O altar é uma bandeja para servir desjejum na cama, os bancos são grandes toalhas ou cadeiras listradas de praia. E em lugar de rabiscar desenhos sobre o programa, as crianças incomodadas podem brincar com seus baldinhos ou enterrar na areia os pés dos pais distraídos.

Aos sábados, no verão, a Trinity Church, uma congregação episcopal, celebra uma missa de praia às 18h, atraindo até 75 fiéis. Alguns são transeuntes que estão caminhando pela passarela da praia, outros são fiéis convencionais da paróquia, e alguns são visitantes vindos de Asbury Towers, uma casa de repouso cuja sede permite uma sombra confortável sobre as areias da praia.

A reverenda Mary Frances Schjonberg lê o Cântico 12, postada na ponta norte da passarela, no sábado. Qualquer pessoa que precise devanear durante o pode observar o vento alisando uma pena de gaivota, ou as unhas dos pés de uma das fiéis presentes ao culto, pintadas de um cor de laranja brilhante.

“A primeira igreja criada por Deus era assim”, disse Sharon Babb, de Neptune, depois do serviço. “Quantas das histórias da Bíblia falam em Jesus pregando à beira do Mar da Galiléia? Por isso, acredito que não exista uma catedral mais apropriada. Quando o sermão falava nos pássaros que voam pelo céu, víamos gaivotas passando, como que ensaiadas”.

Todos os suprimentos para o culto, entre os quais algumas garrafas plásticas de água para misturar com o vinho sacramental, podem ser acomodados em um pequeno recipiente. Sacos de papel servem para receber as oferendas. O cenário recebeu elogios tão intensos que talvez seja interessante reconsiderar o investimento de bilhões de dólares em arquitetura eclesiástica.

“Trata-se da mais bela e mais serena das atmosferas”, disse Erica Peitler, de Morristown, que aluga uma casa de verão em Avon-by-the-Sea e tinha participado do culto pela primeira vez naquele mesmo dia. “Senti que estávamos mais conectados uns aos outros, mesmo que haja tanto espaço aberto por aqui”.

Todos foram convidados a se manterem sentados durante todo o culto, a não ser durante os sacramentos. O pão e o vinho foram passados de mão em mão, o que constituía novidade para alguns, já que normalmente cabe ao padre distribui-los. “Você diz ‘o corpo de Cristo, o pão do céu’ ao passar o pão, e ‘o sangue de cristo, a taça da salvação’ ao passar o vinho”, disse Schjonberg. “Mas não se preocupem: o sacramento funciona mesmo que vocês se esqueçam da fórmula”.

A paróquia adota um clima infernal para seus cultos mesmo quando eles são realizados no templo, uma construção histórica, de pedra, em Asbury Avenue, na qual se lê uma placa com o convite: “Venham como quiserem. Jesus usava sandálias”.

Depois do culto, o reverendo David Stout, reitor da paróquia, e o reverendo Tom Conway, outro de seus padres, foram ao centro para uma nova celebração, a do primeiro sábado de cada mês. Eles responderam a perguntas do público, encorajando os transeuntes a “perguntar qualquer coisa ao pastor”, o que levou a conversações animadas sobre fé, sexo pré-marital e as diferenças entre as diversas religiões.

Embora a congregação não tenha aumentado com as missas na praia, que vêm sendo realizadas há três anos, elas atraem pessoas que param, ouvem e participam, segundo Stout. Em 19 de agosto, pelo menos três pessoas serão batizadas no mar, uma cerimônia desafiadora para os sacerdotes que em geral executam a cerimônia de batismo em igrejas, traçando um sinal da cruz com água benta na testa da pessoa batizada.

A única música vinha de um caminhão de sorvete, a um quarteirão de distância. O bar da praia esperou para aumentar o volume só depois do culto. Em seguida, os aviões que sobrevoam a praia voaram rumo ao norte, arrastando anúncios de rum e outras diversões.

Fonte: Terra