Em 25 anos, a Igreja católica perdeu um quarto dos seus fiéis na América Latina. Todo ano, 600.000 pessoas a deixam, ao passo que os evangélicos representariam até 18% da população; para reverter a tendência, Bento 16 optou por perseguir os teólogos da liberação e “erguer barricadas” contra os evangélicos.

É uma igreja latino-americana em crise que Bento 16 está conhecendo de mais perto, de 9 a 14 de maio. Em Aparecida (a 167 km de São Paulo), o papa deve abrir a quinta assembléia do Conselho dos Episcopados Latino-Americanos (Celam), a primeira a ser realizada desde a de Santo Domingo (República Dominicana) em 1992. Pela primeira vez, os responsáveis católicos do subcontinente vão se enfrentar em torno da delicada questão da sua erosão numérica em proveito das igrejas evangélicas ou pentecostais, cujo crescimento e apetite por poder confundem os observadores.

Em 25 anos, a Igreja católica do Brasil teria perdido um quarto dos seus fiéis. Todo ano, 600.000 pessoas a deixam, ao passo que os evangélicos representariam até 18% da população. Esses números não levam em conta aqueles que circulam de uma Igreja para outra, “católicos evangélicos” ou “católicos candomblés”, do nome da religião tradicional de origem africana.

A força dos evangélicos atua tanto na mídia quanto no plano político. Edir Macedo, um bispo, chefe da Igreja Universal do Reino de Deus, controla a TV Record, que é a terceira emissora mais importante em nível nacional, além de dezenas de rádios locais e de um jornal gratuito, distribuído aos milhões de exemplares. Reunidos no quadro do Partido Republicano (PR), eles fizeram campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e estão presentes no governo, com José Alencar, o vice-presidente. Marina da Silva, ministra do meio-ambiente, é membro do Movimento Progressista Evangélico.

Na Argentina, em vinte anos, 4 milhões de fiéis (10%) teriam se afastado da Igreja católica, ao passo que os evangélicos representariam 10% da população, ou o dobro nos bairros mais desfavorecidos das grandes aglomerações. No México, desde 1970, a população católica caiu de 10 pontos e o dinamismo dos evangélicos se traduz por aquisições de imóveis e por operações nos meios de comunicação. O clero católico conta 14.000 padres, ou seja, 1 para cada 90.000 habitantes. Por sua vez, os pastores evangélicos, sejam eles auto proclamados ou formados de maneira expeditiva, já são cerca de três vezes mais numerosos.

Na América Central, o boom dos evangélicos é ainda mais espetacular. Na Guatemala, as novas igrejas recrutam nas populações de índios e faturam os benefícios da sua participação do movimento contra a guerrilha durante os anos 1960-1996. Os seus locais de culto crescem igual a cogumelos na Nicarágua, no Honduras, no Salvador. As práticas sincretistas também se espalharam no Haiti onde, desde 2003, o vodu é reconhecido da mesma forma que as outras religiões, e em Cuba, onde a maioria dos católicos pratica a “santeria”, o culto afro-americano local.

Como terá sido possível chegar a este ponto? O catolicismo latino-americano por muito tempo serviu de modelo: com um número recorde de fiéis – 40% dos católicos em todo o mundo (1,1 bilhão) -, com a sua inventividade teológica, o seu engajamento nas lutas sociais. Sem esquecer do martírio sofrido por alguns dos seus representantes, vítimas das ditaduras e dos conflitos dos anos 1970-1990 – no Chile, Argentina, Brasil, Haiti, Salvador, Guatemala, Nicarágua.

Bispos (Dom Romero no Salvador, Dom Angeleli na Argentina); padres, religiosos e religiosas (as francesas Alice Domont e Léonie Duquet, “desaparecidas” sob a ditadura argentina de 1976-1983), além de inúmeros militantes laicos, pagaram com a sua vida o apoio não violento que eles deram às forças de restauração da democracia, de defesa dos pobres, dos camponeses sem terra e das populações indígenas.

Por ocasião das conferências dos bispos do Celam em Medellín (Colômbia), em 1968, na presença do papa Paulo 6º, e em Puebla (México) com João Paulo 2º, em 1979, uma minoria de bispos e de teólogos progressistas havia conseguido impor uma “opção preferencial pelos pobres”, que foi encarnada a partir de então por “profetas” tais como Dom Helder Câmara, um bispo do Nordeste brasileiro (morto em 1999), Dom Proano, bispo dos índios no Equador, o cardeal Silva Henriquez, arcebispo de Santiago (Chile), fundador do Vicariato da Solidariedade sob a ditadura de Pinochet, Dom Samuel Ruiz, um advogado dos maias do México.

