O presidente italiano Sandro Pertini (1978-1985), em seu leito de morte em 24 de fevereiro de 1990, pediu para ver o papa João Paulo 2º, que se dirigiu imediatamente ao hospital mas foi impedido de entrar no quarto pela mulher do presidente, Carla Voltolina.

Resignado, o papa ficou rezando do lado de fora, sentado em um cadeira no corredor do hospital.

O episódio ocorreu em fevereiro de 1990, quando o ex-presidente italiano foi internado em estado grave no hospital da Universidade Umberto 1º, de Roma. O relato foi feito por Arturo Mari, fotógrafo do jornal “Osservatore Romano’, que esteve durante 27 anos no séqüito de Karol Wojtyla.

Mari, em uma entrevista à revista semanal italiana “Chi”, que estará nas bancas italianas nesta quarta-feira, antecipou o conteúdo de seu livro “Arrivederci in Paradiso” (“Adeus no Paraíso”).

Na entrevista, Mari diz que as pessoas presentes no hospital foram informadas de que o o presidente repetiu expressamente “chamem o meu amigo” –referindo-se a João Paulo 2º. “No hospital, não entendiam quem era o ‘amigo’ que deveriam chamar, mas finalmente o presidente conseguiu dizer que se tratava do papa”, diz o fotógrafo.

Segundo o fotógrafo, ao ser informado do pedido, João Paulo 2º cancelou imediatamente todas as audiências e se dirigiu ao hospital, onde surgiu um problema inesperado: a mulher de Pertini não quis deixá-lo entrar no quarto. Ela teria sido, inclusive, indelicada. “Nem dirigiu o olhar ao papa”, disse Mari à revista. Voltolina morreu no final de 2005.

Após ser proibido de entrar no quarto, o sumo pontífice não insistiu, mas explicou que fora chamado por seu amigo no leito de morte, segundo Mari. Na seqüência, visto que não tinha nada a fazer, teria pediu à senhora Pertini permissão para conseguir uma cadeira.

“Assim posso estar próximo dele ainda que ficando do lado de fora”, disse o papa. “Faça o que quiser”, respondeu a mulher do presidente, segundo o relato de Mari.

“O papa, então, começou a rezar no corredor diante da porta. Recitou o rosário e parte do breviário. Ao final, João Paulo 2º disse: ‘agora [Pertini] está em paz’. Levantou-se e foi embora”, de acordo com a versão do fotógrafo italiano.

Um dos mais estreitos colaboradores de Sandro Pertini, Antonio Ghireli, declarou à agência de notícias Ansa que não foi testemunha do fato narrado no livro por Giovanni Mari, mas admitiu que não se espantou ao saber que o presidente tenha pedido para ver o papa João Paulo 2º antes de morrer.

“Sou testemunha da primeira vez que Pertini foi convidado a jantar por João Paulo 2º. O presidente não era crente e tinha muitos escrúpulos, mas voltou entusiasmado com a inteligência e a abertura do papa”, declarou Ghirelli.

O papa João Paulo 2º e o ex-presidente italiano, socialista e declaradamente ateu, mantiveram os laços de amizade e admiração mútuas mesmo após o fim do mandato de Pertini.

Fonte: Folha Online