Médium João Teixeira de Faria, conhecido até no exterior, reúne fiéis para “cirurgias espirituais” e “passes” em Goiás; fé move montanha de dinheiro.

Confira abaixo matéria da Folha de São Paulo desta segunda-feira, 23 de abril:

Em Abadiânia, a fé move montanhas. De dinheiro. Atraídos pelo dom do médium João Teixeira de Faria, o João de Deus, cerca de 3.000 fiéis visitam, semanalmente, a Casa Dom Inácio de Loyola, em Goiás.

Em uma casa azul e branca, a 79 km de Goiânia, ilustres e anônimos passam pelas mãos de João de Deus -ou John of God, como é conhecido no exterior- para realização de cirurgias espirituais e também passes.

A história de João, que teve sua primeira visão aos oito anos, já foi tema dos programas da americana Oprah Winfrey e da Xuxa. No mês passado, Oprah -uma das maiores celebridades da TV dos EUA- veio ao Brasil para entrevistar o médium, filho de um alfaiate com uma dona de casa.

Hoje, aos 69 anos, João de Deus é dono de pelo menos uma fazenda de 597 alqueires -o correspondente a 18 parques como o do Ibirapuera (zona sul de São Paulo)- na divisa de Goiás com Mato Grosso. Lá, uma propriedade dessa dimensão não vale menos do que R$ 2 milhões. O médium tem o garimpo como fonte de renda.

[b]CALMANTE[/b]

Apesar de o atendimento ser gratuito, a casa, fundada em 1976, conta com farmácia de manipulação, livraria, lanchonete e loja de cristais benzidos pelo médium. Até a água fluidificada tem valor agregado. A garrafa custa R$ 1. Energizada, vale R$ 3.

O grosso do dinheiro arrecadado vem da venda de frascos de passiflora, calmante natural fabricado pelo grupo. Organizados em fila conforme a assiduidade na casa, os consulentes recebem do médium uma receita, expressa num rabisco, para consumo de três comprimidos por dia como complemento ao tratamento presencial.

O frasco, com 175 cápsulas, custa R$ 50. Como a média de atendimento é calculada em mil pessoas por dia, três vezes por semana, a receita com a venda pode chegar a R$ 500 mil ao mês.

Embora traga as inicias de João Teixeira Faria, a Farmácia de Manipulação JTF Ltda, que comercializa o remédio, está registrada em nome da mulher, Ana Keyla Teixeira, 33, e de seu motorista e caseiro Abadio da Cruz, 41.

Procurado, Abadio disse trabalhar com João de Deus há 17 anos, mas mostrou desconhecer a rotina da farmácia da qual figura como sócio. Diante da insistência da Folha em saber o motivo de sua presença na empresa, ele desligou o telefone.

“Não posso dar informação sobre isso”, repetiu quatro vezes para a reportagem.

O complexo oferece ainda sete cabines de banho de cristal -camas em que pacientes passam por imersão de luz. O preço cobrado é de R$ 20 por 20 minutos de sessão.

Relatos sobre procedimentos do médium, que incluem cirurgias com corte, a depender da escolha do consulente, garantiram-lhe notoriedade internacional.

[b]ATENDIMENTO[/b]

Descalço e vestido de branco, João atende aos visitantes às quartas, às quintas e às sextas. Também de branco, consulentes, boa parte deles estrangeiros, passam por uma triagem para fila de atendimento: primeira vez, segunda vez, revisão…

O médium dedica outros dias da semana a visitas a enfermos. Foi assim com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo relato de petistas, durante seu tratamento contra o câncer na laringe. Em entrevista à “TV Folha” no mês passado, Lula disse que foi procurado por João de Deus e por outros religiosos e que é “muito agradecido” por toda a ajuda que recebeu no período em que esteve doente.

Em uma sala contígua ao salão de atendimento, João ostenta uma foto autografada de Lula, outra do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e uma do ex-ministro Nelson Jobim.

Num pátio de acesso ao salão, vídeos exibem cenas de intervenções com corte, a maior parte no olho e na barriga. Num deles, o senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) aparece como “instrumentador” da cirurgia.

[b]APARTAMENTOS[/b]

Em Abadiânia, João de Deus é proprietário ainda de cinco apartamentos, alugados, cada um, a R$ 1.000 por mês ou R$ 90 por dia. Os imóveis estarão ocupados pelos próximos três meses.

A hospedagem é também fonte de renda de seus apóstolos. Pelo menos seis voluntários da casa -incluindo dois tradutores, dois encarregados do acompanhamento do médium e a responsável pela triagem de visitantes- são proprietários de pousadas vizinhas. Um dos coordenadores é ainda dono do ponto de táxi.

A diária custa, em média, R$ 90 por pessoa em apartamento compartilhado, de modestas acomodações. Já a corrida de táxi da casa até Brasília custa R$ 180.

Os negócios do médium, contudo, não se resumem a Abadiânia. Nos anos 1990, chegou a ser sócio de um bingo em Goiás, na época em que o jogo era legal. Hoje, é sócio do filho em uma clínica odontológica.

Mas sua principal atividade paralela é a mineração de ouro.

[b]Médium explora garimpo de ouro há 40 anos
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Nem só de espiritualidade vive João de Deus. O médium construiu parcela significativa de seu patrimônio explorando garimpos de ouro ao longo dos últimos 40 anos.

[img align=left width=300]http://f.i.uol.com.br/fotografia/2012/04/23/142349-370×270-1.jpeg[/img]Chegou até a ser proprietário de uma empresa de mineração, aberta em 2004 em parceria com uma cooperativa de garimpeiros do interior de Goiás.

