Os preparativos para a eleição não envolvem somente as estratégicas dos candidatos. Com foco na divulgação do voto consciente e na mobilização dos eleitores para o acompanhamento do pleito, as igrejas também já se movimentam no Estado.

Independentemente da doutrina professada, a intenção é mobilizar a todos para um compromisso de combate à corrupção eleitoral. Mas, diante do provável assédio dos políticos com a chegada da eleição, outra frente de trabalho das lideranças é a de não permitir que as igrejas se transformem em palanque político, embora façam questão de ressaltar o apartidarismo nesse processo.

No rumo da discussão eleitoral, a Arquidiocese de Vitória começou a preparação da cartilha “Construindo a Democracia – Eleições 2008”, uma espécie de guia para que os fiéis percebam a importância de fazer boas escolhas nas urnas. Está sendo programada a impressão de 50 mil cartilhas, que devem ser lançadas na segunda quinzena de maio.

O documento conterá capítulos sobre “Ética cristã e democracia” e “Ano eleitoral: de novo a esperança”, além de uma mapa das cassações de parlamentares, texto da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Fiscalização

Além das cartilhas, a Igreja vai distribuir folhetos, em linguagem popular, de maneira sistemática e seriado, antes das eleições. Nos folhetos serão discutidos, além do foco eleitoral, a importância dos conselhos para organização democrática, exercício do poder do cidadão na fiscalização da gestão pública, entre outros temas.

“A Igreja entra nessa reflexão no sentido de construir uma cultura de cidadania. Precisamos de eleitores conscientes do seu papel. Além do voto, a preocupação também é de incentivar formas de participação e acompanhamento público para que a democracia seja mais plena”, afirmou o padre Kelder José Figueira, da Paróquia em Jacaraípe, na Serra.

Responsável pelo trabalho das cartilhas, ele afirma que, embora os fiéis tenham liberdade de escolha, são repassadas no material informações de critérios e valores da Igreja, como escolher candidato que seja contrário ao aborto. “É o momento de a Igreja colocar o que pensa, mas isso não está dissociado de seus valores”, diz.

Criado em 1999, o Fórum Político Evangélico do Espírito Santo também começou a se articular. Representantes do fórum estão fazendo parte do Movimento Eleições Limpas e Éticas 2008. Integrante do Fórum Evangélico, Tiago Martins afirma que o movimento traçou ações específicas, como alternativas para coibir a boca-de-urna e formas de cobrança para punir os responsáveis por essa prática.

Já o presidente da Associação dos Pastores Evangélicos da Grande Vitória, Enoque de Castro Pereira, afirma que o fórum também caminha na orientação aos fiéis sobre como votar com ética e discernimento, mas enfatiza que não se trata de indução político-partidária. “Aconselhamos que as pessoas fiquem de olho na história do candidato”, afirmou.

A religião no Estado

• Média. O Espírito Santo, junto com Rondônia, é o Estado brasileiro com a maior porcentagem de evangélicos em relação à população total, com 28%, enquanto a média nacional é de 15,65%.

• Região metropolitana. Na Grande Vitória, Vila Velha é o grande destaque dentro das estatísticas. São mais de de mil templos evangélicos na cidade, que possui o maior número absoluto de fiéis do Estado com aproximadamente 150 mil seguidores, o que corresponde a 37% da população.

• IBGE. De acordo com o último Censo do IBGE, as três maiores doutrinas evangélicas no Estado são a Assembléia de Deus, a Maranata e a Batista. Duas doutrinas foram as que mais cresceram nos últimos anos: a Maranata e a Batista.

• Católicos. Os católicos representam a maioria: cerca de 55% da população capixaba se declara católica. Os números do Censo 2000 do IBGE mostram que 1.613.544 se declaram católicos.

• Força. No país, o crescimento das igrejas evangélicas foi superior ao da Igreja Católica nos últimos anos no Brasil. Em 40 anos, de 1960 a 2001, o número de fiéis católicos caiu 20 pontos percentuais e, no sentido inverso, os evangélicos cresceram nove pontos, passando de 4% para 15,4%, segundo dados do IBGE.

• Costumes. Uma pesquisa do Instituto Futura, publica neste ano em A GAZETA, questionou os entrevistados, de todas as denominações, sobre a freqüência com que costumam ir à igreja. A maioria, 25%, diz que faz isso uma vez por semana; 28% disseram comparecer aos cultos ou missas. Mas 23% confessaram não participar de nenhum evento ou encontro das denominações a que pertencem. Independentemente da denominação, a pesquisa revelou que para 39% dos entrevistados, a religião é fundamental. Para 55% é importante ou muito importante e 95% acreditam na “existência de um Deus ou alguma força superior”.

