Homenagens feitas por vereadores da Câmara Municipal de Campo Grande ultrapassam o espaço físico da Casa de Leis e causam reação de moradores da cidade. Sem questionar à população, os parlamentares trocam nomes de ruas tradicionais e a confusão é única certeza de mudança na vida das pessoas, reclamam os maiores afetados.

Na Câmara Municipal, nos últimos dez anos, 71 projetos foram apresentados para mudança de nomes de rua em Campo Grande e 39 para alteração de nomes de praças. Na maioria das vezes, o motivo é fazer homenagens.

A alteração do nome da Rua Búzios, no Jardim Itanhangá Park, por exemplo, provocou até indisposição entre vizinhos. Como homenagem póstuma à esposa de um morador, um vereador propôs a alteração para Sofia Melke.

Insatisfeitos com a troca de nome, os vizinhos mandaram confeccionar placas com o antigo nome da rua e os respectivos números das casas e afixaram nos muros das residências. Em retaliação, o viúvo espalhou faixas e outras placas com o nome atual.

Quem conta a história é a moradora Eloaurea Lopes Cunha Perandré, que há 18 anos está no local. Ela explica que constantemente os entregadores ficam perdidos quando escutam o nome atual da rua.

“Esta rua é tradicional e antiga. Todo mundo conhece por Búzios”, reclama. Eloaurea revela ainda que muitas correspondências vão primeiro para o Bairro Autonomista, onde uma travessa foi denominada Búzios.

Segundo Eloaurea, a maioria dos vizinhos foi contra a troca de nome, porém, a opinião deles não foi levada em conta. “Não somos contra a homenagem, mas por que os vereadores não colocam o nome em outra rua? Porque eles (parlamentares) não escolhem a rua deles para a homenagem”, completa.

Adeus freguês – A mudança do nome da Rua Roncador para Hermelita de Oliveira Gomes, no Bairro Santa Fé, também não agradou. O morador Sebastião de Almeida Filho reclama dos transtornos causados quando solicita uma entrega na residência. “Até hoje algumas correspondências chegam com nome da Roncador”, conta

Para ele, os vereadores, antes de fazerem tais alterações deveriam saber qual a opinião das pessoas. “Isso em que ser disciplinado na Câmara e passar a ouvir os moradores na rua. Os moradores são parte interessada na questão”, reforça.

Segundo Almeida Filho, a troca foi uma maneira de homenagear a família de fundadores do loteamento. “Não tem necessidade de mudar nome de rua. Se querem fazer homenagens que façam uma rua nova”, conclui.

Projeto interceptado – A união de moradores da rua Alan Kardec, um dos grandes nomes do espiritismo, conseguiu evitar que a tradicional via do Bairro Amambaí tivesse o nome alterado para Pastor Eliseu Feitosa de Alencar, fundador da Igreja Evangélica Assembléia de Deus, localizada nas imediações da Rua Alan Kardec.

O projeto que propunha a troca do nome da rua é de autoria do vereador Gilmar Olarte (PP), um evangélico, e entrou em trâmite em agosto de 2007, mas foi arquivado no mesmo ano.

Gilceno José de Aquino Gonçalves mora e tem comércio na Rua Alan Kardec. Ele afirma que uma mudança poderia confundir os clientes. “A rua já é conhecida com este nome”, completa. Gonçalves enfatiza que embora não tenha participado da manifestação que impediu a mudança, ficou feliz com a manutenção do nome do espírita.

O arte finalista de uma gráfica localizada na mesma rua também assegura que uma mudança causaria problemas à empresa. Segundo ele, todo material gráfico e de divulgação teria que ser impresso novamente e poderia perder correspondências e clientes em decorrência da troca.

O presidente da Câmara Municipal, vereador Edil Albuquerque (PMDB), explica que nenhum projeto é aprovado sem ampla discussão e garante que a Câmara sempre contempla a opinião popular ao tomar decisões.

Especificamente sobre a rua Búzios, Edil conta que quando houve a mudança “80% das pessoas foram favoráveis” e justifica que só depois os moradores mudaram de idéia.

Fonte: Campo Grande News