Paralelamente, a Teologia da Liberação, que nasceu no Peru com Gustavo Gutierrez, e se desenvolveu no Brasil com os irmãos franciscanos Leonardo e Clovis Boff, e no Salvador com o jesuíta Jon Sobrino – que Bento 16 acaba de sancionar mais uma vez -, no Chile com Pablo Richard, e no México com Enrique Dussel, tornou-se a ovelha negra dos estrategistas norte e sul-americanos do anticomunismo, que nela enxergam uma espécie de bíblia marxista para as guerrilhas da América Latina.

As repreensões e as sanções do Vaticano, que obrigaram Gustavo Gutierrez e Leonardo Boff a permanecerem em silêncio, também contribuíram singularmente para a “diabolização” desta teologia da liberação, que, mais modestamente, pretendia ser uma análise da “força histórica dos pobres” a partir da releitura dos textos bíblicos conduzida no quadro de “comunidades eclesiásticas de base”, as quais são centros de educação popular, de catequese, de liberdade e de resistência. Foi nesses meios católicos que Lula da Silva, no Brasil, construiu o sucesso do seu Partido dos Trabalhadores (PT).

Segundo informa a leitura dos documentos preparatórios para a conferência episcopal de Aparecida do Norte, que será aberta pelo papa, duas linhas dividem hoje o catolicismo sul-americano. Primeiro, uma linha neoconservadora, representada por movimentos poderosos, porém desiguais – a Opus Dei no Peru, os Legionários do cristo, que nasceram no México -, por novas gerações de bispos, por pregadores da Renovação Carismática, tais como o célebre Padre Marcelo Rossi que, à moda pentecostal, lota estádios brasileiros.

Para eles, a “politização” da Igreja é amplamente responsável pela sua erosão numérica. Ela alcançou as classes médias, os círculos intelectuais e as forças de oposição, mas negligenciou as necessidades espirituais das populações marginalizadas. Isso teria beneficiado aos grupos evangélicos, mais dispostos a formar “pastores”, a enquadrar os bairros pobres com as suas redes de ajuda comunitária, a prometer benefícios imediatos em termos de saúde, de luta contra o álcool ou as drogas.

Para esses neoconservadores, a solução é a do “endurecimento”: a Igreja católica não deve ceder à pressão das suas concorrentes evangélicas. Ela precisa permanecer ela mesma, retornar a um estrito formalismo nos seus seminários, na formação dos seus laicos, nas suas formas litúrgicas, na educação religiosa, no seu combate em defesa da vida (contra o aborto, contra a contracepção). Ora, por ocasião da última conferência do Celam, em Santo Domingo em 1992, as correntes conservadoras e o Vaticano já haviam imposto esta busca de um novo equilíbrio e uma linha de “nova evangelização das culturas”, uma decisão que incluiu um investimento maciço na comunicação e na formação, destinado a zonas urbanas e secularizadas.

Vem então a segunda linha, muito minoritária, chamada de “profética”, aquela que não se conforma com a derrocada da “opção prioritária pelos pobres”. Em artigo publicado na revista espanhola “Adital”, na sua edição de fevereiro de 2007, o brasileiro Jung Moi Sung – que faz parte da nova geração de teólogos da liberação capaz de fazer a crítica da precedente – escreve: “Nós somos obrigados a reconhecer que o sonho acariciado pelas comunidades de base e a nossa teologia, segundo a qual a massa dos cristãos na América Latina adotaria o cristianismo de liberação, foram derrotados”. Ele deplora que “os métodos de marketing visando a aumentar o número dos fiéis, se tornaram mais importantes do que o papel profético do cristianismo na construção de uma sociedade mais juste e mais humana”. Mas ele não desiste do papel de vanguarda que os cristãos são chamados a exercer nas lutas ecológicas, junto às populações índias, às mulheres e a todos aqueles que foram deixados por conta pelas economias neoliberais.

A “opção preferencial pelos pobres” segue sendo a de bispos tais como Dom Amazzini no Honduras ou Dom Fernando Lugo no Paraguai que, apoiado pela população, acaba de renunciar à sua função para se candidatar na próxima eleição presidencial. Na Venezuela, na Argentina, no Chile ou em outros países, a Igreja católica também sabe proteger a sua independência, luta contra a corrupção política, participa das manifestações de rua, e ainda aparece nas pesquisas como a instituição a mais crível. Na Argentina, por exemplo, estão muito tensas as relações entre a hierarquia e o presidente Nestor Kirchner, criticado nos seus sermões pelo cardeal jesuíta José-Maria Bergoglio, o arcebispo de Buenos Aires.

“Com a globalização, as idéias, as religiões e as igrejas circulam”, resume o Padre Philippe Klöckner, responsável do Centro Episcopal França-América Latina (Cefal). “Se a Igreja católica na América Latina optou por erguer barricadas contra os evangélicos, ela morrerá com as suas certezas”.

Fonte: Le Monde