Outdoor prega: “O bom católico vota em católico”

Um outdoor instalado semana passada no município de Cariacica tem chamado a atenção pela sua mensagem clara no final: “o bom católico vota em católico”, o que traz à tona, mais uma vez, a fronteira entre a religião e a política. A mensagem faz parte de um agradecimento que católicos fizeram aos padres, seminaristas e fiéis pela acolhida de Nossa Senhora da Penha na passagem pelas paróquias do município. As igrejas de modo geral, nesse período pré-eleitoral, têm pregado a ética na política.

Bancada evangélica encolheu em 2006

Um levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) mostrou o “encolhimento”, na última eleição, em 2006, da bancada em Brasília identificada com as igrejas evangélicas.

Diferentemente do que aconteceu nas últimas três eleições, a bancada evangélica foi a que mais perdeu cadeiras entre os grupos organizados que atuam no Legislativo, como dos sindicalistas, da educação e dos empresários.

Segundo o levantamento, eram 60 representantes da bancada evangélica na última legislatura. Agora, são 43, entre deputados e senadores. Segundo especialistas, escândalos envolvendo bispos e pastores pode ter sido um fator que contribuiu para o “encolhimento” do grupo que professa a fé segundo a doutrina evangélica.

Quando foi divulgada pela CPI dos Sanguessugas a lista com os nomes de 90 parlamentares envolvidos com o esquema de compra de ambulâncias superfaturadas, verificou-se que 30 deles eram bispos, pastores e obreiros de igrejas evangélicas. Um dos citados era o líder da bancada, deputado Adelor Vieira (PMDB-SC), que não conseguiu se reeleger.

No Senado desde 2002, o senador pelo Espírito Santo Magno Malta (PR), membro da Igreja Evangélica Batista de Vitória e vocalista de uma banda gospel, também figurou entre os investigados no esquema sanguessuga. Ele foi absolvido no processo a que respondeu no Conselho de Ética do Senado sobre esse caso.

Candidatos buscam lideranças religiosas

Os pré-candidatos às eleições deste ano já abriram a “temporada” de contatos com as lideranças religiosas. É a oportunidade de relatar as propostas da candidatura, além de buscar possíveis apoios.

Pré-candidato do PR na disputa pela Prefeitura de Vila Velha e evangélico, o deputado federal Neucimar Fraga já esteve reunido, por exemplo, com o padre Jorge, do Ibes, e com pastores evangélicos. “Tenho apresentado minha candidatura. Falo do meu trabalho e desejo de ser prefeito”, afirmou o deputado, que também preside a CPI do Sistema Penitenciário no Congresso.

Questionado se o objetivo seria fechar o apoio, o deputado afirma que, a princípio, a intenção é de não ser vetado. “Acho que a igreja, por ter pessoas de várias posições políticas, a tendência é de que não expresse uma preferência explícita”, disse Neucimar, que freqüenta a Igreja Batista, no bairro de Cocal, em Vila Velha.

Também na disputa em Vila Velha, o deputado estadual e ex-presidente da Assembléia Legislativa Cláudio Vereza (PT) avalia que o fato de ter atuado por muitos anos em comunidades e no meio religioso pode o ajudar nessa interlocução. “Atuei 40 anos nesse meio e tenho amigos em várias igrejas”, afirmou.

Com história de atuação nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e fazendo parte da comunidade Ambiental, que reúne paróquias da Grande Vitória, o petista também não acredita que uma igreja possa fechar com algum candidato. “Pode ter o apoio de algum grupo”, disse Vereza, que integra o Movimento Fé e Política.

Paróquia

Pré-candidata em Cariacica e integrante da Igreja Maranata, a deputada estadual Aparecida Denadai (PDT) já conversou sobre sua candidatura com padre Edemar Endringer, da paróquia Bom Pastor, em Campo Grande. “Tenho procurado lideranças de todas as religiões. É importante que eles conheçam nossa candidatura e nossas propostas”, disse a parlamentar.

Na avaliação da deputada estadual, as igrejas cumprem papel importante no esclarecimento aos fiéis do voto consciente e de acompanhamento do trabalho dos parlamentares.

CNBB quer barrar políticos com ficha suja

À frente do movimento que tenta proibir a candidatura de políticos que tenham antecedentes criminais, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) já começou a busca de assinaturas para o projeto de iniciativa popular sobre o assunto. O projeto também impede a candidatura de quem renunciou ao mandato para escapar de punições. Lançado este mês, o projeto precisa de um milhão e duzentas mil assinaturas (1% do eleitorado brasileiro) para fazer valer a lei. A CNBB acredita ser possível que o projeto já passe mesmo a valer na eleição deste ano. A iniciativa tem o apoio da Ordem dos Advogados do Brasil, Associação Brasileira de Magistrados, Procuradores e Promotores Eleitorais e mais 32 entidades que compõem o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE).

Fonte: A Gazeta