O padre Júlio Lancelotti, 58, recebeu apoio de várias lideranças ontem durante um evento inter-religioso na paróquia de São Miguel Arcanjo, na Mooca (zona leste de SP). Participaram do ato representantes da Igreja Metodista, da Igreja Episcopal Anglicana e das comunidades judaica e budista.

A cerimônia reuniu cerca de 400 pessoas na igreja na qual Lancelotti é pároco.

O religioso reafirmou no ato inter-religioso que não manteve relações sexuais com o ex-interno da Febem Anderson Batista, 25, e negou ter usado dinheiro de instituições beneficentes para entregar ao jovem.

O padre acusa Batista de ter extorquido dinheiro dele desde 2004 – o caso foi concluído pela polícia, que indiciou os quatro acusados pelo padre. Hoje, o religioso depõe à Justiça sobre o caso. Foi ele quem denunciou à polícia que estava sendo vítima de extorsão.

Em outro inquérito, o religioso é investigado por corrupção de menores, crime que ele nega ter praticado.

A presença mais marcante no ato foi a do rabino Henry Sobel. Ele chegou à igreja durante o canto inicial e deu um forte abraço em Lancelotti, sob aplausos. “Estou aqui porque acredito na inocência do padre Júlio Lancelotti. Ninguém é culpado por antecipação”, disse o religioso.

Acusações não podem provocar ‘guerra religiosa’, diz padre Júlio

Durante o ato, em que reafirmou sua inocência, o padre manifestou a preocupação de que as acusações contra ele evoluam para o que chamou de “guerra religiosa”.

“Não podemos ter uma guerra religiosa. Nenhuma igreja deve usar isso para destruir outra. Quem pensa diferente de nós deve respeitar. Nós temos que respeitar os budistas, os mulçumanos, os judeus… Todas as religiões, todas as crenças numa sociedade pluralista, e olhar para o irmão de outra igreja com fraternidade e afeto”, disse ele, sem citar nomes. Ele ainda reclamou que o trabalho social da Igreja Católica voltado aos pobres e excluídos também é alvo de perseguição.

Sobre as acusações, o padre pediu que não sejam faladas mentiras. Júlio Lancelotti é acusado de corrupção de menores e de manter relações com um ex-interno da Febem, que está preso, em troca de dinheiro. Por sua vez, o padre o acusa de extorsão. “Eu nunca pude ter acesso às finanças da (ONG) Nossa Senhora do Bom Parto. Sou conselheiro, não tenho acesso nem às contas da Fundação Casa Vida”, defendeu-se.

Escutas telefônicas

Padre Júlio disse às cerca de 250 pessoas que compareceram ao ato que, desde 2005, procurou o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin e autoridades da cúpula da segurança do estado para protegê-lo de investidas de extorsão. Ele contou ter se submetido a escutas telefônicas e que, se houvesse qualquer indício de corrupção de menores, seria revelado nas cerca de duas horas de gravações.

Segundo ele, por três meses a Polícia Militar lhe deu proteção sem que ele soubesse. O padre disse que se fossem verdadeiras, as acusações poderiam ter sido comprovadas neste período pelos policiais. “Se alguma coisa tivesse acontecido teria sido fotografado”, afirmou.

Também reclamou do tratamento que meios de comunicação deram ao caso. “Havia uma manchete de meia página (de jornal), mas, quando a mãe disse que não era verdade, isso virou uma pequena notícia nas últimas páginas.” O padre também contou ter ouvido de uma criança que a mãe dela o teria orientado a acusá-lo de corrupção de menores. “Eu disse olhando nos olhos do arcebispo: ‘Eu não fiz nada com essa criança’”, afirmou.

Constrangimento

“Não pretendo destruir ninguém. Pretendo só que a verdade seja clara e que tudo seja esclarecido da melhor maneira”, concluiu.

Sobre o desgaste das acusações, ele disse sentir-se constrangido com o sofrimento de fiéis de sua comunidade e de sua mãe, de 84 anos. “É uma experiência difícil e dolorosa você ser acusado, ser colocado nas primeiras páginas dos jornais, dizendo que você abusou de criança e teve relacionamento com determinada pessoa”, disse.

Compareceram à igreja representantes das comunidades cristãs, evangélicas, budista, judaica e católica que prestaram solidariedade ao padre.

O padre Júlio Lancellotti e outras testemunhas serão ouvidos hoje em São Paulo. De acordo com o Tribunal de Justiça do Estado, o depoimento terá início às 14 horas no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste da cidade. O depoimento será fechado.

Por volta das 13 horas, entidades de direitos humanos prometem fazer vigília do lado de fora do fórum. O religioso denunciou que foi vítima de extorsão praticada por quatro pessoas, entre elas um ex-interno da Febem, identificado como Anderson Batista. Júlio Lancellotti afirma que era ameaçado de ser denunciado por pedofilia. Já Anderson diz que mantinha relacionamento sexual com o padre.

Fonte: G1 e Folha de São Paulo