Uma crise religiosa atinge a Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP). A instituição busca um acordo com a Igreja Católica para manter o vínculo com o Vaticano, mas sem perder autonomia.

Tudo começou porque o arcebispo de Lima, cardeal Juan Luis Cipriani Thorne, entendeu que a universidade estava se desviando do pensamento da Igreja e cobrou mudanças em seu estatuto. O clima lembra o que aconteceu na PUC de São Paulo neste ano (veja quadro ao lado), só que o caso peruano chegou ao Vaticano.

A Santa Sé já cobrou o fim da crise e exige que a PUCP adapte o estatuto à constituição apostólica Ex-Corde Ecclesiae – documento que rege as universidades católicas do mundo, promulgado pelo papa João Paulo II. Sem entendimento, a PUCP pode perder o título de pontifícia.

O prazo dado pelo Vaticano acabou em 8 de abril, e uma reunião, agendada para o dia 13, foi desmarcada pela reitoria sob a alegação de que havia um “impasse”. Bispos da Conferência Episcopal Peruana divulgaram na semana passada um comunicado em que pedem o retorno do diálogo.

Interferência. A crise começou em setembro passado. O arcebispo peruano exigiu a mudança no estatuto da universidade para que fosse garantido a ele o direito de indicar o reitor – a partir de uma lista tríplice que seria definida pela universidade, em assembleia. O atual reitor, Marcial Rubio, recusou a mudança.

Rubio, professores e parte dos alunos temem a perda de autonomia da atividade acadêmica com uma presença maior da Igreja na direção da PUCP. Até agora, a situação não foi resolvida.

A reitoria da PUCP não vê com bons olhos a mudança do estatuto, mas ao mesmo tempo não quer perder o título de pontifícia. Caso se torne independente, poderia ter de abrir mão de suas propriedades, que correriam o risco de ser repassadas para a Arquidiocese de Lima. O doador do terreno onde está a PUCP vinculou a herança ao uso por uma universidade pontifícia.

O reitor Rubio chegou a fazer ataques pesados ao cardeal Cipriani. Ao jornal peruano El Comércio, afirmou que o cardeal tem interesses no patrimônio da PUC. “Estou absolutamente seguro que o cardeal quer o controle econômico”, disse ele, acusando Cipriani de ser “inimigo” da universidade. “Ele quer se apoderar dos bens.”

O Vaticano enviou um representante até Lima e convocou o reitor para prestar esclarecimentos. Foi o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, quem estabeleceu o prazo máximo de 8 de abril para que a PUCP se adaptasse à Ex-Corde Ecclesiae.

Desafios. Garantir total liberdade de pensamento no ambiente acadêmico dentro de uma instituição orientada pelas doutrinas religiosas é um dilema presente em muitas pontifícias universidades espalhadas pelo mundo. Isso porque as PUCs são vinculadas ao Vaticano.

[b]Fonte: Estadão[/b]