Uma das marcações do arcebispo Murilo Sebastião será em cima de Dilma, que deve governar “em benefício de todos”.

A partir do final de março, o arcebispo de Florianópolis, dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, 67, comandará a Arquidiocese de Salvador –a mais antiga do Brasil, com 459 anos e cerca de 175 padres e 106 paróquias, segundo o Vaticano.

Prestes a ganhar o título de primaz (dado ao arcebispo da instituição pioneira), diz esperar que a presidente Dilma Rousseff “faça aquilo que prometeu no discurso de posse: que seja a presidente de todos os brasileiros”.

Nomeado nesta quarta-feira (12) pelo papa Bento 16, ele substituirá dom Geraldo Majella Agnelo, 77 –que renunciou em respeito ao direito canônico, com teto de 75 anos para o cargo.

Para dom Murilo, religião e política devem andar no mesmo lado da calçada sem, contudo, tropeçar uma na outra.

Ele diz não ver necessidade em lutar por uma bancada católica no Congresso. Acha legítimo, contudo, que o governo sofra pressão da Igreja, representante “de um grupo significativo [da população] que seria temerário ignorar”.

Uma das marcações será em cima de Dilma, que deve governar “acima do partido político” e “em benefício de todos”.

“Ela tem direito àquilo que todo governo tem: 100 dias para mostrar a que veio”, disse em entrevista à Folha, por telefone.

Para dom Murilo, a presidente deve encarar de frente “desafios [que] ficam um pouco escondidos atrás do ufanismo”. “O Brasil não resolveu muitos problemas. Basta olhar para os campos de educação, saúde, moradia. E não é só um presidente que vai resolver tudo.”

ELEIÇÕES

O futuro primaz do Brasil criticou o acirramento de ânimos durante a campanha eleitoral, quando a discussão sobre o aborto foi inflacionada na reta final do primeiro turno.

Afirmou que não cabe a um religioso orientar votos em candidato “x” ou “y”. Se for para manifestar uma posição, ele diz que o melhor é esperar pelo “consenso” na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), “para evitar uma aparente divisão”.

“Prefiro que temas assim [aborto] sejam levados à assembleia. Não é o que o bispo daqui ou o bispo dali pensam. Para isso, justamente, temos a CNBB. Esperar que 300 bispos tenham o mesmo ponto de vista sobre tudo…”

Questionado sobre dom Luiz Gonzaga Bergonzini (Guarulhos), ele voltou atrás e disse que cada religioso sabe o que é melhor para sua arquidiocese.

Nas eleições, dom Luiz não poupou críticas públicas a Dilma, a quem atribuía defesa do aborto, e chegou a chamar o PT de “partido da morte” e da “mentira”.

TABUS

Sobre temas espinhosos no último pleito, a visão do novo arcebispo de Salvador se alinha à de praxe na Igreja. Além do aborto, também é alvo de críticas a união homossexual, contrária “ao plano de Deus”.

Dom Murilo afirmou que não seria preciso “inventar a pólvora” para condenar o matrimônio entre duas pessoas, pois “o projeto de Deus” exposto na Bíblia já descarta esse tipo de união.

Questionado sobre a competição de outras igrejas, como evangélica e espírita, mensurou que 1/3 dos católicos no Brasil, batizados mas não praticantes, são “presa fácil de qualquer nova proposta filosófica, mistica e religiosa”.

MÍDIA E RELIGIÃO

Dom Murilo apontou como a maior falha da Igreja ter ficado para trás nos meios de comunicação.

Caso contrário, disse, aproveitariam um canal mais fluído com a população, sem ter “a voz sufocada” por alguns setores da mídia (não citou veículos específicos) que deturpam a imagem da instituição.

“Ter uma rádio ou TV em primeiro lugar no ibope não é importante, […] mas diria que a Igreja está muito atrasada nesse campo.”

HISTÓRICO

Com 10 livros publicados, dom Murilo é arcebispo de Florianópolis desde 2002.

Segundo a CNBB, ele tem formação em filosofia, teologia e letras. Em Roma, especializou-se em espiritualidade em Roma.

Como bispo, foi auxiliar de Florianópolis (1985-1991), bispo de Ponta Grossa, no Paraná (1991-1997) e arcebispo de Maringá, PR (1997-2002).

[b]Fonte: Folha Online[/b]