Se a eleição para a Prefeitura do Rio de Janeiro considerasse apenas os eleitores de Ipanema, na zona sul da cidade, o senador Marcelo Crivella (PRB) não só deixaria de ir ao segundo turno em primeiro lugar –com 27,78% dos votos válidos– como amargaria a quinta colocação no pleito.

[img align=left width=300]http://imguol.com/c/noticias/c8/2016/10/02/2out2016—candidato-marcelo-crivella-prb-comemora-apos-a-confirmacao-de-que-ira-para-o-segundo-turno-no-rio-de-janeiro-a-cidade-tera-um-duelo-de-marcelos-crivella-x-freixo-psol-1475454158918_615x300.jpg[/img]Com 6,89% dos votos registrados nesta zona eleitoral, o candidato teve no bairro, um dos mais valorizados do Rio, o seu pior desempenho entre as 94 áreas de votação do município. No próximo dia 30, ele vai enfrentar o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), que obteve 18,26% dos votos válidos na cidade.

Para moradores ouvidos pela reportagem do UOL nesta segunda-feira (3), dia seguinte à eleição, o resultado expõe a resistência que parte dos eleitores de Ipanema –e da zona sul– têm à associação do candidato com a Iurd (Igreja Universal do Reino de Deus), da qual ele é bispo licenciado.

Desconstruir a ideia de que ele vai misturar política com religião caso chegue ao Executivo municipal é, na avaliação do cientista político e professor do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio) Geraldo Tadeu Monteiro, o grande desafio de Crivella no restante da campanha.

Procurado pela reportagem para comentar as declarações, Crivella repetiu, por e-mail, a resposta que deu a jornalistas na noite de domingo (2), logo após a confirmação do resultado do primeiro turno, quando foi questionado sobre a chance de interferência da Universal em seu governo.

Marcelo Crivella

“Quem defende a democracia e os direitos humanos precisa ficar atento para não se deixar contaminar pela intolerância, não discriminar nem reproduzir mentiras inspiradas no preconceito. O Rio é uma cidade aberta, livre, tolerante. Essas são as bases da cultura carioca, tão admirada no mundo inteiro. Precisamos lutar contra todos os preconceitos, sempre”, acrescentou.

“O fato de ele estar ligado à igreja não é visto com bons olhos entre as pessoas com quem eu convivo. Não votaria nele nem no Freixo”, comenta a oficial do Exército e psicanalista Ana Brito Jaques, 49, citando o oponente de Crivella no segundo turno, que obteve 22,03% dos votos em Ipanema. No bairro, o candidato do PSOL perdeu apenas para Carlos Roberto Osorio (PSDB).

“Todos os votos dele aqui devem ter vindo de lá”, afirma o paisagista Carlos Keller, 61, apontando para o morro do Cantagalo, favela situada no bairro. Ele atribui a inexpressiva votação de Crivella no local ao “alto nível” de escolaridade da maioria dos moradores de Ipanema. Keller declarou ter votado no ultraconservador Flávio Bolsonaro (PSC).

O sociólogo Adriano Espínola, 35, que votou em Freixo, diz acreditar que a grande força política de Crivella está na inserção das igrejas evangélicas nas camadas sociais menos favorecidas. “Acho preocupante essa relação, principalmente em um cenário de polarização que opõe o bem contra o mal.”

Também morador de Ipanema, o aposentado Antônio Carlos Bert foi um dos que votou em Osorio e diz que, apesar de não gostar de Crivella, “vai ter que votar nele”. “A zona sul tende a ser mais de esquerda mesmo. Mas eu não sou”, diz.

Identificação religiosa

Já no caso hipotético de se contabilizarem apenas os votos da zona eleitoral onde ele teve maior votação, que engloba os bairros de Bonsucesso e Ramos, na zona norte da cidade, Crivella teria 47% dos votos válidos, e por pouco não ganharia no primeiro turno.

Na região, é consenso entre os eleitores ouvidos pela reportagem: a grande população evangélica na área contribuiu para o desempenho. “Só o povo da igreja é muita gente”, diz Geralda Morais, 74, que trabalha como comerciante em frente a um templo da Iurd em Ramos e também frequenta a igreja.

De acordo com o IBGE, quase um quarto (23,4%) da população carioca, cerca de 1,5 milhões de pessoas, se declarou evangélica no Censo de 2010. O instituto informou que não é possível extrair dados de religião por bairro do levantamento.

“Eu admiro muito ele. É uma pessoa muito boa. Tinha que ter ganhado no primeiro turno”, diz Maria José Carvalho, 85, há 20 anos seguidora da Universal.

O comerciante Joaquim Augusto, 56, afirma que presenciou “uma campanha forte” dentro das igrejas da região, com distribuição de panfletos de campanha na frente a templos. A reportagem tentou conversar com o pastor do templo da Iurd situado na rua Uranus, em Ramos, mas ele recusou o pedido de entrevista, dizendo que “não misturava esses assuntos”.

Dona Geralda também nega que haja campanha dentro da igreja. “Aí a gente só fala de Deus”, declara. “Votar no Crivella é uma tentativa que a gente faz de mudar alguma coisa, porque o Rio vai muito mal.”

Para o estudante Gabriel Mattos, 20, que mora em Bonsucesso e votou em Freixo, “Crivella não vê os jovens, foca nos mais velhos, mais conservadores”. Outro fator para a grande votação do senador na região, segundo o estudante, é que ele o mais conhecido dos que tentaram se eleger para a Prefeitura do Rio.

Ele diz ainda acreditar que as “propostas assistencialistas” do candidato agradam em cheio a população de comunidades carentes como as da zona norte.

“O discurso do Crivella acaba sendo mais bem absorvido pela população mais pobre. Ele tem um discurso mais popular, fala de cuidar das pessoas. Não faz o discurso da racionalidade administrativa, da tecnicidade, da gestão, que é voltado para os estratos de alta escolaridade. Tem linguagem compatível com a vivência dessas pessoas, muito didática”, comenta Tadeu Monteiro.

“Eu me identifico com os valores dele”, diz a recepcionista Raquel Lopes, 32, que é evangélica e faz parte da congregação da Assembleia de Deus. O fato de ele ser religioso, conta ela, ajudou na hora de escolhê-lo na eleição. Questionada se mais alguém da família vai votar em Crivella, ela afirmou: “todos, porque todo mundo lá em casa é evangélico”.

Mas entre os cristãos também há quem se oponha à eleição do senador. “Ele usa a palavra de Deus em vão. Quem lê isso aqui”, diz Jorge Luís Gomes, 64, apontando para uma Bíblia que levava à mão, “não se envolve com política. Uma coisa não segue a outra”. Testemunha de Jeová, ele afirmou ainda ter votado em branco no domingo.

[b]Fonte: UOL[/b]