O imposto eclesiástico é um fator que afasta muitos fiéis na Alemanha, assim como os gastos excessivos com as viagens do Papa. Ao que tudo indica, os alemães são apenas tão católicos quanto o bolso permite.

A Igreja Católica da Alemanha recebeu novo impulso em termo de fiéis e finanças em 2006. Segundo estimativas recentes, as 27 dioceses do país arrecadaram uma média de 8% a mais do que no ano anterior. Peritos econômicos da Igreja calculam uma renda 4,5 bilhões de euros em 2007, 500 milhões a mais do que há dois anos.

A Alemanha tem um sistema de financiamento eclesiástico só adotado por poucos países europeus. Assim como todos os membros de religiões reconhecidas pelo Estado, os 28 milhões de católicos do país são obrigados a pagar à sua Igreja uma taxa mensal.

Esta oscila entre 8% e 9% de seus salários, dependendo de onde vivam. O departamento federal de finanças a deduz diretamente dos vencimentos. Como resultado, a Igreja alemã é uma das mais ricas do mundo.

Tempo de vacas magras

Apesar desse cômodo acerto fiscal, os últimos anos não foram muito generosos para a Igreja Católica. Entre 2000 e 2005, mais de 680 mil pessoas requereram oficialmente o afastamento da instituição. Ao mesmo tempo que se libertam de suas obrigações tributárias, elas perdem, contudo, o direito a receber os sacramentos.

Além disso, a desaceleração da economia alemã, com altos níveis de desemprego e salários mais baixos resultaram em menos dinheiro a ser taxado. Mas agora a situação melhorou: os impostos eclesiásticos atingem níveis jamais vistos desde 1998.

Bonança efêmera?

Segundo Sebastian Anneser, diretor financeiro da arquidiocese católica de Munique e Freising, a principal razão para este “surpreendente” desdobramento é a crescente confiança econômica e seus efeitos positivos sobre o mercado de trabalho.

Em seu relatório orçamentário de março, Anneser alertou que “não se deve contar que o crescimento se manterá a longo prazo”. Uma combinação de baixos índices de natalidade, envelhecimento da população e desinteresse estaria fazendo as pessoas “voltarem as costas para a Igreja”.

Ainda assim, a instituição tem conseguido na Alemanha reduzir consideravelmente o êxodo de fiéis nos últimos anos. Há quem atribua o fato à presença de um alemão na função de papa, porém a própria Igreja evita fazer tal associação.

Dinheiro é sagrado

“A curiosidade em torno da Igreja Católica cresceu, sem sombra de dúvida, quando [Joseph] Ratzinger se tornou papa em 2005, e também devido à morte de João Paulo 2º”, afirma Adelheid Utters-Adam, porta-voz da arquidiocese de Munique, capital do estado natal de Bento 16, a Baviera.

Entretanto, alguns crêem que ter um alemão como sumo pontífice pode ser uma desvantagem para o Vaticano. “Toda vez que o Papa visitou a Baviera houve um pique dramático do número de pessoas abandonando a Igreja”, relata Carsten Frerk, sociólogo especializado na pesquisa de instituições religiosas.

A causa seria sobretudo pecuniária: a última visita papal custou 30 milhões de euros. “Isso aborreceu muitos fiéis, segundo os quais o dinheiro poderia ter sido melhor empregado em projetos sociais do que num espetáculo de mídia”, declarou Frerk.

Doadores de boa vontade

Segundo o sociólogo, não é apenas a Igreja que se torna cada vez menos popular, mas também seu sistema de impostos. “Enquetes demonstram que cerca de 60% das pessoas são contra essa forma de arrecadar as taxas. Elas prefeririam pagar o dízimo voluntariamente.”

Um detalhe interessante é que apenas um terço dos entrevistados sabia exatamente quanto paga de imposto eclesiástico. “Esta é a esperteza no sistema: a dedução é automática”, comentou Frerk.

A César o que é de César

A professora Marion Corpus (35) decidiu cancelar suas contribuições à Igreja há quatro anos atrás. Só ao entrar para um novo emprego, cujos contracheques eram mais fáceis de ler, ela se deu conta de quanto dinheiro estava dando para a Igreja.

“Eram em torno de 80 euros por mês. Pensei que podia fazer algo melhor com o dinheiro, pois não gostava do que a Igreja estava fazendo. Agora pago uma mensalidade para a Anistia Internacional, além de auxiliar uma criança no Malauí.”

Apesar da impopularidade do sistema, o direito das Igrejas reconhecidas de cobrar impostos de seus fiéis está ancorado na Constituição alemã. O governo apenas coleta as taxas, sob contrato da Igreja.

Entretanto, é pouco provável que esse acordo vá mudar tão cedo. Afinal, o Estado detém 3% de todo o dinheiro arrecadado com os impostos eclesiásticos.

Fonte: DW World