Diante da dificuldade em explicar a participação do PT no escândalo da montagem de um dossiê contra os tucanos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi jurar inocência e reclamar do caso para o bispo de Uberlândia, o progressista d. José Alberto Moura.

“Até agora não estou acreditando nisso”, afirmou o presidente, sentado numa cadeira ao lado do bispo, na sala Vip montada atrás do palanque. A conversa dos dois foi ouvida apenas por ministros que estavam em campanha.

À época do Brasil Colônia, a expressão “Vá reclamar para o bispo” era usada para dizer que só a autoridade religiosa, o ouvidor da vila, poderia resolver o problema de colonos e colonizados. Desde que a Polícia Federal prendeu acusados de vender para um grupo de petistas dossiê contra o candidato ao governo de São Paulo José Serra (PSDB) e o ex-ministro tucano Barjas Negri, Lula rifou o coordenador da campanha dele pela reeleição, deputado Ricardo Berzoini (PT-SP), e negou qualquer ligação com citados no escândalo, inclusive o churrasqueiro preferido dele, Jorge Lorenzetti.

Como nos comícios e entrevistas, o presidente não poupou os acusados na conversa com o bispo d. José Alberto Moura. “Foi uma imbecilidade, eles (petistas acusados de participar do esquema) foram primários e arrogantes”, disse o presidente. “Quem tiver responsabilidade tem de pagar por isso”, acrescentou. O bispo, que foi ao comício por iniciativa própria, deu apoio ao presidente, segundo pessoas que ouviram a conversa.

A diocese de Uberlândia responde por comunidades católicas de nove municípios do oeste mineiro, área onde vivem 665 mil pessoas, segundo dados do IBGE.

Pessoas próximas do presidente avaliam que Lula, além de estar se redobrando para rebater críticas da opinião pública e da imprensa, está preocupado com a imagem que sempre o uniu a antigos aliados – padres progressistas, sindicalistas e professores universitários, o político que sempre cobrou ética dos adversários e se colocou contra montagem de dossiês.

Lula, para garantir a bênção do bispo, chegou a dizer que a Polícia Federal está atuando com autonomia no caso. “A Polícia Federal é uma instituição respeitada e está fazendo o trabalho dela”, afirmou. Depois, o presidente disse ao d. José que faz um governo para a população mais pobre. “É por este povo que a gente governa, dom José”. E o bispo deu um longo abraço no presidente.

Mais animado e tentando demonstrar não ter culpa nesse episódio terreno, Lula, então, disse que precisa do apoio de todos os aliados para ganhar as eleições. Ao bispo, reclamou também da imprensa por interpretações que, na visão dele, estão equivocadas. Criticou especialmente manchetes dos jornais de sábado que sugeriam que ele admitia o segundo turno.

“Os companheiros da imprensa não estão percebendo. Eu nunca disse que não iria para o segundo turno”, afirmou. “Vencer no primeiro turno é maravilhoso, mas se tiver segundo turno, vamos disputar com a mesma alegria, disposição e paixão”, completou. “Estou falando o que falava no início da campanha, estamos disputando o jogo democrático.”