Quase duas décadas após o colapso da União Soviética e o retorno da religião à vida pública, muitas cidades russas estão decretando que, para terem um ensino adequado nas escolas, as crianças devem familiarizar-se com a Igreja Ortodoxa Russa, incluindo suas tradições, sua liturgia e suas figuras históricas.

Um dos debates mais polêmicos na sociedade russa vem ocorrendo em escolas públicas como as de Kolomna, cidade a 90 quilômetros de Moscou, onde outro dia a professora Irina Donshina pôs de lado os livros escolares e, dirigindo-se a seus alunos do segundo ano, como se falasse de um púlpito, perguntou:

‘Com quem devemos aprender a fazer o bem?’

‘Com Deus’, responderam os alunos.

‘Correto’, disse Irina. ‘Porque ele foi crucificado pelas pessoas que criou. Mas vocês acham que ele as acusa, amaldiçoa ou odeia? Claro que não! Ele continua a amar e ser piedoso com elas, embora pudesse ter eliminado todos nós, e o mundo inteiro, numa fração de segundo.’

As aulas de religião na rede pública vêm sendo incluídas no currículo por insistência de líderes da Igreja, para quem o ateísmo imposto pelo comunismo deixou os russos distantes de uma fé que, outrora, era parte integrante de sua identidade.

O novo currículo escolar reflete a luta do país para definir o que significa ser russo na era pós-comunista e qual o papel que a religião deve desempenhar, depois de ser brutalmente suprimida durante o regime soviético. Mas esse empenho de uma Igreja revitalizada para que seus princípios sejam inseridos no sistema educacional tem provocado uma violenta reação – e não só dos remanescentes do Partido Comunista.

Os oponentes argumentam que os líderes da Igreja Ortodoxa, ao fazer proselitismo nas escolas, estão debilitando a separação entre Igreja e Estado, como determina a Constituição. Como a Rússia é uma nação pluralista e multiétnica, corre-se o risco de atrair a antipatia da grande minoria muçulmana se a Igreja Ortodoxa se tornar a religião estatal.

A Igreja diz que essas alegações são infundadas, sustentando que os cursos são culturais, e não religiosos. Na aula da professora Irina Donshina, pelo menos, as crianças parecem ter seu próprio entendimento de um tema básico do curso. ‘Devemos amar a Deus’, disse Kristina Posobilova. ‘Devemos acreditar apenas em Deus.’

Carta de protesto

A disputa chegou a um ponto crítico recentemente, quando dez importantes cientistas russos, incluindo dois laureados com o Prêmio Nobel, enviaram uma carta ao presidente Vladimir Putin protestando contra o que chamaram de ‘crescente predomínio do clero’ na sociedade russa. Além de criticar o ensino religioso nas escolas públicas, eles atacaram os esforços da Igreja para conseguir o reconhecimento dos cursos de teologia e a presença de capelães ortodoxos no Exército.

As autoridades locais colocaram em prática a política educacional sob a supervisão de Moscou, mas desfrutam de uma certa liberdade. Algumas cidades exigem a presença dos alunos nas aulas de religião cristã ortodoxa, enquanto outras permitem que as crianças não assistam às aulas quando os pais forem contra, embora isso raramente aconteça. Outras regiões não adotaram os cursos.

Putin, embora nunca hesite em anular decisões de autoridades locais, contornou esse assunto. No início de setembro, declarou preferir que as crianças tivessem um aprendizado de religião em geral, especialmente das quatro religiões com vínculos antigos com a Rússia – a cristã ortodoxa russa, a islâmica, a judaica e a budista. Mas o presidente, que já foi fotografado usando um crucifixo e às vezes assiste aos ofícios religiosos e outros eventos da Igreja, não disse que as práticas correntes devem ser abolidas.

‘Precisamos encontrar uma forma que seja aceitável para toda a sociedade’, disse. ‘Vamos refletir juntos a respeito.’

As pesquisas mostram que grande parte dos russos – entre metade e dois terços – se considera cristã ortodoxa, o que significa um forte aumento desde o colapso da União Soviética, em 1991. Membros do clero participam com freqüência de eventos governamentais, mas a Rússia ainda é um país profundamente secular e muitos cidadãos dizem que nunca entraram numa igreja.

Entre 10% e 15% dos russos são muçulmanos e muitos vivem no sul do país, embora Moscou e outras grandes cidades tenham uma grande população islâmica. A população judaica encolheu com a emigração e assimilação, caindo de 140 milhões para algumas centenas de milhares de pessoas. Líderes judeus e muçulmanos no geral foram contrários às aulas de religião cristã ortodoxa. Mas alguns dizem que as escolas podem ser autorizadas a oferecer os cursos, desde que como atividade extracurricular.

‘Não queremos que as crianças muçulmanas sejam obrigadas a estudar outras religiões’, disse Marat Khazrat Murtazin, reitor da Universidade Islâmica de Moscou. ‘Os muçulmanos devem estudar sua própria religião.’

Durante a Rússia imperial, a Igreja Ortodoxa Russa exerceu uma enorme influência como religião oficial e praticamente todas as crianças freqüentaram um curso de religião cristã ortodoxa, conhecida como Lei de Deus. Um dos cientistas que assinaram a carta a Putin, Zhores I. Alferov, Prêmio Nobel de Física em 2000, disse temer que o país retorne aos velhos tempos. Lembrou que seu próprio pai teve de estudar a Lei de Deus durante o governo do último czar da Rússia, Nicolau II.

O patriarca Alexis II de Moscou, líder da Igreja, afirmou diversas vezes que, para apreciar as artes, a literatura, a herança e a história da Rússia, as crianças precisam conhecer a religião cristã ortodoxa russa. E qualificou a carta dos cientistas a Putin como ‘eco da propaganda ateísta do passado’.

Há cinco anos, Kolomna foi uma das primeiras cidades a adotar o currículo. ‘O objetivo é garantir que as pessoas, as crianças, conheçam sua história e suas raízes’, disse o padre Vladimir Pakhachev, líder da Igreja em Kolomna que ajudou a supervisionar o currículo.

Para Pakhachev, seria absurdo estudar a língua russa sem conhecer São Cirilo e São Methodius, os dois irmãos do século 9º que teriam ajudado a criar o cirílico – o alfabeto russo. ‘Os irmãos eram monges e figuras religiosas importantes e esse aspecto de suas vidas não pode ser ignorado’, assinalou o padre.

Na Escola Pública 3, em Kolomna, os cursos são de comparecimento voluntário, dados uma vez por semana durante o horário escolar e ministrados por professores regulares. Num deles, a professora Irina Donshina recita com os alunos os Dez Mandamentos, apontando depois para uma pequena árvore diante da sala, com ramos, mas sem folhas. ‘A fé em Deus é tão importante para todo ser humano como é a raiz para uma árvore’, diz ela. ‘Mas a nossa árvore infelizmente morreu, da mesma maneira que uma alma pode morrer sem ter feito o bem. É o que acontece com pessoas que não fazem coisas boas e não seguem as leis de Deus.’

A professora termina a aula falando sobre os santos russos. ‘Eles nos mostraram como devemos viver para ficar próximos de Deus’, afirma Irina. Depois disso, ela se despede da classe, oferecendo um pedaço de chocolate a cada criança.

Fonte: Estadão