Os anglicanos enfrentam uma nova crise depois que seus seguidores nos Estados Unidos escolheram como líder, na segunda-feira, uma liberal que disse não ver pecado na homossexualidade e que os homossexuais foram criados por Deus.

Um bispo inglês afirmou que o anglicanismo corre o risco de se dividir “em duas religiões”, depois da eleição de Khaterine Jefferts Schori para liderar os 2,3 milhões de fiéis da Igreja Episcopal dos EUA.

As diferenças entre conservadores e liberais entre os 77 milhões de anglicanos do mundo já era explícita desde a sagração de um bispo assumidamente homossexual nos EUA, Gene Robinson, e da celebração de casamentos gays no Canadá, há três anos.

“Será uma grande aventura”, prometeu Schori após ser eleita, no fim de semana. Muitos duvidam.

“Ter uma mulher como primado é uma complicação excitante”, disse Paul Handley, editor do Church Times.

“O problema são suas opiniões. Ela é muito permissiva quanto a igrejas locais darem bênçãos a casais do mesmo sexo e apoiou a sagração de Robinson”, disse ele à Reuters.

Mas Handley acha prematuro falar em cisma, apesar de os anglicanos da África serem veementemente contra a homossexualidade.

“A genialidade do anglicanismo é conseguir lidar com enormes variações de doutrina e prática. Falar de cisma é exagerado”, afirmou.

Já o bispo de Rochester, da Igreja da Inglaterra (o nome do anglicanismo no país), Michael Nazir-Ali, disse que as divisões já são profundas demais para comportar algum acomodamento.

“Ninguém quer um racha, mas se você acha que há virtualmente duas religiões na mesma Igreja, algo tem de ceder em algum momento”, afirmou ele ao Daily Telegraph.

Rowan Williams, arcebispo de Canterbury e como tal líder mundial dos anglicanos, disse que Schori está adotando “uma posição profundamente exigente em um momento crítico”.

“Continuamos rezando pela convenção geral da Igreja Episcopal, enquanto ela enfrenta uma série de escolhas excepcionalmente difíceis”, disse Williams em nota na segunda-feira, após conversar por telefone com Schori.

Em entrevista à CNN, a nova líder episcopal disse não ver a homossexualidade como pecado. “Acredito que Deus nos criou com diferentes dons”, disse ela.

“Algumas pessoas vêm a este mundo com afetos dirigidos a outras pessoas do mesmo gênero, e alguns vêm a este mundo com os afetos dirigidos a pessoas de outro gênero.”

Segundo ela, a existência de um “teto de vidro” que impede a ascensão de mulheres no clero e a ordenação de homossexuais é um dos temas mais perturbadores para a Igreja Anglicana.

Canadá, EUA e Nova Zelândia já têm bispas anglicanas.

O arcebispo Williams obteve em fevereiro apoio para a sagração de bispas na Igreja da Inglaterra, mas ainda há obstáculos teológicos e jurídicos para isso.

Os tradicionalistas argumentam que os apóstolos de Jesus eram homens e que não há na Bíblia o precedente de mulheres como bispos.

O reverendo David Anderson, presidente do Conselho Anglicano Americano, grupo conservador que se opôs à indicação de Schori, disse que a eleição dela torna um cisma mais provável.

“Esperamos que a Igreja Episcopal continue sua aceleração para o espaço exterior”, disse ele nos EUA. “O tecido da comunhão está sendo rasgado em seu nível mais profundo. Isso vai simplesmente se acelerar e continuar a rasgar.”

Arcebispo vê dificuldades em eleições da Igreja episcopal

A nomeação da primeira mulher líder da Igreja episcopal americana, braço da Igreja anglicana, mostra que a instituição enfrenta “eleições excepcionalmente difíceis”, de acordo com declarações proferidas nesta segunda-feira pelo Arcebispo de Canterbury, líder espiritual dos anglicanos (foto ao lado).

Em nota, o arcebispo Rowan Williams declarou ter cumprimentado Jefferts Schori, bispa da diocese episcopal de Nevada (oeste), que no domingo foi eleita chefe e primaz da Igreja episcopal dos Estados Unidos, com 2,3 milhões de membros, durante a convenção geral do movimento em Columbus, Ohio (norte).

A Igreja episcopal americana é o primeiro braço da Igreja anglicana no mundo a eleger uma mulher como líder, após ter gerado polêmica ao nomear um bispo declaradamente homossexual. Apesar dos “bons presságios”, o arcebispo de Canterbury advertiu a recém-eleita primaz para a difícil tarefa que enfrenta após o cisma gerado pela ordenação do bispo homossexual, em 2003.

“Sua eleição terá, sem dúvida, um impacto na vida colegiada dos Primados Anglicanos e também porá sobre a mesa alguns assuntos recorrentes em vários de nossos diálogos ecumênicos”, disse Williams. “Continuaremos rezando pela Convenção Geral da Igreja Episcopal, quando esta enfrenta uma série de eleições excepcionalmente difíceis”, acrescentou.

Jefferts Schori, de 52 anos, é doutora em Oceanografia e trabalhou no serviço de pesca da Marinha americana. Segundo sua biografia, é casada com um professor de Topologia e tem uma filha na Força Aérea dos EUA. A escolha de Jefferts Schori, que fala espanhol fluentemente e pertence à ala mais liberal da Igreja episcopal americana, representa uma vitória para as mulheres bispos. A maioria das seções da Igreja anglicana no mundo até agora se negou a apontar bispos que não fossem homens.

Em 2003, a Igreja episcopal americana aprovou a eleição do primeiro bispo abertamente homossexual, Gene Robinson, na diocese de New Hampshire (leste), uma decisão que Jefferts Schori apoiou. No início de maio, a instituição esteve à beira de um racha ao eleger um heterossexual entre três candidatos declaradamente homossexuais para dirigir a diocese da Califórnia (oeste).

Conservadores X Progressistas

Os setores mais progressistas da Igreja consideram que a ordenação de mulheres e a abertura a homossexuais permitirão a revitalização da fé. Já os grupos mais conservadores ameaçam um racha caso os anglicanos mantenham esse caminho.

Iker, uma das vozes mais conservadoras dos anglicanos americanos, advertiu que a eleição de Schori como líder dos bispos americanos por 95 votos 93 contra 93 – designação que ainda terá de ser confirmado pelos delegados da convenção que está sendo realizada em Columbus (Ohio) – é “um elemento a mais de divisão”.

O órgão diretor da Igreja Anglicana – a Câmara de Bispos – teme que a diocese da Pensilvânia, a quinta maior dos Estados Unidos, com 60 mil membros e contrária à ordenação de mulheres e homossexuais, possa deixar a Igreja.

Iker insinuou que a autoridade de Schori pode não ser reconhecida pela maioria dos outros 37 primados da fé anglicana espalhados pelo mundo.

“Quando se transformar na primeira mulher primaz da Comunhão Anglicana, terá de ver como será considerada pelos outros 37 primados que, em sua vasta maioria, vêm de províncias onde as mulheres não podem ser escolhidas como bispos”, afirmou.

Iker se referia ao fato de apenas outras duas províncias anglicanas – Canadá e Nova Zelândia – contarem com mulheres episcopisas. Os Estados Unidos são os primeiros a eleger uma mulher como primaz

Fonte: Reuters, Terra e Estadão