O líder interino da Igreja Ortodoxa da Rússia, visto como um modernizador que poderia buscar uma reconciliação histórica com o Vaticano, foi eleito patriarca da instituição nesta terça-feira.

O metropolita (cargo equivalente ao de arcebispo) Kirill recebeu 508 dos 700 votos coletados ao longo do dia em um congresso da igreja na Catedral Cristo o Salvador, em Moscou, afirmou o chefe da comissão responsável pela eleição, metropolita Isidor, horas após o fim da votação secreta.

Kirill derrotou o metropolita Kliment, rival conservador, que recebeu 169 votos, segundo Isidor. Outros 23 votos foram declarados inválidos.

Essa foi a primeira eleição para um patriarca ortodoxo russo desde o fim da ateísta União Soviética, em 1991.

Kirill, 62, será a partir de segunda-feira o sucessor do patriarca de Moscou Alexy 2º, que liderou a principal igreja da Rússia desde 1990. Alexy 2º morreu no último dia 5 de dezembro aos 79 anos.

Aproximação

Filho de um padre, Kirill liderou o departamento das relações exteriores da maior igreja ortodoxa do mundo durante quase 20 anos, fazendo dele a melhor aposta para a melhora nas relações com a Igreja Católica Romana. Ele se encontrou com o papa Bento 16 em dezembro de 2007.

Esforços em prol da reconciliação, quase um milênio após a cisma do cristianismo entre países ocidentais e orientais, têm sido marcados por acusações da igreja russa de que a Igreja Católica tem realizado atividade missionária em sua área de influência tradicional e por disputas sobre propriedades e influência na Ucrânia.

Kirill repetiu os alertas de Alexy 2º de que esses impasses continuam sendo obstáculos para o há muito esperado encontro entre o papa e o patriarca –sonho não realizado do papa João Paulo 2º.

O Vaticano elogiou a eleição de Kirill. O porta-voz Federico Lombardi disse que Kirill é bem quisto no Vaticano e expressou a esperança de que seu trabalho “irá continuar a aprofundar o caminho de entendimento mútuo e colaboração para o bem da humanidade”.

Política interna

Na Rússia, Kirill é visto como uma figura política perspicaz, que pode buscar um papel mais influente para a igreja –que serviu ao Estado durante a maior parte de sua história de mil anos. Igreja e Estado estão oficialmente separados na Constituição pós-União Soviética, mas os laços se reforçaram novamente desde que Vladimir Putin chegou ao poder, em 2000.

Kirill irá enfrentar oposição de um forte movimento conservador dentro da igreja que o vê como moderno demais e muito ansioso pela reaproximação com os católicos.

“Ele está perfeitamente a par dos riscos que está assumindo, disse o analista político Stanislav Belkovsky. Sobre o Vaticano, o analista afirma que “ele irá atrás (da reaproximação) se sentir que é o momento, mas não irá acelera-la”.

O Kremlin –sob o comando de Putin, atualmente premiê– aumentou seu controle sobre todos os aspectos sociais, e teme que qualquer outra instituição ganhe muita independência. Alexy 2º apoiava fortemente o governo. Quaisquer que sejam as intenções de Kirill, observadores afirmam que uma grande mudança na relação com o Estado é improvável.

Cem milhões

Kirill, figura mais conhecida da igreja após Alexy 2º, era o líder na disputa por sua sucessão.

Após o anúncio de sua eleição, Kirill agradeceu e pediu ao clero que “seja indulgente por minhas fraquezas, que me ajude com seus sábios conselhos, fique perto de mim conforme realizo meus deveres pastorais –e mais do que tudo, peço sempre que rezem por mim”.

A Igreja Ortodoxa da Rússia tem mais de cem milhões de membros na Rússia e dezenas de milhões em outros países. Porém, pesquisas mostram que apenas 5% dos russos são fiéis praticantes.

A televisão estatal transmitiu grande parte da sessão desta terça-feira, ao vivo. Nas declarações de abertura, Kirill agradeceu ao presidente Dmitri Medvedev por “suas calorosas e benevolentes saudações”. Tanto Putin quanto Medvedev ligaram depois para parabeniza-lo.

Fonte: Folha Online