Islamofobia do Ocidente gera declarações ofensivas como as do Papa, diz a ex-freira Karen Armstrong (foto), uma das pesquisadoras de história das religiões mais respeitadas no mundo. Segundo ela, é completamente equivocado ligar os muçulmanos à violência pela religião, como fez o Papa Bento XVI.

“Não haverá paz entre as religiões até que haja paz entre as nações.” Na avaliação da professora Karen Armstrong, ex-freira e uma das pesquisadoras de história das religiões mais respeitadas no mundo, um “nacionalismo religioso” toma conta atualmente dos pólos opostos: no Oriente, os países islâmicos capitaneados atualmente pelo Irã, e no Ocidente, representado pelo cristianismo reacionário dos Estados Unidos. O resultado são conflitos violentos motivados por questões políticas, mas com feições de choque religioso.

Segundo ela, é completamente equivocado ligar os muçulmanos à violência pela religião, como fez o Papa Bento XVI. “O Islã não se estabeleceu através da violência. A idéia de que o Islã é uma ‘religião da espada’ foi uma invenção dos cristãos ocidentais durante a época das Cruzadas (episódio violento iniciado pela Igreja Católica)”, explicou.

Entrevistada com exclusividade pelo G1 a respeito dos conflitos motivados pelas declarações em que o Papa Bento XVI ligava o Islã à violência, a professora do Leo Baeck College de Estudos do Judaísmo e Treinamento de Rabinos e Professores, membro honorário da Associação Muçulmana de Ciências Sociais e autora de mais de uma dezena de livros sobre islamismo, judaísmo, cristianismo e budismo, como “Islã” (Objetiva), “Através do Portão Estreito”, “Guerra Santa” e “Maomé” (lançados no Brasil pela Companhia das Letras), entre outros, ofereceu uma análise mais ampla de toda a relação entre Ocidente e Oriente.

Segundo ela, os países do oeste são incuravelmente islamofóbicos. “Hoje em dia os muçulmanos de todo o mundo se sentem atacados. Muitos acreditam que o Ocidente começou uma nova Cruzada contra o Islã”, disse. Por outro lado, motivados politicamente (“a hedionda violência que estamos vendo emanar do mundo muçulmano não é o resultado da religião do Islã, mas sim motivada pela política”), os muçulmanos agem de forma violenta, alimentando o preconceito ocidental.

Leia abaixo, os principais trechos da entrevista que ela concedeu, por e-mail:

G1: O Papa estava errado em suas críticas?

Sim, o papa errou ao citar as críticas feitas pelo imperador bizantino Manuel II, do século 14, que diziam que a religião do Islã era “má”, “desumana” e que se estabeleceu através da espada. Foi provocativo ele ter feito esta citação, sem nenhuma ressalva ou moderação, no dia 12 de setembro.

O Islã não se estabeleceu através da violência. O Alcorão firme e enfaticamente proíbe todo tipo de coerção em assuntos religiosos e, durante o primeiro século depois da morte do profeta Maomé, os califas muçulmanos desencorajavam ativamente os não-árabes que queriam se converter ao Islã. O Alcorão ensina que judeus e cristãos receberam revelações perfeitamente válidas para seus povos e que o Islã era uma fé para os árabes, os filhos de Ismael, enquanto o judaísmo era uma religião para os filhos de Isaac e Jacó e o cristianismo para os seguidores do profeta Jesus.

O Alcorão ensina que todas as religiões corretamente guiadas, que ensinam justiça e compaixão, vêm de Deus e que Deus enviou seus mensageiros a todos os povos na face da Terra.

Por que, então, a afirmação de Bento XVI e a ligação corrente entre o Islã e a violência?

A idéia de que o Islã é uma “religião da espada” foi uma invenção dos cristãos ocidentais durante a época das Cruzadas, quando estes lutavam guerras brutais e sem motivos contra o Islã no Oriente Médio. Eles projetaram sobre suas vítimas uma preocupação inconsciente a respeito de seu próprio comportamento. Até o século 20, o Islã mostrou muito mais tolerância e paz do que, por exemplo, o catolicismo. A ligação que se faz entre a idéia da religião islâmica e a violência é fruto da islamofobia ocidental.

