Segundo afirmam os pesquisadores, existem contradições entre a versão dos evangelhos de Mateus e a de Lucas para a infância de Jesus. Afirmam que as duas histórias do nascimento de Jesus no Novo Testamento são narrativas altamente simbólicas.

Confira a matéria abaixo do site G1:

O nascimento de Jesus, como o de quase qualquer outra grande figura da Antigüidade, é cercado por uma densa névoa de mistério. Sem registros realmente contemporâneos dos primeiros anos da vida de Cristo, os historiadores têm poucas certezas, mas algumas coisas parecem razoavelmente prováveis: Jesus, na verdade, veio ao mundo “antes de Cristo”, a julgar pela cronologia de sua vida, e com maior probabilidade em Nazaré, na Galiléia, e não em Belém, como dizem os Evangelhos de Mateus e de Lucas.

O raciocínio por trás dessas afirmações aparentemente bombásticas é simples. O que acontece é que as duas histórias do nascimento de Jesus no Novo Testamento são narrativas altamente simbólicas, que incorporam as visões de dois escritores diferentes sobre o papel de Cristo como Salvador e Filho de Deus. O consenso entre os pesquisadores é que elas foram escritas por volta nas décadas de 80 ou 90 do século I, dispondo de poucas informações diretas sobre os primeiros anos de Jesus.

“As narrativas da infância de Jesus representam o último estrato da tradição dos Evangelhos, mais recente, portanto, que qualquer outro material sobre ele. Essa tendência continua nos evangelhos apócrifos de infância [que ficaram de fora do Novo Testamento”, explica Paulo Augusto Nogueira, da Universidade Metodista de São Paulo. Segundo o pesquisador, o centro dessas narrativas é mostrar Jesus aos leitores como o Messias desde o nascimento.

Visões divergentes

O que o leitor casual da Bíblia normalmente não percebe, contudo, é que há diferenças importantes entre a história contada pelo Evangelho de Mateus e a que aparece nos primeiros capítulos do Evangelho de Lucas. “Existem atritos, para não dizer contradições, entre a versão de Mateus e a de Lucas para a infância de Jesus”, escreve o padre e historiador americano John P. Meier em sua monumental obra “Um judeu marginal” (em vários volumes, ainda não concluída), que versa sobre o Jesus histórico.

“É bem verdade que alguns desses atritos poderiam ser harmonizados com um pouco de habilidade. Em Mateus, apenas José recebe do anjo o anúncio da concepção virginal de Jesus; em Lucas, é Maria que ouve a revelação. No fundo, nenhum dos relatos contradiz o outro. Mais difíceis de harmonizar são os relatos divergentes das viagens de José e Maria que são a base das histórias”, avalia Meier.

O historiador britânico de origem húngara Geza Vermes, professor emérito da Universidade de Oxford, explica que, enquanto Mateus parece retratar Maria e José morando originalmente em Belém e só se mudando para Nazaré após o nascimento de Jesus, Lucas mostra o casal morando durante quase toda a gestação na Gailéia. Segundo o relato lucano, seria apenas por causa de um recenseamento ordenado pelos romanos (recenseamento que ordenava o registro de todas as pessoas em sua cidade ancestral) que a Sagrada Família teria ido para Belém, local de origem de Davi, antepassado de José.

Importância teológica

“Para Mateus, e a mesma observação se aplica a Lucas, a localização geográfica é de crucial importância, porque tem um grande significado teológico. Mateus tem pleno conhecimento de uma tradição judaica segundo a qual o Messias virá de Belém”, escreve Vermes em seu livro “Natividade”, uma análise dos dados históricos sobre o nascimento de Jesus. A tradição está registrada no livro do profeta Miquéias, do Antigo Testamento, e é citada com ligeiras modificações por Mateus.

Segundo John P. Meier, o fato de dois evangelistas diferentes contarem histórias divergentes sobre Belém mostra que provavelmente já existia uma tradição cristã anterior a eles a respeito da cidade. O problema é que os dois esquemas soam historicamente forçados.

Para Mateus, José e sua família se mudam para Nazaré (depois de uma passagem pelo Egito) para fugir de Arquelau, filho do rei Herodes, o Grande, que teria tentado matar o Jesus menino. Mas a Galiléia era governada por Herodes Antipas, também filho do rei assassino, o que não garantiria a segurança do bebê. Já o recenseamento citado por Lucas seria inédito em toda a história do Império Romano: normalmente só os chefes de família eram recenseados (Maria, grávida, não precisaria fazer a viagem), e nunca precisavam voltar para a terra de seus ancestrais distantes para isso (afinal, Davi viveu cerca de 1.000 anos antes de José).

“Embora Belém não possa ser absolutamente excluída, continua altamente questionável. De um modo geral, um Jesus de Nazaré, o Jesus da tradição principal do Evangelho, deve ser preferido ao Jesus de Belém dos Evangelhos da Infância”, argumenta Vermes.

Erro de datação?

Outro problema significativo envolve a própria data do nascimento de Jesus. É que Herodes, o Grande, morreu no que seria o nosso ano 4 a.C. A maioria dos estudiosos concorda que Cristo nasceu quando o poderoso e cruel rei judeu ainda estava vivo, ou seja, um pouco antes de 4. a.C. Mas Lucas também diz o recenseamento se deu “quando Quirino era governador da Síria”.

Mas Quirino só parece ter assumido o cargo depois da morte de Herodes. E o único censo decretado por ele data do ano 6 d.C. — segundo todas as cronologias possíveis, depois que Jesus nasceu. Vermes argumenta que, durante a vida de Herodes, Quirino não teria poderes para decretar um censo na Judéia e na Galiléia, pois essas regiões eram um reino vassalo dos romanos, e nesse tipo de domínio Roma não cobrava impostos diretamente (motivo usual dos censos). Para os estudiosos, trata-se um novo indício de que os evangelistas não eram historiadores no sentido moderno, mas estavam interessados em demonstrar a importância espiritual da vida de Jesus.

Fonte: G1