundiária que existe no Brasil.

“É verdade que os lotes máximos que o governo vai regularizar (de 1,5 mil hectares) não são muito grandes para os padrões de Amazônia, mas os fazendeiros vão ter recursos de fraudes, de laranjas e de usar membros da família pra conseguir registrar fazendas enormes”, diz.

“Os agricultores mais fracos que vivem na região vão acabar forçados a vender suas terras para que esses grandes fazendeiros façam estes registros fajutos.”

O Pará é o Estado brasileiro onde a violência fundiária faz mais vítimas. Segundo um levantamento da Pastoral da Terra, foram mais de 800 assassinatos desde 1975.

“Dessas 800 mortes, apenas 250 resultaram em alguma ação da Justiça. E nos 250 julgamentos, tivemos somente 22 condenações de mandantes”, diz frei Henri. “E o pior é que nenhum deles está na cadeia. Assim fica muito fácil matar e muito difícil confiar na Justiça.”

Fonte: BBC Brasil

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