O Ocidente é de fato islamofóbico?

O Ocidente tem sido islamofóbico durante todo o último milênio. A fobia ao Islã começou na época das Cruzadas. Ela se desenvolveu simultânea e paralelamente ao anti-semitismo ocidental. Está profundamente enraizada e vem à tona nos momentos mais inapropriados. Mas as pessoas também estão começando a perceber que não podemos sustentar este preconceito medieval, porque ele é contrário aos nossos melhores interesses e alimenta os movimentos extremistas.

E por que o mundo islâmico reagiu de forma tão violenta às declarações do Papa?

A Igreja Católica não está em posição de se queixar da violenta jihad no mundo muçulmano, uma vez que a própria igreja foi culpada pelas Cruzadas, inquisições e perseguições, e que, sob o comando de Pio XII, não condenou o Holocausto nazista.

Hoje em dia os muçulmanos de todo o mundo se sentem atacados. Eles vêem diariamente casas de palestinos sendo colocadas abaixo; vêem fotos do abuso dos EUA aos direitos humanos em Abu Grahib e na Baía de Guantánamo; vêem a guerra civil tomando conta do Iraque, depois da desastrosa guerra instigada pela Inglaterra e pelos Estados Unidos. Eles acabaram de testemunhar a destruição do Líbano e a morte de mais de mil civis libaneses, enquanto a comunidade internacional nada fez. Muitos acreditam que o Ocidente começou uma nova Cruzada contra o Islã e que as críticas infelizes do Papa reforçam a convicção de que o Ocidente é incuravelmente “islamofóbico”, além de inspiraram mais jovens frustrados e desesperados a abraçarem o extremismo.

Alguns dos analistas dizem que os eventos violentos hoje no mundo islâmico podem provar que o papa está certo. O que a sra. acha disso?

A hedionda violência que estamos vendo emanar do mundo muçulmano não é o resultado da religião do Islã, mas sim motivada pela política.

Os principais problemas no Oriente Médio são o petróleo, a questão palestina, os regimes autoritários (freqüentemente sustentados pelo Ocidente) e a ocupação das terras muçulmanas. Estes problemas seculares não foram corrigidos e agora se agravaram. Porque cada vez mais pessoas no mundo muçulmano perdem a fé e a esperança no processo político comum, elas estão recorrendo a uma nova forma de nacionalismo que se expressa em termos religiosos. Existe um “nacionalismo religioso” parecido na direita cristã nos EUA e em Israel.

Então o que acontece tem apenas causas políticas que usam a religião como desculpa?

A colocação não está correta. As pessoas não usam a religião “como desculpa”. O secularismo desapontou muitas pessoas tanto no mundo muçulmano quanto no Ocidente. O nacionalismo era uma idéia européia do século 19, e não era uma boa idéia: levou a duas grandes guerras. No mundo islâmico, o nacionalismo secular era estranho à tradição e foi experimentado como um modelo estrangeiro importado, sem raízes profundas entre a população.

A democracia parece uma piada ruim em muitos países islâmicos onde o Ocidente tem apoiado ditadores como o xá do Irã e Saddam Hussein. Houve então um retorno generalizado à religião tanto nos Estados Unidos quanto no Oriente Médio desde o fim dos anos 60, e o “nacionalismo religioso” que eu mencionei acima é parte desse processo. No Oriente Médio, as pessoas querem voltar a suas raízes, antes da invasão colonial do Ocidente, e de forma alguma todas os novos movimentos religiosos que se desenvolveram lá – ou nos Estados Unidos e em Israel – são violentos e extremistas.

Como podemos pensar em uma trégua de longo termo entre as diferentes religiões no mundo?

A religião não é a causa das guerras entre religiões; a tensão religiosa é gerada por problemas políticos seculares. Não haverá paz entre as religiões até que haja paz entre as nações.

Fonte: G1.com.br