Seqüestros, ameaças de morte, espoliações de casas: o arcebispo de Mossoul, dá conta das pressões “insuportáveis” com o objetivo de forçar a partida da população cristã. A pressão dos militantes islâmicos não pára de aumentar. O Iraque que está perdendo sua minoria cristã.

Hemorragia, êxodo: essas palavras surgem de maneira recorrente para designar a mesma realidade, a de um Iraque que está perdendo sua minoria cristã. Bispos iraquianos, sírios, jordanianos, egípcios vieram debater esta preocupação em Paris, por ocasião de encontros que foram organizados em novembro pelo Instituto Europeu das Ciências da Religião (IESR) e pela Obra do Oriente. As Igrejas da França, o movimento internacional Pax Christi, além de associações (como a Cristãos no Mediterrâneo), estão preparando uma campanha de solidariedade que deverá alcançar o seu auge em 2008, na época da Páscoa.

Segundo esses religiosos iraquianos, uma das mais antigas “cristandades” no mundo, nascida na Mesopotâmia seis séculos antes da chegada do Islã, está prestes a desaparecer. O país não contaria mais do que 400.000 cristãos, ou seja, uma queda de mais da metade desde a primeira guerra do Golfo (1991).

Seqüestros, ameaças de morte, espoliações de casas: Dom Georges Casmoussa, o arcebispo siríaco de Mossoul, dá conta das pressões “insuportáveis” com o objetivo de forçar a partida da população cristã. “Centenas de famílias, de médicos, de engenheiros, de homens de negócios, de comerciantes continuam se refugiando em regiões mais seguras, nas aldeias cristãs do Curdistão, ou no exterior”, explica.

Segundo o arcebispo de Mossoul, a pressão dos militantes islâmicos não pára de aumentar: ela toma várias formas, que vão desde ameaças por telefone até seqüestros, de padres em particular. Em Mossoul, um deles foi assassinado e mutilado no Natal de 2006. Em 3 de junho, um jovem padre de 31 anos e três assistentes foram assassinados ao saíram de uma missa dominical. Vários ônibus que conduziam estudantes cristãos para a universidade de Mossoul foram atacados. “Os cristãos não são os únicos a serem vítimas de atos desse tipo”, reconhece Dom Casmoussa, “mas eles estão sendo forçados a deixar a região. Para os muçulmanos, eles continuam sendo pessoas competentes, pacíficas, cultas. Mas a confiança mútua está comprometida”.

Outros testemunhos parecidos dão conta de “profanações” de igrejas e de seqüestros ocorridos no bairro de Dora, em Bagdá, onde, segundo Dom Jean-Benjamin Sleiman, o arcebispo latino da cidade, “os cristãos só podem escolher entre a “dhimmitude” (proteção contra submissão) e o exílio”. Segundo ele, “o Estado reconstituído ainda não está em condição de governar a sociedade, nem de arbitrar nela todos os conflitos”.

Entre 1,2 e 1,5 milhão de iraquianos – dos quais pelo menos 100.000 cristãos – se refugiaram na Síria. Mas o “país irmão” está endurecendo a sua atitude. Ele fechou as suas fronteiras, enquanto a maioria dos refugiados que se encontram no país vive de pequenos golpes. “Muitos deles não possuem um alojamento, nem mesmo uma licença para trabalhar. As crianças não estão sendo escolarizadas, porque elas não são portadoras de uma autorização para permanecer no território”, testemunha Dom Antoine Audo, um bispo caldeu de Alep. “Os refugiados não têm nenhuma perspectiva. Eles não têm nenhuma esperança de poder retornar ao Iraque e enfrentam enormes dificuldades para obterem vistos que lhes permitam emigrar para os Estados Unidos ou a Europa”.

Por sua vez, a Jordânia conta 750.000 refugiados, dos quais 25.000 a 30.000 cristãos. Neste país, as possibilidades de acesso e de permanência vêm se tornando restritas, enquanto as condições de vida estão ficando cada vez mais precárias. “A desesperança é grande”, assegura Dom Selim Sayeh, o vicário do patriarca latino em Amã. “Para esta emigração sem esperança de retorno, a Jordânia não passa de um país de trânsito. Poucos são os iraquianos que nele se estabelecem. A sua única esperança é de emigrar para lugares mais distantes”.

Para eles, as evoluções políticas não estão anunciando nada positivo. “No Iraque, os cristãos se sentem cada vez menos em sua casa”, garante Dom Casmoussa, o arcebispo de Mossoul. “O futuro do novo Iraque parece estar prometido apenas para as três comunidades majoritárias curda, sunita e xiita, e nós acabamos ficando relegados”. Alguns partidos políticos confessionais cristãos, chamados “caldeu”, “assírio”, “siríaco”, foram fundados. Eles disputam com a hierarquia episcopal, até então o seu único porta-voz, o controle da minoria cristã. “A questão étnica e racial é atualmente a mais difícil de solucionar no Iraque”, comenta Dom Casmoussa. “É sobre esta base que todas as comunidades, inclusive as cristãs, tentam desempenhar um papel no tabuleiro político, com o objetivo de obter o direito a uma cidadania igualitária”. Mas o resultado disso é que “os cristãos ficaram desunidos, minimizados, sub-representados nas esferas de decisão”. “Eles não puderam exercer nenhuma influência para a redação da Constituição”.

O arcebispo latino de Bagdá, Dom Sleiman deplora tanto mais esta marginalização que os cristãos sempre foram “legalistas”. Eles participaram de todas as eleições. Mas ele lamenta o atual “recolhimento étnico e confessional” dos partidos que os representam: “A principal responsabilidade dos cristãos deveria ser de se reunirem e reconstruírem, junto com os seus concidadãos, um Estado de direito. Eles estão culturalmente preparados para encarnar uma nova política iraquiana de cidadania e até mesmo um novo laicismo capaz de traduzir, dentro dos valores comuns, a preocupação pelo bem comum. Não é isso que vocês chamam de República?”

Fonte: Le Monde