Jesus García-Ruiz e Patrick Michel, diretores de pesquisas no CNRS, o principal centro francês de pesquisas científicas, falam sobre a recente visita ao Brasil do papa Bento XVI, o que revelou uma igreja católica suicida que vem perdendo fiéis para as igrejas evangélicas.

Confira o texto abaixo:

Durante o vôo que o conduzia ao Brasil, onde ele iria inaugurar as atividades da 5ª Conferência Geral dos Bispos Latino-americanos (Celam), que será encerrada em 30 de maio, o papa Bento 16 comentou informalmente com os jornalistas que o acompanhavam que a sua viagem tinha “um alcance latino-americano e um caráter fundamentalmente religioso”. Ao ser indagado a respeito da existência, no Brasil, de pessoas “que não querem ouvir a mensagem da Igreja”, no entanto, o papa sublinhou que “isso não é um fato específico” deste país: “Por toda parte nesta Terra, muito numerosos são aqueles que não querem ouvir o que diz a Igreja”.

Enquanto esta simples constatação é suficiente para esclarecer o alcance geral da visita do papa, a escolha do Brasil como sede desta 5ª Conferência, por sua vez, deve ser atribuída a um cálculo estratégico. De fato, no contexto de um continente onde vive a metade dos católicos do mundo, trata-se do país que conta o maior número de fiéis. Além disso, o Brasil é uma potência emergente, que aspira a exercer um papel de primeiro plano, tanto na cena regional quanto na cena internacional. Em terceiro lugar, a sociedade brasileira constitui um verdadeiro concentrado de todas as questões, do econômico ao social e do político ao cultural, passando pela ética, às quais a Igreja católica precisa responder. Por fim, a confrontação neste país com os movimentos evangélicos revela-se particularmente intensa.

O discurso do papa enfatizou, além da defesa da moral católica, a recusa da “mistura equivocada” da religião com a política, a reiteração do papel central da hierarquia da Igreja, assim como a conclamação a conter a progressão dos pentecostistas, e até mesmo a dar início a um processo de reconquista. Ora, todos esses são elementos de um programa do qual não é difícil prever o fracasso, considerando-se o contexto e as primeiras reações, muito particularmente no âmbito da Igreja católica brasileira e latino-americana. Além disso, de maneira mais grave ainda, este programa reflete, frente às evoluções do mundo atual, o caráter quase suicida da postura adotada pela Igreja católica.

Vale reconhecer que o Brasil continua sendo, de fato, conforme sublinhou o cardeal-primaz Geraldo Magela, um dos países os mais religiosos do mundo, no extremo oposto, segundo ele, “da secularização radical que pode ser observada em outras latitudes”. Mas não é menos verdadeiro que “o abandono da Igreja católica”, rumo a outras confissões, para retomar a frase de outro membro do episcopado, o arcebispo de Salvador da Bahia, é “impressionante e maciço”. A este respeito, o novo arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, não hesita a falar de uma “fuga silenciosa”. Em trinta anos, os católicos passaram de 91,4% para 73,9%, enquanto o número de evangélicos – 6,6% da população em 1980 – alcançava 17,9% em 2003. Se esta progressão viesse a prosseguir, eles constituiriam mais da metade da população brasileira entre 2020 e 2025.

Esta tendência não é nem um pouco nova. Mas, até recentemente, ela havia permanecido ignorada pela Igreja na medida em que, no decorrer dos últimos 25 anos, a luta contra o inimigo interior que representava a teologia da liberação ocupou uma posição de destaque, no topo da lista da sua agenda. O crescimento alcançado atualmente pelos evangélicos, tanto no Brasil como em outros países da América Latina, explica que o papa faça agora da concorrência desses movimentos uma prioridade. Após ter caracterizado a teologia da liberação como um inimigo interno que precisava ser neutralizado, e após ter concluído esta empreitada de normalização, a Igreja, contudo, se encontra hoje na situação de ter que lutar contra o inimigo exterior, desprovida daquilo que poderia ter sido o seu melhor trunfo: a sua presença e a sua influência junto aos mais pobres.

