O chefe da Igreja Anglicana disse ver argumentos a favor de uma ruptura dos laços entre a igreja e o Estado, mas que se oporia a essa ruptura no momento. “Acredito que a igreja existe por causa de Deus, não por causa do Estado”, disse o arcebispo Rowan Williams em entrevista à rádio BBC nesta quinta-feira, 18.

O monarca é o supremo governante da igreja da Inglaterra, o governo nomeia os bispos e o Parlamento tem a última palavra em decisões importantes, como a ordenação de mulheres. Vinte e seis bispos da igreja fazem parte da Câmara dos Lordes, e a igreja é uma grande provedora de educação básica.

Williams falou sobre a questão por conta de sua entrevista à revista New Statesman, em que ele falou de sua experiência na igreja Anglicana no País de Gales, que foi “desestabelecida”, isto é, desligou seus laços formais com o Estado.

“A força disso é que os últimos vestígios de sanção estatal desapareceram, então quando você votava no Sínodo Galês, isso não tinha que ser referendado pelo Parlamento depois. Há uma certa integridade nisso.”

Questionado se apoiaria o desestabelecimento da igreja da Inglaterra agora, Williams disse: “No momento, não.”

“Minha inquietação sobre continuar esse processo tem a ver com o fato de que é um momento precário de presença pública da fé na sociedade”, disse.

“Acredito que os motivos que levariam a uma separação da igreja e do Estado agora teriam em grande parte a ver com a tentativa de empurrar a religião para a esfera privada e é esse o ponto que eu diria, ‘bem, não com essa base.'”

Essa separação é normalmente discutida, mas há pouco interesse do governo nela. “A igreja Anglicana é, por lei, estabelecida como a igreja da Inglaterra, e o monarca é seu governante supremo. O governo permanece comprometido com sua posição e com os valores da igreja”, disse um porta-voz do primeiro-ministro Gordon Brown.

A igreja da Irlanda foi desestabelecida em 1871; a igreja da Escócia, uma igreja presbiteriana, é estabelecida por lei, mas independente do governo.

A igreja da Inglaterra nasceu pela decisão do rei Henrique VIII de rejeitar a autoridade papal no século XVI, depois que o papa recusou a anulação do primeiro casamento do monarca.

“No momento”, disse Williams, “a igreja Anglicana é, em sua posição estabelecida, um guarda-chuva útil para outras organizações de fé, um pé na porta da sociedade secular, e eu seria bastante contrário a perder isso, e penso que a sociedade perderia também.”

Fonte: Estadão