Em apenas duas semanas de exibição, a novela Páginas da Vida produziu algumas das cenas mais impactantes da TV nos últimos tempos. Pesquisas patrocinadas pela ONG Midiativa, voltada às relações entre as crianças e a TV, mostraram que os pais gostariam que a TV os ajudasse a transmitir valores para os filhos.

Ao final do capítulo de sábado 15, foi ao ar o depoimento real de uma dona-de-casa de 68 anos, moradora do subúrbio carioca de Madureira, que descreveu seu primeiro orgasmo num linguajar espantoso. Ela disse que alcançou o prazer pela primeira vez aos 45 anos, numa noite embalada pela música O Côncavo e o Convexo, de Roberto Carlos.

O autor Manoel Carlos conta que aprovou o depoimento em meio a dezenas de outros, um mês antes da estréia do novo folhetim da Rede Globo, e só percebeu seu potencial de estrago ao revê-lo no ar, naquele sábado. “Quando vi, pensei: estou perdido”, diz o noveleiro, que se apressou em pedir desculpas publicamente. De fato, uma imensa parcela dos espectadores ficou chocada, e choveram reclamações na central de atendimento da Globo. A principal preocupação das pessoas era o fato de as crianças terem sido expostas a um tema espinhoso – e com tal mau gosto.

Diferentemente da TV paga, voltada para nichos de audiência, os canais abertos tendem a atingir a família toda. A maioria dos que se indignaram mencionou o constrangimento por estar na sala ao lado dos filhos ou de idosos quando a cena foi exibida. “Agora vamos precisar de bola de cristal para saber se o que passa na TV é adequado ou não para a família?”, criticou uma psicóloga e mãe. Para agravar a indignação, alguns dias antes o folhetim já havia atingido alta temperatura com um strip-tease da personagem de Ana Paula Arosio, que exibiu o corpo nu de frente e de costas.

Trinta anos atrás, a veiculação de cenas como as de Páginas da Vida poderia despertar reações moralistas. Seria vista como um atentado aos bons costumes. Hoje, a discussão é diferente. A questão-chave passou a ser a preocupação com a família, sobretudo as crianças. Psicólogos e educadores são quase unânimes em alertar para o fato de que a exposição dos jovens a temas como o sexo, a violência e as drogas deve ser acompanhada pelos pais e requer cuidados especiais dependendo da faixa etária. “Ao ser submetida repetidamente a certo tipo de imagem, a criança pode saltar etapas importantes de sua formação, desenvolvendo uma sexualidade prematura, por exemplo”, diz a psicóloga Magdalena Ramos, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Ao contrário do que se poderia supor, na faixa das 21 às 22 horas, quando Páginas da Vida vai ao ar, há mais crianças diante da TV do que em qualquer outro horário. No dia do depoimento escandaloso, o público infantil, pré-adolescente e adolescente representava 18% da audiência na Grande São Paulo, ou seja, cerca de 1,3 milhão de espectadores somente nessa região. As emissoras estão cientes desses dados de audiência. Elas devem, sim, assumir responsabilidade por aquilo que transmitem – ainda que o papel primário de educar os filhos caiba aos pais.

Pesquisas patrocinadas pela ONG Midiativa, voltada às relações entre as crianças e a TV, mostraram que os pais gostariam que a TV os ajudasse a transmitir valores para os filhos. Em muitos casos, eles já a vêem como uma aliada. Ao abordarem temas como o preconceito, por exemplo, as novelas desempenham há tempos um papel que é considerado relevante. “A TV dá a deixa para os pais discutirem com os filhos assuntos que são complicados”, diz Ana Helena Meirelles Reis, coordenadora das pesquisas, que ouviram quase 700 pais, crianças e adolescentes no Rio e em São Paulo.

Na própria Páginas da Vida existem exemplos positivos. “Há cenas que eu até gostaria que minha filha assistisse. Por exemplo, o núcleo que anunciaram que falará da exclusão por causa de problemas mentais. Coisas desse tipo me ajudam a incutir valores positivos nela”, diz a auxiliar administrativa gaúcha Luciane da Rocha Silva, mãe de uma garota de 9 anos. Os mesmos levantamentos, no entanto, mostraram que os pais têm dificuldade em lidar com as saias-justas criadas pela TV. “Uma coisa é colocar no ar um tema difícil de forma didática, capaz de gerar uma discussão saudável. Outra é abordá-lo de maneira grotesca”, afirma Ana Helena.

Uma das ferramentas que permitem aos pais prever o conteúdo dos programas exibidos pela televisão é a classificação indicativa por faixa etária e horário. Esse processo está passando por grande reforma no país. O Departamento de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação do Ministério da Justiça acaba de lançar um manual com novas diretrizes para que se cumpra essa tarefa. Ele deve ser regulamentado até o fim do ano. A classificação indicativa é vista com reservas na medida em que é associada à velha e autoritária censura do regime militar. Mas ela é uma forma em princípio civilizada de lidar com o assunto e é adotada na maioria dos países democráticos.

