A onda de indignação despertada no mundo muçulmano pelas declarações do papa Bento 16 aumentou neste sábado, com reações que vão desde o xeque da Al Azahr, principal autoridade do islamismo sunita, até malaios e talebans, que exigiram um pedido de desculpas.

Em um comunicado divulgado pela agência egípcia Mena, o líder da Al Azahr, xeque Mohammed Sayyed Tantaui, demonstrou indignação com as palavras do pontífice, que para ele “revelam uma clara ignorância sobre o islã” e atribuem ao islamismo “coisas que não têm nada a ver com esta religião”.

O xeque disse ainda ao jornal oficial “Al Ahram” que convocou uma reunião urgente dos membros do Conselho de Estudos Islâmicos, vinculado à Al Azahr, para a elaboração de um documento refutando o que considera mentiras de Bento 16.

O Parlamento egípcio exigiu um pedido de desculpas pelas “palavras hostis” do chefe da Igreja Católica.

A origem da revolta está no discurso de terça-feira do papa na Alemanha, no qual implicitamente estabeleceu uma relação entre o islã e o jihad [“esforço” que o muçulmano deve desempenhar para difundir e proteger o islamismo; ficou caracterizado como “guerra santa” na imprensa] .

Na Malásia, país de maioria muçulmana, o primeiro-ministro Abdullah Ahmad Badawi fez um alerta. “O papa não deve minimizar o escândalo que provocou.”

O chefe de governo e presidente da Organização da Conferência Islâmica, maior entidade de países muçulmanos, afirmou que o Vaticano deve assumir a completa responsabilidade da questão e adotar as medidas necessárias para corrigir o erro.

No Afeganistão, os talebans exigiram que Bento 16 se desculpe, pois consideram que as palavras do pontífice fazem parte de uma lógica de “cruzada do Ocidente” contra a religião muçulmana.

Vários coquetéis molotov foram lançados neste sábado contra duas igrejas de Nablus, no norte da Cisjordânia, sem provocar vítimas ou grandes danos, informaram fontes dos serviços de segurança palestinos.

O Irã pediu a Bento 16 uma correção do polêmico discurso, considerado um grande erro pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mohammad Ali Hosseini.

Autoridades islâmicas da Indonésia, maior país muçulmano do mundo, se uniram às condenações, mas optaram por um tom mais moderado.

“Independente das circunstâncias, o papa não deveria ter falado o que falou”, declarou Ahmad Syafii Maarif, um dos diretores da Muhammadiyah, segunda maior organização islâmica indonésia.

“Devemos manter a cabeça fria e estudar com atenção o que disse e o contexto em que o disse”, acrescentou.

“É inapropriado que uma declaração desta venha do papa”, afirmou Maruf Amin, que preside o Conselho de Ulemás, maior autoridade do país, que segundo a imprensa pretende enviar uma carta de protesto ao Vaticano.

Nesta sexta-feira, a Associação de Ulemás Muçulmanos da Argélia manifestou indignação com o discurso papal, “que dava a entender a existência de uma relação entre o islã, a violência e a ausência de vias para a razão”.

As monarquias do Conselho de Cooperação do Golfo também exigiram um pedido de desculpas.

Em uma tentativa de frear a chuva de críticas, o ministro das Relações Exteriores da Santa Sé, monsenhor Dominique Mamberti, afirmou nesta sexta-feira que o diálogo entre as religiões é uma questão crucial.

A chanceler alemã, Angela Merkel, saiu em defesa do compatriota. “Quem critica o papa desconhece a intenção de seu discurso, que era a de convidar para o diálogo entre religiões”.

O jornal americano “New York Times” considerou os comentários de Bento 16 “trágicos e perigosos”.

Desculpas

O papa Bento 16 está “extremamente aflito” que os muçulmanos tenham se sentido ofendido por algumas de suas palavras em um recente discurso na Alemanha, informou o Vaticano neste sábado.

O novo secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone, disse que a posição do papa sobre o islã está evidentemente de acordo com a doutrina do Vaticano, que defende que a Igreja Católica “tem apreço pelos muçulmanos, que adoram o Deus único”.

“O Santo Padre lamenta profundamente que algumas passagens de seu discurso tenham parecido ofensivos para a sensibilidade dos muçulmanos e tenham sido interpretadas de uma maneira que não corresponde de modo algum com suas intenções”, afirmou Bertone em sua primeira declaração oficial desde que foi nomeado, nesta sexta-feira.

“A opinião do papa em favor do diálogo inter-religioso e intercultural é absolutamente inequívoca”, acrescentou.

Leia trechos do discurso do papa que causaram polêmica

Comentários do papa Bento 16, durante viagem à Alemanha, provocaram indignação no mundo islâmico, que exige um pedido de desculpas do pontífice por “insultar” os muçulmanos.