Hoje, não há qualquer lavra registrada no DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral), órgão federal de controle das atividades minerárias no país, em nome dele ou de empresa da qual seja sócio.

Contudo, amigos, auxiliares e assessores são unânimes ao dizer que João é garimpeiro e que ganha dinheiro com isso.

“João gosta muito de mineração, gosta de garimpo, sempre gostou”, diz João Américo França Vieira, 52, uma espécie de braço direito do xará médium. “Tem muita coisa do patrimônio do João que é fruto de garimpo.”

João Américo, minerador, afirma conhecer João de Deus há 29 anos. Diz que parte do dinheiro que permite os trabalhos sociais realizados pela Casa Dom Inácio Loyola, o centro espiritual de Abadiânia, vem de seus garimpos.

“Não sei se é coincidência ou se é alguma mediunidade, alguma coisa que faz com que isso aconteça. Mas o que ele tem falado tem dado certo.”

João Américo refere-se a indicações feitas pelo médium a respeito de lugares onde a chance de achar ouro é considerada grande.

“Às vezes ele aciona [a mediunidade]. Por exemplo, eu tenho uma mineração no Pará. Ele disse: ‘Você vai pra lá, você vai achar um negócio assim, assim, assim’. E aí deu certo. Cheguei lá e achei.”

[b]RECOMPENSA[/b]

A recompensa, diz João Américo, vem em forma de colaborações tanto “para a pessoa do João” quanto para os trabalhos sociais da Casa Dom Inácio de Loyola. Ele não falou em valores à Folha.

Hoje, João Américo é dono de um garimpo de ouro em Crixás (GO) que pertencia ao próprio João de Deus. Ficou com o garimpo numa terra de 30 alqueires e deixou com o médium uma fazenda à beira do rio Araguaia, com tamanho 20 vezes maior.

O braço direito de João de Deus -a quem o médium confia a missão de pilotar o avião que o leva para atendimentos pelo Brasil- tem um passado conturbado, justamente na área mineradora.

Américo foi sócio de um dos maiores matadores da garimpagem brasileiro, Márcio Martins da Costa, apelidado de “Rambo” e morto pela polícia paraense em 1992.

Eles abriram quatro empresas juntos, sendo duas mineradoras, no Pará. “Rambo” morreu sob suspeita de ter atuado diretamente em dezenas de homicídios.

O próprio João Américo já foi julgado por cinco homicídios em fevereiro deste ano. Foi inocentado, por falta de provas.
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DÍVIDAS[/b]

A atividade garimpeira gerou a João de Deus, além de dinheiro, cobrança de dívidas. Ex-sócio do médium no garimpo e amigo de infância no interior goiano, Vilmar dos Santos, da cooperativa dos garimpeiros de Crixás, diz esperar até hoje o cumprimento de um acordo pelo qual ele ficaria com 35% da venda do negócio. Segundo suas contas, cerca de R$ 700 mil.

Vilmar afirma ainda confiar no pagamento, mas admite ter receio de ser mais firme na cobrança da suposta dívida do médium.

“Eu sou católico e não acredito nessas coisas de mediunidade. Mas a gente tem essas coisas, fica preocupado com isso, de ficar cutucando os ‘trem'”, afirma o ex-sócio de João de Deus.

[b]’Tudo o que é comercializado é em prol da casa’, diz assessoria[/b]

O médium João Teixeira informou, por intermédio de sua assessoria de imprensa, que atua na área de garimpo e possui fazendas.

A assessoria não informou a quantidade nem a localização de suas propriedades rurais e reservas de extração de minério. “Os negócios pessoais e a vida de sr. João Teixeira dizem respeito a ele e não devem ser objeto de especulação”, informou, por e-mail.

A assessoria apresenta dados contraditórios sobre o início da atividade no garimpo. Numa resposta, diz que foi iniciada aos seus nove anos (“há 60 anos”). Em outra, que foi há 40 anos.

Segundo a assessoria, é do garimpo e das fazendas que João de Deus “retira recursos necessários para seu sustento e para custear todas as despesas decorrentes da casa de Dom Inácio e das demais atividades assistenciais e de caridade a que se dedica”.

Ainda segundo a assessoria, toda a arrecadação da Casa Dom Inácio de Loyola é destinada ao funcionamento do centro, a obras de caridade e à distribuição de sopa a visitantes e pessoas carentes.

“Tudo o que é desenvolvido e comercializado é em prol da casa e da ‘casa da sopa’.”

Sócio da farmácia de manipulação responsável pela produção de passiflora vendida no centro, Abadio da Cruz disse que não poderia comentar sua participação no negócio. Segundo a assessoria, Abadio, que atua como motorista do médium, é um funcionário da casa.

Procurada, Ana Keyla -mulher e sócia de João Teixeira- não foi localizada.

Falando em nome do médium, de quem é amigo, o empresário Marcus Elias, controlador do fundo Laep Investiments e um dos donos da Parmalat, afirmou que João de Deus é “um fazendeiro e garimpeiro que atende às pessoas três vezes por semana [em Abadiânia]”.

Segundo Elias, João de Deus conquistou fortuna em Serra Pelada. E, ainda hoje, é dono de garimpos e propriedades rurais.

Ainda de acordo com Elias, são cerca de 40 funcionários contratados. Ao responder por que a farmácia não foi registrada no nome de João de Deus, Elias afirmou que o médium é analfabeto funcional.

[b]Fonte: Folha de São Paulo[/b]