Nos Estados Unidos, o controle se dá por meio da auto-regulamentação do setor e segue um código rígido, baseado naquele que vigora no país também para o cinema. Se qualquer deslize passa por esse filtro das próprias emissoras, entra em cena uma comissão reguladora vinculada ao Congresso americano. Conteúdos obscenos, violência e uso de drogas são punidos com multas pesadas. Quando a cantora Janet Jackson deixou um de seus seios saltar para fora do vestido em pleno horário nobre, na transmissão da final do campeonato de futebol americano de 2004, a rede CBS teve de se desculpar às pressas. Como a comissão de vigilância endureceu seu controle a partir disso, as emissoras passaram a transmitir eventos ao vivo com segundos de atraso, para evitar qualquer deslize. Mesmo em países europeus como a Inglaterra, onde a programação de TV é bastante liberal, há horários protegidos para as crianças.

No Brasil, o departamento de classificação não tem o poder de impor regras às emissoras. Suas decisões sobre quais programas se adéquam a determinada faixa etária e de horário são apenas indicativas. Se a determinação é descumprida, no entanto, as redes entram na mira do Ministério Público, o que pode levar a punições. As multas a que estão sujeitas são leves para empresas desse porte, mas as emissoras correm também o risco de ser tiradas do ar.

Foi o que ocorreu no ano passado com a RedeTV!, que chegou a ficar um dia sem transmissões por descumprir uma decisão que a obrigava a se retratar em razão de um programa ofensivo aos gays. Em abril passado, a emissora se antecipou a uma nova punição ao passar o humorístico Pânico na TV das 18 para a faixa das 20 horas de domingo, acatando a reclassificação do departamento, que entendeu que o programa, até então considerado “livre”, tinha conteúdo erotizado inadequado para menores de 12 anos. O mesmo problema – o excesso de situações de sexo – colocou a novela das 7 da Globo, Cobras & Lagartos, na mira. Depois de ser notificada a esse respeito, no fim de abril, a cúpula da emissora recentemente determinou que o diretor Wolf Maya maneirasse nas tomadas.

O novo manual de classificação de programas foi elaborado, em tese, para restringir o arbítrio dos avaliadores do Ministério da Justiça. Ele propõe critérios objetivos para mensurar o nível de erotismo ou violência, entre outros fatores, de uma certa atração. Se um crime numa novela é precedido de tortura da vítima ou envolve uma criança, por exemplo, a obra poderá ter sua classificação aumentada. Se, pelo contrário, é seguido da condenação explícita da violência, a classificação pode ser reduzida. Ao explicitar essas regras, o manual procura tornar o julgamento dos programas menos subjetivo.

As emissoras criticam o excesso de detalhes a que desce o documento, pois temem que ele se torne uma camisa-de-força. Em seu primeiro teste, contudo, as novas diretrizes produziram um resultado bastante liberal: o ministério liberou o beijo entre dois jovens gays no programa Beija-Sapo, que a MTV pretende exibir em breve, para o horário das 19 horas. Embora a temática homossexual desperte rejeição em boa parte do público, entendeu-se que um beijo entre pessoas do mesmo sexo merece a mesma classificação “livre” que um entre um homem e uma mulher.
Depois da polêmica em torno de Páginas da Vida, a Globo anuncia que no segundo semestre lançará uma campanha de esclarecimento para os pais selecionarem o que os filhos vêem na TV. “Nossa liberdade criativa tem limites claros: não ferir a privacidade do espectador nem os valores da sociedade”, diz Octávio Florisbal, diretor-geral da rede. Apesar disso, a Globo não tem se revelado imune aos deslizes. No passado, exibiu baixarias como o famigerado “sushi erótico”, no programa Domingão do Faustão, para ficar num exemplo. O depoimento sobre orgasmo levou a um enquadramento imediato da novela das 8 nos filtros internos da emissora. Desde que o escândalo eclodiu, os testemunhos com personagens reais só vão ao ar depois de passar pelo crivo de Mário Lúcio Vaz, responsável pelo controle de qualidade e um dos principais nomes da cúpula da Globo. “Os artistas que criam as novelas são sempre mais liberais que a média da sociedade. Para manter nossa capacidade de inovar, é salutar estar sempre um passo à frente. Mas não um quilômetro”, diz Florisbal.

Fonte: Revista Veja – Edição 1966 de 26 de julho de 2006

Nota da redação: Alguns trechos desta matéria, que está na revista Veja desta semana, foram cortados, como, por exemplo, o depoimento da dona-de-casa de 68 anos, considerado chulo para ser publicado num site evangélico. Nosso objetivo ao colocar esta matéria é alertar aos pais, principalmente evangélicos, para o que os seus filhos estão assistindo.