Leia abaixo algumas das declarações feitas pelo papa durante discurso na Universidade de Regensburg. O título da palestra de Bento 16 é “Fé, Razão e a Universidade: Memórias e Reflexões”.

Sobre universidade

“É uma experiência emocionante para mim voltar novamente à universidade e poder novamente dar uma palestra nesta tribuna.

A universidade (de Bonn, onde o papa lecionou a partir de 1959) também tinha muito orgulho das suas duas faculdades de teologia. Este profundo senso de coerência dentro do universo da razão não foi abalado, mesmo quando foi dito que um colega nosso afirmara que havia algo de estranho sobre nossa universidade –que tinha duas faculdades voltadas para algo que não existe: Deus.

Até mesmo sob a face de um ceticismo tão radical, ainda assim é necessário e razoável levantar a questão de Deus através do uso da razão, e fazer isso no contexto da tradição cristã da fé: isso, dentro da universidade como um todo, foi aceito sem questionamentos.”

Sobre guerra santa

“Eu fui lembrado de tudo isso recentemente quando li (…) parte de um diálogo que aconteceu –talvez em 1391 nos quartéis de inverno perto de Ancara– pelo erudito imperador bizantino Manuel 2º Paleologus e um persa educado nos assuntos do cristianismo e do islã, e as verdades de ambos.

Na sétima conversa (…) o imperador toca no assunto da guerra santa. Sem entrar em detalhes, como a diferença entre aqueles que leram o “Livro” e os “infiéis”, ele se dirigiu ao seu interlocutor com uma rispidez surpreendente na questão central sobre a relação entre religião e violência em geral, dizendo: “Mostre-me o que Maomé trouxe que era novo, e lá você encontrará apenas coisas más e desumanas, como o seu comando de espalhar pela espada a fé que ele pregava”.

O imperador, depois de se expressar tão fortemente, continuou explicando em detalhe os motivos pelos quais espalhar a fé através da violência são desarrazoados. Violência é incompatível com a natureza de Deus e com a natureza da alma. “Deus”, ele disse, “não fica contente com sangue –e não agir razoavelmente é contrário à natureza de Deus. A fé nasce da alma, e não do corpo. Qualquer um que leve alguma pessoa à fé precisa da habilidade de falar bem e de raciocinar apropriadamente, sem violência ou ameaças.”

Sobre religião e razão

“A declaração decisiva neste argumento contra à conversão violenta é isso: não agir de acordo com a razão é contra a natureza de Deus. O editor Theodore Khoury observa: para o imperador, enquanto um bizantino moldado pela filosofia grega, esta declaração é auto-evidente. Mas para o ensinamento muçulmano, Deus é absolutamente transcendente. A sua vontade não está presa a nenhuma das nossas categorias, mesmo àquela da racionalidade.

Neste momento, até onde diz respeito à compreensão de Deus e portanto à prática concreta da religião, nós estamos diante de um dilema inevitável. A convicção de que agir desarrazoadamente contradiz a natureza de Deus é meramente uma idéia grega, ou isso é sempre e intrinsecamente verdade?”

Sobre teologia e ciência

“A teologia liberal dos séculos 19 e 20 anunciou um segundo estágio no processo de ‘deshelenização’, com Adolf von Harnack como seu grande representante.

Se disse que Jesus colocou um fim à adoração em troca de uma moralidade. No fim, ele foi apresentado como pai da mensagem moral humanitária. Fundamentalmente, a meta de Harnack era trazer o cristianismo novamente em harmonia com a razão moderna.

(Mas)… qualquer tentativa de manter a premissa da teologia de ser científica acabaria por reduzir o Cristianismo a um mero fragmento do que era (…) Isso é um estado perigoso para a humanidade, como nós podemos observar nas patologias perturbadoras da religião e razão que sempre eclodem quando a razão é reduzida a isso. (…) Religião ou ética não mais se ocupam disso.”

Conclusão

“A intenção aqui não é de ser reducionista ou negativamente crítico, mas de aumentar nosso conceito de razão e suas aplicações. Só assim nós nos tornamos capazes daquele diálogo genuíno entre culturas e religiões que é tão urgentemente necessário hoje.

No mundo ocidental é amplamente aceito que apenas a razão positivista e as formas de filosofia baseadas nela são universalmente válidas. Mesmo assim, as culturas religiosas profundas encaram isso como essa exclusão do divino da universalidade da razão como um ataque às suas convicções mais profundas. A razão que é surda ao divino e que relega a religião ao patamar das subculturas é incapaz de ingressar no diálogo das culturas.”

Fonte: Folha Online