A questão dos evangélicos levanta de fato um problema tríplice a ser resolvido pela Igreja católica. À forte diminuição da sua “parte do mercado” religioso, acrescenta-se o risco político correlato de uma perda de influência, e até mesmo de controle, sobre as sociedades. Sobretudo, a Igreja encontra-se na situação de ter de gerir as conseqüências da liquidação de um monopólio, uma vez que a confrontação parece estar aberta nem tanto com os evangélicos quanto com aquilo que eles encarnam, a saber, o pluralismo. Não é pouco importante o fato de Bento 16 reiterar, dentro de uma perfeita continuidade com o seu predecessor, a sua plena adesão à democracia, com a condição de que esta seja informada pelos valores cristãos, dos quais a Igreja é garante e a intérprete legítima. Dentro da mesma perspectiva, a denúncia do relativismo tem de fato como alvo, muito precisamente, um pluralismo que não beneficiaria desta informação.

Bento 16 dá continuidade, portanto, a tudo aquilo que João Paulo 2º havia empreendido, mesmo se a sua falta de carisma tende a amplificar os problemas que o seu predecessor se dedicava a desativar, por meio apenas da magia da sua presença, nos quatro cantos do planeta. Ou, melhor dizendo, que o seu predecessor se dedicava a ocultar, pois a realidade mostra que dentro da perspectiva desenvolvida, a conversão constitui um indicador forte da defasagem de uma Igreja preocupada em manter sobre as sociedades uma dominação que a própria evolução dessas sociedades tende a desqualificar. Mas, conforme afirma Leonardo Boff, “o principal responsável [por esta hemorragia] é a própria Igreja, pois ela é muito centralizadora e hierarquizada”.

Desde que o papa Pio 9º, em 1864, num syllabus (conjunto de decisões papais sobre problemas contemporâneos) em que ele constatava “os principais erros do nosso tempo”, concluiu o seu levantamento com a idéia segundo a qual “o Pontífice romano pode e deve se reconciliar e transigir com o progresso, o liberalismo e a civilização moderna”, a Igreja se encontra na situação de ter que renegociar permanentemente a sua relação com o espaço, o tempo e a autoridade. O dispositivo que foi implantado no final do século 19, de uma Igreja se desgastando como alternativa antimoderna à modernidade, foi de fato revisado por João Paulo 2º. Uma vez que o parêntese da modernidade supostamente havia sido fechado, a Igreja não mais precisava situar-se em relação a ela. Entretanto, além do fato de que esta tese mostrou os seus limites, a aceleração multiforme de um movimento que age sobre e transforma todas as sociedades, e muito particularmente num continente como a América Latina, que se encontra em pleno processo de globalização, levanta mais uma vez, só que de maneira bastante diferente, a questão da relação com o espaço e o tempo.

Mas, lá onde os evangélicos conseguem inventar uma nova relação com o território, a Igreja católica, por causa da sua lógica institucional, permanece fechada dentro de uma concepção ultrapassada. Além disso, no que diz respeito à relação com o tempo, diante dos movimentos indígenas que exigem o reconhecimento do seu direito a um sistema de crenças próprio; e diante da leitura norte-americana segundo a qual a América Latina não teria conhecido uma verdadeira evangelização; a Igreja nada faz senão reafirmar, contra toda evidência, que “o anúncio de Jésus e do seu Evangelho em momento algum comportou uma alienação das culturas pré-hispânicas, nem constituiu a imposição de uma cultura estrangeira” (Bento 16, discurso inaugural da 5ª Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, 13 de maio). Tal declaração só faz reforçar os argumentos daqueles que, à conversão forçada e maciça, opõem a conversão individual livremente consentida.

Será que o fracasso da definição de uma relação pertinente com o tempo e o espaço pode ser compensado apenas pela reafirmação da autoridade da Igreja? Bento 16 parece estar convencido disso, apesar dos inúmeros testemunhos que apontam para o sentido contrário. Resta que a América Latina constitui, de modo evidente, um laboratório no qual as evoluções do religioso aparecem como um indicador, assim como um espaço privilegiado de gestão das recomposições que conhecem as sociedades contemporâneas.

Texto escrito por Jesus García-Ruiz e Patrick Michel, diretores de pesquisas no CNRS, o principal centro francês de pesquisas científicas.

Fonte: Le Monde