As Forças Armadas foi alertada pela Aeronáutica, em 1980, sobre suposto plano da Igreja Católica de São Paulo para “a derrubada do governo”.

Em sinal do ambiente conspiratório em que vivia o serviço de inteligência militar durante a ditadura (1964-85), a Aeronáutica alertou as Forças Armadas, em 1980, sobre um suposto plano da Igreja Católica de São Paulo para “a derrubada do governo”, se necessário “com um confronto armado”, para criar um Estado religioso independente do Vaticano.

O suposto plano, encarado como “uma crise de grandes proporções”, recorreria a várias táticas, dentre as quais “facilitar ao máximo a penetração do pessoal gay nas funções governamentais”, para conseguir “informação dentro dessas áreas, corrupção e adesão”.

Outras manobras seriam “o relaxamento do ensino público” e o “desvio das atenções das autoridades civis e militares”, por meio de “festividades, inaugurações, assembleias públicas”.

Para os militares, parte do plano consistiria em “denunciar as deficiências sociais atuais”, de modo a aumentar “a insatisfação” das pessoas.

A igreja, diz o relatório, iria recrutar nordestinos e 12.000 coreanos, que estavam sendo na “recolhidos” na região central de São Paulo por kombis e levados para lugar desconhecido.

Depois de quatro dias, aqueles que não conseguissem um emprego seriam levados para outras igrejas ou para um local conhecido como “Cidade dos Velhinhos”, na região de Itaquera (zona leste de São Paulo), onde receberiam “treinamento” por quatro meses.

Outro objetivo do plano seria “fomentar, através das artes, a confusão entre arte e imoralidade, incentivando nos jovens o maior uso do sexo livre e todo o tipo de coisas que atendem [atentem] aos bons costumes”.

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O relatório confidencial, de dez páginas, foi produzido em outubro de 1980, no governo de João Figueiredo, pelo quartel-general do 4º Comar (Comando Aéreo Regional) da Aeronáutica, em São Paulo, e distribuído para o Exército e o SNI (Serviço Nacional de Informações).

O documento foi liberado à consulta nesta semana à Folha pelo Arquivo Nacional, vinculado ao Ministério da Justiça, em meio a 50 mil documentos sigilosos entregues pela Aeronáutica em 2010 a pedido do Ministério Público Militar.

O trecho que cita o suposto líder do plano foi tarjado, na cópia entregue à Folha, mas é possível concluir, pelo contexto, ser o então cardeal-acerbispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, um opositor do regime, que denunciou torturas e desaparecimento de presos políticos.

“É um delírio maluco, chega a ser ridículo”, disse Antônio Aparecido Pereira, porta-voz da Arquidiocese de São Paulo. “Dom Paulo jamais entrou nessa bobagem de luta armada.”

[b]Fonte: Folha de São Paulo[/b]