O arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, disse ontem que aguarda a retomada dos processos movidos pelo Ministério Público Estadual sobre os ataques em série contra moradores de rua, ocorridos nos dias 19 e 22 de agosto de 2004.

Seis pessoas, sendo cinco policiais militares e um segurança, chegaram a ser acusadas pelos ataques, mas nenhuma está presa. Nenhum julgamento foi realizado e não há punidos.

Há apenas um processo em andamento, que acusa um policial militar e o segurança pela morte da moradora de rua conhecida como Maria Baixinha ou Tia. Ela teria testemunhado o crime, e morreu depois dos ataques.

No ano passado, o Tribunal de Justiça de São Paulo acatou apenas essa denúncia, depois de a 1ª Vara do Júri da Capital ter rejeitado integralmente as denúncias originais, ao alegar que não havia provas contra nenhum dos seis acusados no caso.

“De toda a maneira, significa que a Justiça tarda a chegar para os pobres”, declarou o arcebispo.

Para o coordenador da Pastoral do Povo de Rua, padre Júlio Renato Lancelotti, “a própria Justiça emperrou o caminho”, ao rejeitar, em 2005, as denúncias apresentadas.

“É um caminho difícil. Quer dizer, é aquilo que o promotor disse: faltou sensibilidade ao juiz, quando a denúncia foi feita, de ter aceito a denúncia.

Segundo ele, a falta de interesse é a principal barreira para esclarecer os ataques, especialmente porque envolveriam agentes de segurança do estado, associados ao crime organizado.

“Não há interesse em elucidar o fato, que vai chegar no crime organizado da região central, vai mostrar que existe a cidade que se vê e a cidade que não se vê. E quem manda é a cidade que não se vê. É o crime organizado naquela definição de ser aquele que acontece com participação de agentes do estado”, disse, acrescentando que também há participação de seguranças particulares clandestinos.

Na avaliação de dom Odilo, a população pobre não consegue contratar bons advogados para suas causas. “Certamente há diferenças: quem tem melhores condições econômicas consegue fazer urgir mais a Justiça a seu respeito”.

Segundo ele, o “ritmo da vida da sociedade e da economia” determina a exclusão do morador de rua, privado de ser integrado à sociedade.

“Falta casa, falta trabalho, falta educação, faltam chances para [o morador de rua] participar da vida. Muitas pessoas ficam excluídas das possibilidades de acompanhar esse ritmo”.

Fonte: Agência Brasil